Moda: uma realidade sócio-cultural - Um pouco de história

A história da função do vestuário mostra que existe uma forte ligação entre cultura e moda, que se verificou ao longo dos tempos.

A moda, como a conhecemos, não existiu em todas as épocas nem em todas as civilizações. É necessário um conjunto de ideais estéticos, de desejos funcionais e vaidade “encoberta” para que se perceba a sua influência na sociedade.

A moda está ligada ao desejo de mudança, ao seu caráter efémero e à sua volubilidade, que é uma das características essenciais da moda.

Durante séculos homens e mulheres usavam uma túnica, igual para ambos os sexos. Nessa época não havia tendências nem estilos diferentes, nem moda masculina e feminina.

A diferença dar-se-á por razões sociais, em que o traje servirá para marcar as diferenças hierárquicas: clero, reis e faraós vestiam de forma diferente do restante povo.

Apesar  de que nestes primeiros tempos não houvesse traços de fugacidade característicos da moda, verificava-se  já uma íntima relação com o ambiente cultural. Na Grécia, as roupas defendiam o mesmo ideal de beleza clássica que a arte, que era a proporção entre as diversas peças.

Na Idade Média o vestuário relaciona-se com a pertença a um grupo. Havia nessa época os grémios, que se diferenciavam, entre outras coisas, pelos seus atavios. Começou então, a variedade e o movimento dos modelos.

Contudo, o aparecimento da moda só está referenciada a partir dos meados do século XIV. Surge uma nova forma de vestir, as mulheres e os homens deixaram de vestir-se da mesma forma e o estilo dos trajes está ligado ao contexto histórico-politico.

No século XVI o vestuário reflete o luxo e ostentação de um mundo em expansão.

No século XVII inicia-se o Século de Ouro francês, e desde então a França assume a batuta da moda, convertendo-se no principal cenário da moda, onde depois da revolução de 1789, se proclama oficialmente uma lei que outorga a liberdade total de vestimenta.

De 1868 a 1968, é chamado o século de Ouro da elegância, e vai desde Christian Worth, um costureiro instalado em Paris que teve grande êxito e foi ele o pioneiro a fixar as bases do que se denominará Alta Costura. Os seus desfiles contaram desde logo com luzes e música, convertendo-os num verdadeiro espetáculo. Foi, de certa forma, o pai das atuais “passerelles”.

Coco Chanel foi outro nome incontornável neste século, provavelmente a mais emblemática no mundo da moda.

Até então a moda “espartilhava” a mulher. Chanel percebeu que a verdadeira elegância só é possível com simplicidade e liberdade de movimentos. Adaptando o seu próprio estilo, trouxe para a moda um estilo baseado na simplicidade e harmonia. Ela era a criadora e a modelo, pensando na mulher real que iria vestir a roupa. Tinha, além disso, uma estreita ligação com uma élite de artistas e gentes da cultura.

Coco Chanel foi a precursora do “prêt à porter”. Os seus famosos conjuntos de saia e casaco, o famoso “tailleur” atingiram enorme sucesso, com o seu estilo funcional e delicadamente elegantes, nunca passaram de moda.

Este século de Ouro termina com outro genial costureiro, Cristóbal Balenciaga, estilista espanhol radicado em Paris, a que alguns chamaram o “Picasso da moda” ou o “Mozart da costura”. De facto, Balenciaga fazia dos tecidos autenticas obras de arte. A inovação era uma constante nas suas criações.

No final da II Guerra Mundial, verificam-se algumas mudanças que farão com que a moda ganhasse um ritmo vertiginoso, e que durou até aos dias de hoje.

As transformações que se deram ao nível da indústria permitiram baixar os custos e embaratecer a moda.

Antes, procurava-se a qualidade nas roupas, hoje pretende-se funcionalidade e o vestuário começou, então, a ser um produto de consumo da sociedade de massas.

Estas mudanças na moda dão-se também a par de mudanças sociais. A entrada da mulher no mundo do trabalho e na vida social exigiram que adequasse a maneira com se vestia a este novo estilo de vida. Nos anos vinte assiste-se a um encurtamento do comprimento das saias e os vestidos tornam-se mais cómodos e fáceis de usar.

A moda masculina mantém-se mais estável, enquanto a moda feminina muda rapidamente. A mulher do século XX trabalha, faz desporto, transforma a sua imagem e, indo mais além, adota uma peça até então exclusivamente masculina: as calças. Com este elemento de vestuário procura não só o conforto, mas veste-as também para manifestar, externamente, o seu desejo de alcançar, tanto no âmbito do trabalho, como no âmbito social, os mesmos direitos dos homens.

Nas últimas décadas do século XX observaram-se, de certa forma, duas “linhas” na forma de vestir. Por um lado há um estilo que vai variando com as “tendências” e de outro lado, manifestando-se como rebeldia a esta moda de algum modo “ditatorial” e como manifestação dos ideais da juventude, aparecem estilos de contraste, desde a estética hippy nos anos sessenta, ao punky dos anos setenta, à roupa desportiva dos anos oitenta ou ao grunge dos anos noventa. Estas tendências conjugam-se ainda com o estilo yuppie. Os yuppies vestem roupas de marcas poderosas, num estilo mais clássico durante o dia e muito luxo e glamour para a noite.

Nos últimos anos respiram-se “ares de completa liberdade” e nos dias de hoje as “fashionvictims”(termo utilizado para designar aquelas pessoas que corriam vertiginosamente atrás da última novidade de moda, sem consultar sequer o espelho, apenas por ser a última moda) são praticamente “espécie” em via de extinção.

Na moda, como em muitas outras facetas da vida, impôs-se a filosofia do “vale tudo”.

E podemos, de facto, comprovar esta nova tendência nas passerelles, onde vemos desfilar todos os estilos, que convivem amigavelmente desde o traje de noite com o estilo grunge, a estética hippy com as ombreiras , o couro com a seda, e por aí. Ou seja, impõe-se uma moda muito mais aberta que permita à mulher adaptá-la a si e criar o seu próprio estilo.

Clara Morais