O leão

Há semanas foi o gato. Desta feita é o leão, Cecil segundo a certidão narrativa da sua morte cuja causa são cinquenta mil dólares pagos a «defensores» de animais por um desalmado americano (tinha de ser ianque) próspero dentista. Realmente, eles fazem-se pagar muito bem. Eu à guisa de graça chamei joalheiro ao que tem por missão manter a minha dentadura (nos círculos artísticos, do calão e linguagem hieroglífica denominada teclado) e ele não achou piada. Vinte minutos de retirada do tártaro, que não dos tártaros, custou cento e vinte euros, porque rir à conta aumenta a capitação.
Pois bem, o leão mundialmente conhecido teve o azar dos Távoras, fosse outro, seguramente, a cousa nefanda enterrava-se junto ao corpo sem cabeça. O famoso e «estrénuo» defensor dos direitos do homem cujos formidáveis feitos o tornaram tristemente conhecido, Robert Mugabe assim se chama o miserável, insaciável vampiro chupista da riqueza do Zimbabué, não passa de um miserável, vai aproveitar a selvajaria cometida contra o felino para se enaltecer. Ordenará duas operações de cosmética, castiga os cúmplices do caçador de cabeças a embalsamar, não esquecendo o confisco dos dólares por eles cobrados a serem gastos em Hong-Kong pela esposa, os ditadores têm esposas, mulher deslustra.
As redes sociais dizem-nos quão grande é o furor dos defensores dos animais irracionais, a sabida Jane Birkin aproveitou a onda para repudiar o seu luxuoso saco ou carteira pele de crocodilo da chancela Hermès, antes ganhou a dois carrinhos, agora lucra a três. Lá no Olimpo dos fumadores e bebedores a sério, Gainsbourg deve estar a vomitar as tripas imitando a ressaca de monumental pifo de Conhaque de sete estrelas.
Ninguém de bom senso sentirá regozijo ante o acontecido, no entanto, manda a verdade escrever a incomensurável hipocrisia reinante nesta matéria, tal como noutras de igual similitude, prevalecendo um puritanismo hipócrita a lembrar outros de má fama.
Atarraxa-me o entendimento o facto de o afã na salvaguarda dos ratos espécie especial um, das formigas super, dos lagartos gourmets especialistas no deglutir deliciados as abelhas do Sr. Armindo, de Vinhais, não se estender aos bípedes racionais que diferem dos restantes porque…cozinham. Dedicado companheiro do extraordinário e enciclopédico Dr. Johnson proclamou: o que distingue o homem dos restantes animais é facto de cozinhar.
Porque o acto de cozinhar já possui legiões de inimigas, a maioria dos jecos só gosta de praticar petiscando, sou levado a crer que a renúncia produz o feito de lhes potenciar a acrisolada afeição aos bichinhos prejudicando as crianças, mulheres e homens alvo da ferocidade do bicho Homem. Será que o drama dos refugiados não comove? E, as imagens de Calais, campos de acolhimento, os naufrágios não justificam, pelo menos, tanto desvelo como o roedor de Outeiro, o gato de Mourão e o leão defenestrado?
Sim, o leão é o rei dos animais, no tempo do Cine Camões o da Metro aparecia sempre ensonado, o Ricardo a espadeirar ganhou o apodo não a juba, outros leões exclamam: este ano é que é! Até pode ser, o que não pode ser é a terrível indiferença dos envernizados relativamente aos pés rapados ou patas ao léu. Os da Patuleia? Das muitas Patuleias?
A continuar a falta de adequada resposta dos países ricos à fome de tudo das multidões em movimento, redundará num mar de sangue a salpicar as roupas perfumadas dos protestantes de poltrona, esperemos que não aconteça, pois desatado o odre do vento maléfico o sopro tombará todos os «civilizados» tal como os bárbaros derribaram as muralhas do império romano.
O esquecido Toynbee legou-nos palavras agudas de significação sobre o declínio e esgotamento das civilizações. Mesmo em tempo de farândola leio-as, delas retiro lucro ganhando distância relativamente aos caçadores de votos useiros e vezeiros no misturar chumbo miúdo no milho a dar aos pombos e pardais cegos pela gula.
Armando Fernandes
