O ARMAGEDÃO (E a Nova Arca de Noé)

“Depois vi a Besta e os reis da Terra com os seus exércitos reunidos para dar combate ao que estava sentado sobre o cavalo e ao seu exército”... “E todas as aves se fartaram com as suas carnes”
Apocalipse 19:19-21 

Há certos paradoxos que assumimos como axiomas dogmáticos, genericamente aceites e, como tal, respeitados sem que haja o cuidado de os fazer passar pela peneira da racionalidade, para não falar no crivo da ciência. Um deles passa pela credibilidade que se atribuiu às antigas previsões, provérbios e saberes. É verdade que muitos desses aforismos resistiram à erosão do tempo e passaram pelo aprimoramento da “seleção natural”, mas é igualmente verdade que o conhecimento atual é incomparavelmente superior e a sua base científica é muito mais sólida e segura. Contudo, sempre que tal se propicia, lá vem uma citação do Nostradamus, uma referência a rifão popular ou apenas a dito antigo, perpetuado de boca em boca. Estou certo que tal se deve a uma tendência natural que temos (e não só nestes casos) em sobrevalorizar as opiniões e factos que confirmam as nossas convicções e em desvalorizar todas as restantes por maiores e mais frequentes que sejam. Sempre que um acontecimento alinha com um desses prognóstico apressamos a anotar a coincidência, como reforço para a validade deste e esquecemos totalmente todos os casos em que tal não se verifica. Quando João Baptista anunciou que o Reino dos Céus estava próximo, os que o ouviram na altura supunham tratar-se de uma questão de anos; os primeiros cristãos julgaram que seria logo nos séculos seguintes; no virar do milénio, houve quem jurasse que seria esse o tempo do Fim do Mundo a que se referia o profeta e que o Apocalipse do seu homónimo prenunciava. Há quem garanta que o Julgamento que há-de finalizar a aventura humana no Universo acontecerá brevemente. A  estes junta-se a vox populi que desde pequeno me lembro de ouvir aos mais velhos que a ouviram de outros velhos a quem os mais velhos dos velhos tinham confiado: “O próximo dilúvio será de fogo”. É tempo de partilhar o temor que os olhos caldeados pelas agruras da vida me transmitiam. 
Se é de fogo o dilúvio, de que material será a Arca e quem poderá ter lugar nela?

Outro dos mitos que vai fazendo o seu caminho, nunca provada, mas também nunca desmentida, a que o passar do tempo tem conferido credibilidade, é crença numa confiança desmesurada de que, por mais desastrosa que seja a nossa atuação ecológica ou outra, o génio humano há-de, antes do cair do pano, descobrir e implementar uma solução que previna males maiores ou irremediáveis. O problema desta convicção é que por mais confirmações que tenha, nenhuma lhe confere valor perpétuo. Pelo  contrário, uma única exceção chegará para, de forma dramática, a destruir completamente!
É bom que nos disponhamos a encarar seriamente estas duas hipóteses que, infelizmente, cada vez mais se assomam no horizonte dos dias que passam: o dilúvio de fogo como peça principal do Armagedão e a incapacidade para, desta vez, haver qualquer solução milagrosa ou de última hora que o evite.
Haverá uma Arca, seguramente. Não será necessário emparelhar todos os casais de animais nem exemplares de plantas conhecidos já que um banco de genes, devidamente acondicionado será sufciente para preservar a biodiversidade! Quanto à humanidade, que não haja dúvidas: apenas os ricos e poderosos terão lugar na nave salvadora. Tal como há milhares de anos, a salvação não é universal e apenas os “escolhidos” terão o privilégio de se furtarem à destruição global. Contrariamente aquele tempo, contudo, a escolha não é divina, mas muito terrena e muito baseada na riqueza e no poder. Mas, quer uma quer outra, apenas existem e são detidas por uma elite porque lhes foram conferidas pela imensa mole humana que para ela trabalha, lhe confia o voto ou lhe garante a segurança e a poderosa perpetuação aos comandos dos instrumentos de poder.

“Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando já os seus ramos estão tenros e brotam folhas, sabeis que o verão está próximo” Marcos 13:28

José Mário Leite