Quem é, afinal, o cuidador informal?

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Quando falamos do “cuidador informal”, falamos de toda a pessoa que assume como função, por tempo indeterminado, a assistência a uma outra pessoa que, por razões tipologicamente diferenciadas, foi atingida por uma incapacidade de grau variável, associada a uma perda parcial ou total de autonomia nas atividades da vida diária e que não lhe permite cumprir, sem ajuda de outro(s), todos os atos necessários à sua existência, enquanto ser humano.

Esta responsabilidade traz consigo, frequentemente, um prejuízo mais ou menos gradual de independência e um esgotamento físico e psíquico progressivo, com repercussões na vida e saúde do cuidador. Provavelmente conhece (ou é você mesmo) alguém que “cuida” informalmente de outra pessoa.

Estima-se que existam, em Portugal, pelo menos 800 mil cuidadores informais, a maioria mulheres. Neste sentido, foi aprovado pelo Parlamento, por unanimidade, a 5 de julho deste ano, e publicado a 7 de setembro, o Estatuto do Cuidador Informal.

 

O que é o Estatuto do Cuidador Informal?

O Estatuto do Cuidador Informal diz respeito a um diploma que regula os direitos e os deveres do cuidador e da pessoa cuidada, estabelecendo as respetivas medidas de apoio. Assumem foco particular a definição de cuidador informal principal e não principal, os deveres e direitos do cuidador e da pessoa cuidada, as medidas de apoio ao cuidador, a articulação entre a vida pessoal e profissional do cuidador e a promoção da integração no mercado de trabalho do cuidador informal principal. O que ainda não está contemplado neste documento são as alterações ao Código do Trabalho (que possibilitem aos cuidadores trabalhar a tempo parcial ou com um horário flexível, por exemplo) ou o reconhecimento retroativo dos direitos a carreira contributiva (para pessoas que deixaram de trabalhar para cuidar dos dependentes em casa).

O Estatuto do Cuidador Informal ainda está por regulamentar, mas as suas alíneas estão já disponíveis para consulta na plataforma eletrónica do Sistema Nacional de Saúde, em https://www.sns.gov.pt/noticias/2019/09/06/cuidador-informal/.

 

Como pedir o estatuto de cuidador informal?

O pedido tem de ser dirigido ao Instituto da Segurança Social, que o reconhecerá ou não, através da apresentação de um requerimento junto dos serviços da Segurança Social ou através do portal da Segurança Social Direta. Sempre que possível, a pessoa cuidada deverá dar consentimento. As condições e os termos do reconhecimento do cuidador informal e da manutenção do estatuto serão regulados por diploma próprio.

 

Quais podem ser as consequências para a saúde dos cuidadores?

O cuidador informal, pela exigência da atividade que presta, poderá estar sujeito a riscos particulares. São comuns os problemas de sono (seja a dificuldade em adormecer, o despertar precoce ou o sono fragmentado) e a fadiga. Pode, por isso, surgir a necessidade de tomar comprimidos para dormir ou de consumir maiores quantidades de bebidas estimulantes ou café que, por isso, poderão ter consequências nocivas para a saúde.

Problemas físicos, como dores de cabeça, dores de costas ou abdominais, poderão surgir. O esgotamento físico e mental pode, também, conduzir a problemas de memória, alterações do apetite e mudanças do estado emocional. É muito comum dialogarmos com cuidadores informais que expressam sentimentos de angústia ou tristeza, mudanças frequentes de humor e irritabilidade fácil. Além disso, sentimentos de solidão, de isolamento, de perda de contacto social e de desinteresse por outras atividades poderão também surgir. Não se sinta culpado se, porventura, chegar a sentir frieza pela pessoa que cuida: são sentimentos válidos e frequentes que poderá trabalhar com equipas de saúde qualificadas, tais como o/a médico/a e enfermeiro/a de família.

 

Quais os conselhos em saúde para o cuidador informal?

É importante que tenha em mente uma ideia muito clara: não pretenda suportar toda a carga sozinho! Mantenha contactos sociais com pessoas de quem sinta um apoio positivo e solicite, caso ache necessário, ajuda a familiares, amigos e/ou vizinhos da sua confiança. Apoiar-se nos outros não é um sinal de fraqueza, pelo contrário: é um ato de consciencialização e coragem!

Não se esqueça de cuidar também de si mesmo, pelo bem da pessoa que cuida e pelo seu. Recorde-se que o bem-estar do doente depende do seu próprio bem-estar.

É normal que, por vezes, se sinta triste, irritado, confuso, vazio ou até culpado. Em algumas ocasiões, vai sentir que nem o doente nem a família reconhecem todo o seu esforço. São sentimentos normais. Sinta-se à vontade para os partilhar com pessoas da sua confiança.

Seja tolerante consigo mesmo. Recarregue baterias e desfrute diariamente de algum momento de descanso ou lazer. O cuidador também necessita de companhia, afeto e apoio

dos seus amigos e familiares.

O sorriso e o riso, o amor e a alegria são fundamentais para o seu bem-estar geral e, por consequência, para a sua vida no convívio com a pessoa cuidada. Se se sentir bem não se envergonhe deste facto.

Permita-se solicitar ajuda através da assistência social do seu centro de saúde ou dos serviços sociais da comunidade. São eles os elos mais competentes para o informarem sobre as possibilidades de ajudas externas, dos recursos disponíveis na sua zona, e da possibilidade de inscrever o doente num centro de dia ou de fim-de-semana ou em centros temporários para descanso e alívio familiar.

Há várias associações e grupos de ajuda para cuidadores informais. Solicite informação sobre os mesmos. Aqui, poderá ter um espaço para partilhar a sua experiência e os seus sentimentos, as suas dúvidas e preocupações, receber informação e recursos pessoais e materiais. Não se isole!

 

Quando recorrer aos cuidados de saúde?

- Se tiver dúvidas sobre a doença, a sua evolução e os melhores cuidados para a situação particular da pessoa de quem cuida, contacte a equipa de saúde a quem costuma recorrer. Poderá, inclusivamente, elaborar uma lista das perguntas que quer fazer para não se esquecer.

- Se tiver algum problema de saúde que surja na sequência do seu trabalho como cuidador, nomeadamente dores de costas, queixas das articulações, problemas relacionados com tristeza, sono ou ansiedade, ou outros.

- Se se sentir sobrecarregado ou não se achar em condições para cuidar do doente.

 

Dr. Rui Paulo Magalhães

Médico Interno de Medicina Geral e Familiar

UCSP Santa Maria 1 – CS Bragança

Unidade Local de Saúde do Nordeste