Do interior, do fogo e das cinzas

Um calo de muitos anos não nos deixa saltar de contentamento quando ouvimos, de vez em quando, novas promessas de atenção ao interior do país.
Por isso, de forma espontânea, franzimos o sobrolho, enquanto uma raiva, próxima do desprezo, nos leva a manter-nos mudos e quedos, como se nada tivéssemos ouvido, porque sabemos que alimentar esperanças de reversão da política miserável que nos trouxe até aqui é uma verdadeira tolice.
Mudam as cores, mas a insânia parece ter alastrado como a peste. No fim de contas, estamos à mercê de gestores do imediato, que exercitam a finta mas não procuram o golo que muda o resultado.
Estamos cansados da arenga com que vão tentando adormecer-nos o ímpeto e a coragem para escaqueirar a loja de quinquilharia em que se foi tornando a política do país, com efeitos desastrosos para três quintos do território.
Quando, há cerca de um ano, foi lançada a Unidade de Missão para o Desenvolvimento do Interior, alguns não deixámos que nos tomassem por lorpas, tornando claro que estávamos atentos às manobras de diversão. Até agora a acção da tal unidade de missão foi coisa nenhuma, apesar da festa de mais de centena e meia de medidas, anunciadas como formas de dar um mínimo de dignidade aos que resistem a amontoar-se alegremente no litoral, pressentindo a tragédia que o futuro nos poderá reservar.
Entretanto, por entre a fumaça que, no centro do país, chamou à atenção da NASA, passou quase despercebido o abandono da coordenadora da unidade de missão, Helena de Freitas. Naturalmente, as declarações que, até agora, se lhe conhecem relativamente à demissão, enquadram-se na anódina simpatia do politicamente correcto, iludindo, talvez a constatação de que não a tinham chamado para mudar o que quer que fosse. Pior, a unidade de missão, no momento das consequências do fogo avassalador, terá servido para um canhestro passe da mágica: passou a ter a sua sede em Pedrógão Grande, a cerca de sessenta quilómetros da costa atlântica, como se o interior se pudesse confundir com a mancha desgraçada de matas de eucalipto e pinheiro manso que substituíram a paisagem humanizada que, ainda não há muito tempo, caracterizava o centro oeste do território.
Até poderíamos arriscar que, com esta decisão, os responsáveis governamentais poderão estar a dizer-nos que o interior estará condenado a arder, para que depois se definam políticas para o território. Mas então, sobre as cinzas já nada haverá a fazer. Assim se cumprirá o desígnio diabólico de reduzir o país à faixa de areia e sal, de anafado e vil provincianismo, ao sabor das modas de um mundo sem rumo, sem referências e sem futuro.
A senhora ainda teve vergonha na cara, o que não parece acontecer com a liderança governamental, que considerará que “ para quem é, bacalhau basta”. Provavelmente terá razão porque, afinal, continua tudo sereno, como o entardecer nos cemitérios.
Teófilo Vaz
