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Entre a consolidação e o bloqueio

Ter, 24/02/2026 - 16:13


A política partidária vive de ciclos, de equilíbrios delicados e de narrativas que, por vezes, colidem num curto espaço de tempo. O caso de Rodolfo Cidré Moreno, na concelhia de Bragança do PS, é um exemplo paradigmático dessa tensão entre afirmação interna e rutura política.

No espaço de semanas, o dirigente, que assumira a liderança da Comissão Política Concelhia, após a demissão de Artur Pires, apresentou oficialmente candidatura à estrutura que já dirigia desde novembro e, pouco depois, tornou pública a sua demissão, invocando “asfixia democrática”, desvio ideológico e falta de articulação institucional com a gestão municipal.

A sucessão dos acontecimentos é, em si mesma, politicamente significativa. A candidatura foi justificada com base na necessidade de um partido “mais aberto e participativo”, assente em três eixos claros: proximidade aos militantes, equilíbrio entre renovação e experiência e preparação para os desafios eleitorais. A mensagem era de coesão, mobilização e afirmação estratégica no concelho. A carta de demissão, porém, introduz um registo substancialmente distinto. Nela, Rodolfo Cidré Moreno aponta um alegado afastamento entre a autarquia e as estruturas partidárias, critica opções políticas que considera desalinhadas com a matriz socialista e denuncia um clima interno dominado por antecipação de disputas orgânicas, ambições pessoais e lógicas de aparelho.

Este contraste não é meramente retórico. Expõe uma fratura entre a narrativa de consolidação e a perceção de bloqueio. Ao mesmo tempo que defendia a necessidade de preparar o partido para o futuro, o dirigente conclui que não dispõe de condições para exercer o mandato com autonomia e dignidade.

A crítica à antecipação das eleições internas, ainda sem calendário definido, revela uma preocupação clássica nos partidos de vocação governativa, a tensão entre o tempo nacional e o tempo local. Num momento em que o PS atravessa uma fase de afirmação da liderança do seu Secretário-Geral, a dispersão de energias em disputas territoriais pode ser vista como ruído estratégico. Mas essa leitura convive com outra, a de que a vitalidade democrática também se mede pela liberdade de organizar alternativas e disputar projetos.

Mais do que uma crise esporádica, o que este episódio revela é a fragilidade dos equilíbrios internos quando liderança, estratégia e identidade não caminham ao mesmo ritmo. A política local amplifica divergências que, noutro contexto, poderiam permanecer latentes.

Num tempo em que os cidadãos exigem clareza e foco nas respostas aos problemas concretos, os partidos são chamados a demonstrar que sabem gerir as suas divergências sem perder de vista o essencial. Porque, no fim, a solidez de um projeto político mede-se tanto pela capacidade de governar como pela capacidade de se governar a si próprio.

 

Carina Alves, Diretora de Informação.