Região

Está interessante este mês de Agosto

Está interessante este mês de Agosto
  • 18 de Agosto de 2015, 13:27

Agosto costuma brindar-nos com aquilo que é típico da época embora venha embrulhado num invólucro de modernice e inovação. Os festivais sucedem-se, os incêndios vão acontecendo e os políticos vão a banhos apesar das eleições estarem à porta. Não fora a “gafe” dos cartazes – os de uns foram contestados pelo facto das pessoas não terem dado autorização para usarem a sua imagem e a mensagem apresentava tal rigor histórico que foi “um tiro no pé”; os dos outros saíram primeiro para a rua e só depois se lembraram de obter a necessária autorização para o uso da imagem. A licença de uso de fotografias para fins políticos tornou-se assim o assunto politicamente mais relevante. Parece que alguém decidiu dar algo para nos entreter enquanto eles se ocupam de coisas mais interessantes nomeadamente… as férias. A par disto, num dia, os ecos da ida de David Cameron ao Centro de Saúde de Monchique por causa de uma otite, e no seguinte, recordam-nos que o mesmo “bebe imperiais no Algarve” já que não pode ir a banhos. Não duvido que qualquer plebeu com dores de ouvidos se sentirá com a autoestima mais elevada ao pensar que destes achaques até um dos mais ilustres súbditos de sua Majestade sofre.
Quem gosta da escrita e escreve pelo simples prazer de escrever, tem a oportunidade de se deslumbrar porque, a partir de agora, vai ser o Fisco a decidir se uma crónica é uma obra de arte ou um serviço e como tal se pode, ou não, ser taxado como propriedade intelectual. Deste modo também os cronistas têm um motivo para entreter a razão e, sobretudo, para estar na constante expectativa de, um dia, ao abrir a caixa do correio, se depararem com uma carta das Finanças para fazer prova daquilo que não ganhou. Já imagino o cordial funcionário da Autoridade Tributária e Aduaneira a sacar de todas as páginas de jornal escritas pelo contribuinte e orgulhosamente apresentar as provas do crime: Escrever! Ficará ainda por resolver a questão se escreve por prazer ou por dever e aí terá de pensar-se na sobretaxa.
Mas o assunto que torna este mês mesmo diferente foi o destacamento por doença de centenas de professores. Desde quando é que professores, escolas e educação foram assunto de abertura de noticiários televisivos ou manchete de jornal numa época em que o que se quer é esquecer os manuais e tudo o que lhe diz respeito? Está o Ministério da Educação empenhado em ser diligente e mostrar serviço colocando estes professores nas escolas que desejam, diga-se em abono da verdade, que foram mesmo colocados nos locais que escolheram, e eis que há logo quem, dentro da classe se indigne. Numa profissão onde as cisões são uma constante desde há muito, encontrou a tutela uma forma de dividir ainda mais. Não foi o concurso em si que suscitou tais reações, mas ao jeito deste MEC, a colocação foi acompanhada de uma indicação aos diretores dos agrupamentos para, após a salvaguarda dos horários dos professores do quadro de escola, os restantes deverem ser distribuídos pelos professores destacados por doença de familiares ou sua, desde que o seu estado permita a lecionação. Assim os docentes do quadro de zona pedagógica – mais uma subversão introduzida no sistema que criou esta categoria com uma finalidade e depois converteu-a em outra – ficam privados de vagas que de outro modo lhes seriam reservadas.
Nos distritos de Bragança e Coimbra é onde se sente mais esta onda de indignação, proporcional ao número de professores que se candidataram a este destacamento. No que nos diz respeito, convém destacar que há um agrupamento na capital de distrito que já conta com cento e vinte e seis docentes nestas condições. Convém esclarecer que o concurso não é gerido pelas escolas que se limitam apenas a receber os professores que manifestando o seu interesse são aí colocados por um dos organismos do referido MEC. Também não interessará muito esmiuçar as razões porque tanta gente escolhe a mesma unidade orgânica, agora que isso é um problema para o diretor, aí não haja dúvidas. Problema é também para todos os que verdadeiramente necessitam deste tipo de mobilidade e são rotulados da mesma forma dos que se aproveitam desta situação por razões diversas das da natureza para que o concurso foi criado e esses poderão ser… muitos.
Deixando as frases feitas, a ausência de ética e a falta de valores, parece-me que esta questão deve ser vista numa perspetiva que vá mas além dos lugares-comuns e não diabolize ainda mais uma classe que vai vendo os seus direitos reduzidos e as obrigações a aumentar.
Uma grande percentagem destes professores pertencem à geração que concluiu os cursos nas décadas de oitenta e noventa, criando um projeto de vida que, no decorrer dos anos, não viu concretizado. Quer-me parecer que o professor é o único funcionário público que paga os materiais com que trabalha, seja de desgaste rápido ou de uso permanente. Por outro lado, ao deslocar-se do seu domicílio não tem qualquer ajuda de custo, nem há quem lhe pergunte se precisa de alugar casa para si e para a família porque, quero acreditar que alguns dos que se submetem a esta prática concursal não deixariam as cidades do litoral para vir para Bragança por muito forte que seja o apelo do torrão natal. Para além disso, o professor deve ser o único que, sistematicamente, continua em casa as tarefas que começa no seu local de trabalho. Se não tem de elaborar testes, tem de os corrigir, se quer ser um bom profissional tem de preparar as aulas e são horas que retira à família e ao seu descanso. Lembro-me de um miúdo de seis anos que, filho de professora, se virava para o pai, no mês de setembro, e dizia: “-Agora só voltamos a ter mãe em julho…”. Muitos destes profissionais poderão estar a manter duas casas, e a crise não passou ao lado quer na redução do vencimento, quer no aumento do custo de vida.
É de crer que fazem parte daquela primeira geração, nascida no após 25 de Abril, a quem tanto se prometeu bastando para o efeito o sucesso académico. A questão é que há vinte e poucos anos, ainda se faziam viagens de dez horas de Bragança ao Porto e ir a Lisboa era missão impossível. Numa terra sem horizontes e onde as oportunidades escasseavam, melhor escasseiam, e onde nunca houve poder instituído que se preocupasse em criar infraestruturas que fixassem os jovens, a opção era seguir o que parecia ser a porta para o sucesso: ser professor, na esperança de efetivar numa das centenas de escolas que existiam no distrito e aos poucos se foram extinguindo, vedando o sonhado regresso a quem um dia partiu. Nos anos oitenta, ainda havia os miniconcursos e rapazinhos de dezoito e dezanove anos iam ocupar vagas que licenciados de barba rija deixavam à mercê. Mas agora tudo mudou e nem para estes há lugar.
Se pensarmos bem, tudo isto é uma questão de física e atómos onde uns empurram os outros. O problema é que aqui já anda o cientista, melhor o matemático, a dizer que vai mandar averiguar e irá repor a legalidade. Esperemos que a bonomia de uns e os brandos costumes de outros se conjuguem para resolver a questão a contento. Quanto aos professores das “condições específicas” aos verdadeiramente doentes desejo que melhores dias aconteçam, para os outros faço votos que vistam a camisola do agrupamento para onde concorreram e não se esqueçam que foram eles que quiseram vir, ninguém os chamou e, já agora não se esqueçam de que a “sua escola” é aquela onde por sua vontade foram instalados.

Por Raúl Gomes


Proponha um artigo de opinião:
info@pressnordeste.pt
Abrir
Written By
admin