Onde estão os planos?

Era com esta frase que os inspetores dos anos oitenta se faziam anunciar nas escolas do primeiro ciclo, aterrorizando professores que se iam adaptando a um outro método de ensinar e fazer pedagogia. Os alunos já estão em férias, os professores continuam nas escolas e não é sobre tais planos que se irá refletir, pese embora, o campo da educação esteja minado por casos que colocam em causa a credibilidade da equipa ministerial. Não bastava a fuga de informação do exame de português, vem ainda a Sociedade Portuguesa de Matemática afirmar que há um erro no de matemática e, sem fonte, mas com constatação, a impressa informa que há diretores a pressionar os Conselhos de Turma para que passem os alunos com cinco ou mais negativas. O gabinete do ministro nega; a imprensa reitera; e a realidade confirma: sem sucesso não há crédito; sem crédito não há financiamento e o conceito empresarial chega à escola pública tão ou mais sub-repticiamente do que a municipalização dos estabelecimentos escolares. Certo e sabido é que a educação deixou de ser prioridade socialista, as expectativas defraudadas e cada vez mais o espectro político e a identidade ideológica se vai esbatendo para mal dos cidadãos.

Os planos que nos preocupam são outros. Todos os anos, por esta altura, ouvimos falar do ordenamento do território como uma necessidade imperiosa para por cobro a tantos hectares queimados e a tantas vidas que já neste ano se perderam. Com tantos organismos envolvidos, e com a fé que nos carateriza, devemos acreditar que muitos planos já estão concebidos, bens e populações salvaguardados. Tudo estará elaborado, mas tudo está no segredo dos deuses porque esta é a matriz com que as instituições da nossa democracia estão habituadas a trabalhar. “— Quando ocorrer um fenómeno destes, todos os agentes sabem o que devem fazer. Está tudo coordenado e devidamente planificado” – com esta ou frases semelhantes afagam-nos o ânimo e os dias vão passando. Já assim não é quando, efetivamente, as coisas acontecem, as populações estão isoladas e sem planos de contingência ou de ordenamento capazes de lhe salvar as vidas porque não estão efetivamente elaborados, há um total desconhecimento dos mesmos e em momentos de catástrofe não há ninguém que seja capaz de, calmamente, se debruçar sobre os rabiscos e as linhas de evacuação ou tenha paciência para aguardar que o socorro chegue quando estradas estão cortadas e do céu não vem ajuda.

Não sendo saudosista, mas correndo o risco de ser apelidado de retrógrado, quer parecer-me que se a classe política conhecesse um pouco mais da história contemporânea, e os organismos responsáveis pela prevenção e combate a incêndios assumissem verdadeiramente a dimensão pública da sua missão, bastaria retomar aquilo que foram as campanhas de dinamização cultural e ação cívica dos anos setenta promover, com outras metodologias é certo, as necessárias ações de sensibilização e de promoção dos valores ecológicos e ambientais, neste caso, junto das populações que, resistindo ainda, ocupam os recônditos lugares deste Portugal profundo. Comparado com a eternidade, o tempo que medeia entre o momento em que os helicópteros paravam nos adros das igrejas e o agora é nada; evoluíram as técnicas de comunicação e de divulgação da informação, mas regrediram os agentes e os protagonistas no terreno. Antes, criava-se, decidia-se e executava-se; ia-se às aldeias, às vilas à rua e ao bairro e intervinha-se. Hoje, formula-se em Lisboa, aplica-se no gabinete e avalia-se entre quatro paredes. E a diferença fundamental é esta: já não se sabe vestir a camisola por causas públicas.

Raúl Gomes