Entrevista

“Os judeus transmontanos sempre se destacaram por profissões de grande relevância”

Olga Telo Cordeiro A propósito do Congresso Internacional Terras de Sefarad, que arranca esta quinta-feira, em Bragança, com o objectivo de reflectir sobre o passado judaico e a sua influência na nossa cultura, entrevistamos Fernanda Guimarães, investigadora sobre este tema, com 8 livros publicados

14 jun. 2017, 11:20

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Olga Telo Cordeiro

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A propósito do Congresso Internacional Terras de Sefarad, que arranca esta quinta-feira, em Bragança, com o objectivo de reflectir sobre o passado judaico e a sua influência na nossa cultura, entrevistamos Fernanda Guimarães, investigadora sobre este tema, com 8 livros publicados, bem como vários artigos em revistas e jornais, entre eles o Jornal Nordeste, e membro da comissão executiva deste congresso, que destaca o papel de relevante dos judeus transmontanos em Portugal e no resto do mundo

Qual o objecto da investigação a que se dedica?

São os judeus e cristãos-novos, especialmente do distrito de Bragança. O objectivo é de divulgar e dar a conhecer esta parte da a história de Portugal, que não consta dos manuais escolares.

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Concentro-me sobretudo nos transmontanos por várias razões, entre elas a minha origem transmontana. Nos anos 90, dois acontecimentos foram determinantes para o prosseguir e aprofundar o meu objectivo, quando o então director do Jornal Terra Quente, António Júlio Andrade, grande conhecedor da história do distrito, me propôs fazer uma parceria para a construção de uma rota dos judeus em Trás-os-Montes. Entretanto, na Universidade de Letras de Lisboa começou a funcionar a Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste e novas portas se abriram. Por outro lado, o arquitecto Richard George Henriques, natural da Jamaica e residente no Canadá, cuja família fugiu de Miranda do Douro, em 1640, convidou-me para lhe fazer assessoria na investigação sobre as origens da família.

Quais as fontes que utiliza para esta investigação?

Comecei por ler os grandes autores na matéria como Borges Coelho, Maria José Ferro Tavares, Elvira Mea e Anita Novinky.

De autores estrangeiros destaco Daniel Swetschinski, que informa sobre a família Suasso originária de Bragança, Markus Schreiber e mais recentemente Jacques Blamont, que me deram a conhecer o percurso de judeus transmontanos na diáspora.

Recorri ainda a fontes de informação fornecidas por Richard Henriques, que só em testamentos de judeus de origem transmontana me enviou cerca de 30, como de Daniel Cohen e Hannah Cohen Henriques (1718); de Abraham Lopes Liz, morador em Haia (1723), descendente do Dr. Francisco Lopes, de Bragança; assim como os referentes à família Rodrigues Brandão, originários de Vila Flor e moradores na Jamaica. No entanto, foi Schreiber que me levou à torre do Tombo, a minha fonte principal de informação. Pela leitura dos processos da inquisição consegui fazer ligações de parentesco com quase uma centena de transmontanos que, a dado passo, e pela mão de Fernando Montesinos, natural de Vila Flor, se deslocam para Castela onde se destacaram como homens de negócio e assentistas, ligados à exploração de sal.

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Qual o horizonte temporal da presença de judeus no nordeste transmontano?

No foral de Penas Roias e de Bragança consta a existência de judeus naquelas localidades. Para datas posteriores, socorro-me de Maria José Ferro Tavares, em “Para o Estudo dos Judeus em Trás-os-Montes séc. XVI”, que informa da existência de comunidades em Chaves, Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Azinhoso, Mogadouro, Alfândega da Fé, Vila Flor, Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta. Em “Os Judeus em Portugal no séc. XV”, a mesma autora faz um elucidativo levantamento populacional e nomeia, cerca de 90 indivíduos, no caso de Bragança, localidade que já então possuía a maior comunidade de judeus de Trás-os-Montes.

Que papéis sociais e económicos assumiam os sefarditas nesta região?

Os judeus transmontanos sempre se destacaram por profissões de grande relevância, com fortes ligações à corte e à nobreza. Nos primeiros anos é elucidativo o caso de Vinhais e Vila Flor. Desta última localidade, encontramos Bernardo Lopes, feitor da casa de Manuel Sampaio, em 1554; Lopo Dias, juiz em 1556, João Rodrigues, juiz ordinário, vereador da câmara e almotacé e outros. Como homens de negócios, os cristão novos dedicavam-se à cultura do azeite, sumagre, vinho, indústria da seda, mas também foram destacados médicos e advogados a nível nacional e internacional, em diferentes datas e países, os quais acumulavam muitas vezes estas profissões liberais com transacções comerciais, como é o caso de Manuel Fonseca Henriques, advogado, ligado à exploração de cânhamo, natural de Mirandela, irmão do Dr. Francisco da Fonseca Henriques, também conhecido por dr. Mirandela, que foi médico de D. João V e autor de várias obras, entre elas “A Âncora Medicinal, como conservar a vida e a saúde”.

Quais as relações dos sefarditas desta região com as actividades financeiras, comerciais e industriais no mundo?

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Os Cortiços e o e os Castros, originários de Bragança, foram banqueiros dos Filipe e de Carlos II. Presentemente, estamos a estudar um brigantino, Agostinho da Fonseca, que em Veneza vai fazer parte da nobreza daquela república lagunar. Outros houve, como o caso dos Isidro, de Torre de Moncorvo, que contribuíram para a formação da Bolsa de Frankfurt ou dos Suasso, descendentes do Dr. Francisco Lopes, natural de Bragança, que financiaram a subida ao trono de Inglaterra da dinastia de Orange.

Por outro lado, os descendestes de António Rodrigues Mogadouro, que conseguiram fugir para Inglaterra, como Diogo e António Rodrigues Marques, em ligação a seu primo Gabriel Medina, rabi em Livorno, souberam reconstruir a sua rede de negócios, quase desfeita pela inquisição, onde entravam, mercadorias como pérolas e diamantes da Índia.

Como descreveria a ascensão social e política de sefarditas na região no período da inquisição e nos séculos seguintes?

Nas primeiras comunidades encontramos referenciados alguns letrados, como médicos, mas sobretudos artesãos. Com os descobrimentos e a evolução da sociedade os artesãos deram lugar a homens de negócio.

O melhor exemplo é o caso de Bragança, com a evolução da indústria da seda a sociedade floresceu. No tempo de D. João V, assistia-se a espectáculos de ópera e na rua Direita oficiais trabalhavam nos tornos e os irmãos destes estudavam direito e medicina em Coimbra, como os Pissaro, Ledesma, os Novais de Sá e os Furtado de Mendonça.

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No séc. XIX, Jacob Rodrigues Pereira, originário de Chacim, a quem chamámos cidadão do mundo, sefardita e transmontano. Os filhos tiveram um papel na Revolução Francesa e os netos, os irmãos Pereira, dada a sua importância, constam da toponímia de Paris. Em Bordéus, são sobejamente conhecidos os irmãos Raba de Bragança, donos de um palácio em Talence, que foi visitado por Napoleão e terá sido utilizado como quartel-general das tropas nazis. Um dos elementos desta família foi Gabriel, aliás, Salomon Henriques Raba, nomeado cônsul em Bordéus. Menciono, por fim, o Dr. Jacob de Castro Sarmento, natural de Bragança, médico em Londres onde pertenceu ao Royal College of Physicians e foi o primeiro judeu a obter o grau de doutor no Reino Unido.

Qual o número de condenados à fogueira em auto de fé por professar a religião judaica desta região?

É impraticável fazer a contabilidade dos queimados na fogueira, na medida em que não é possível ler todos os casos do distrito. Só em Bragança foram levantados mais de 2000 processos. Basta-nos mencionar o caso de Carção, onde foram presos mais de 150 de cristãos-novos judaizantes e cerca de 20 foram queimados, cujos sambenitos se encontravam, até ao séc. XVIII, pendurados na igreja Matriz.

Há registos de sinagogas em que locais no distrito de Bragança?

Edifícios que funcionavam como sinagoga, antes do baptismo forçado, temos conhecimento da existência em Torre de Moncorvo de uma sinagoga na chamada Rua Nova. Fazer sinagoga era vulgar depois do baptismo e estes ajuntamentos aconteciam em qualquer casa de habitação ou mesmo entre as vinhas nos campos.

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