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Bragança: anos de 1700: Quadros Sociais- Depósito dos Bens de José Henriques Nunes, Raba

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Nos círculos judaicos e entre os estudiosos da diáspora sefardita, a família Raba é muito conhecida. No entanto esse conhecimento está estritamente ligado ao sucesso da família em terras da diáspora e menos às suas raízes Trasmontanas. A grande maioria dos trabalhos publicados, inclusivamente por nós, versa a história da família a partir do século XVIII, passando mais ou menos em claro os 200 anos anteriores. (1) Sim que a história da família pode ser contada desde o tempo em que os judeus foram obrigados a batizar-se para poder viver em Portugal, em 1496. E por mais de 2 séculos que a inquisição reinou em Portugal, várias gerações de homens e mulheres da família Raba sofreram nas suas prisões. Um dos primeiros foi Henrique Afonso, sapateiro, nascido em Bragança por 1529, filho de Pedro Afonso e Catarina Gonçalves (provavelmente batizados em pé), que foi preso em 1589 e faleceu na cadeia de Coimbra em 3.4.1593. Acabou por ser sentenciado no auto de 27.6.1593 “em confisco de bens e seus ossos desenterrados e reduzidos a pó e cinza”. A viúva, Florença Carrião, foi presa 5 anos depois. Suicidou-se no cárcere da inquisição em 18.6.1598. A sentença, igual à do marido, foi lida no auto da fé de 20.9.1599. (2) Ana Furtado, filha de Henrique e Florença, era casada com João Fernandes, tratante, natural de Quintela de Lampaças. Face à vaga de prisões que assolou Bragança, um e outro rumaram a Coimbra a apresentar-se voluntariamente e confessar suas culpas de judaísmo. Mandada regressar a casa, Ana veio a falecer 4 anos depois, em 11.4.1599, em Bragança. Mas isso não impediu que o seu processo continuasse e o seu nome constasse dos sentenciados no auto de 6.5.1601. (3) Florença Carrião como a avó materna, filha de Ana e João foi também apresentar-se a Coimbra, em 22.3.1602. Não obstante, foram-lhe confiscados os bens, com sentença lida no auto de Maio seguinte. (4) Era casada com Francisco Rodrigues, sapateiro e este é o primeiro que nos aparece com a alcunha de Raba. O seu filho António Rodrigues, também sapateiro, foi casar e morar em Quintela de Lampaças, com Maria Pereira, igualmente filha de um sapateiro. Ambos foram presos, juntamente com 17 outros moradores, numa verdadeira operação de limpeza étnica da aldeia, lançada pela inquisição em dezembro de 1637. (5) Na geração seguinte, foi a vez do filho, Francisco Nunes Raba, também sapateiro, e sua mulher, Isabel Rodrigues. Aquele faleceu na cadeia, um mês depois de ser preso, em 24.6.1660, mas a sentença apenas foi lida 25 anos depois, no auto de 4.2.1685! (6) E chegamos a José Henriques Nunes, filho dos anteriores, que foi preso em 4.10.1705, juntamente com sua mulher, Maria Antónia, esta natural de Monforte de Lemos, Galiza. (7) Ambos voltaram a ser presos, saindo penitenciados no auto de 21.6.1711. Tanto da primeira como da segunda vez, foram condenados em sequestro de bens, cárcere e hábito penitencial perpétuo. E este é o tema deste nosso trabalho: seguir, na medida do possível, a execução do sequestro, matéria que raramente é tratada pelos historiadores. No texto anterior, quando tratamos dos bens sequestrados a João da Costa, apareceu-nos José Henriques, como procurador de Inês Lopes, sua mulher, a reclamar a sua parte nos mesmos bens. Dissemos também que João da Costa era tio materno de José. Resta acrescentar que Maria da Costa, sua sogra, mãe de Antónia, era igualmente sua tia materna. Numa linhagem de sapateiros e curtidores, José Henriques guindou-se a uma classe social mais elevada, apresentando-se como mercador e rendeiro. E quando foi preso, trazia arrendada a cobrança do real d´água no concelho de Bragança, um imposto que se cobrava sobre o vinho e a carne que se vendiam nas tabernas e açougues. Mandados prender com sequestro de bens, em Setembro de 1705, a execução do sequestro começou de imediato, ficando como depositário desses bens o ferrador Bartolomeu Rodrigues. O rol do dinheiro então recebido estende-se por 4 páginas do livro e certamente reporta a dívidas cobradas, conforme os livros razão encontrados na casa ou tenda de mercador de José Henriques. E começa com a cobrança de uma letra que António de Novais Sá tinha passado ao dito mercador. Fizeram- -se assim 393 721 réis. Procedeu-se também à cobrança do real de água a taberneiros de duas dezenas de localidades do concelho, correspondente aos 9 meses que eram passados na vigência do contrato daquele ano, no total de 195 710 réis. E também o que deviam pagar os obrigados dos açougues da cidade, que ascendeu a 100 500 réis. Para além disso, receberam-se 9 mil réis de um homem da terra de Miranda, em paga de umas gadanhas, 610 réis de 10 alqueires de farelos que se venderam, 9 600 réis de 2 presuntos que pesaram 24 arráteis e 5 340 réis que se encontraram na casa dos presos. Uma parte deste dinheiro foi logo entregue ao familiar do santo ofício que dirigiu a leva dos prisioneiros para Coimbra, incluindo nomeadamente 120 mil réis para alimentos de José Raba e Maria Antónia. Ficou o depositário Bartolomeu Rodrigues responsável por 665 638 réis. Esta foi a primeira fase do sequestro, feita com base no mandado de prisão. Com a leitura da sentença no auto-da-fé e decreto definitivo do sequestro, este prosseguiu. Assim acresceram 130 100 réis que se fizeram de leilões de bens móveis. Mas não se pense que tudo ficou para o fisco. Não que houve de acorrer a muitas despesas com os caminheiros que andaram nas cobranças pelo concelho, ao juiz de fora por presidir ao sequestro, ao escrivão pelas cartas, precatórios e mandados… haveremos de falar dessas despesas em próximo texto, mostrando que muita gente “comia” à custa dos presos da inquisição. Por agora diga-se apenas que estas despesas, no caso presente, ascenderam a 44 725 réis. Foram então contabilizados 695 620 réis em mão do depositário, assim como um macho, uma balança, uma fivela, botões, colheres e outros objetos de prata que, em 10.4.1707, foram entregues ao depositário do fisco na inquisição de Coimbra, o cavaleiro fidalgo, familiar do santo ofício, Gualter Ferreira da Costa, desobrigando-se daquele montante o depositário Bartolomeu Rodrigues. No entanto, ainda não ficou resolvida a liquidação do sequestro, já que ainda ficaram por arrecadar alguns dinheiros do real d´água e por vender alguns bens, como fossem gadanhas e cartas de jogar. E isto revela uma faceta interessante da atividade comercial de José Henriques Nunes Raba. Vejamos. A gadanha era objeto essencial para o corte da erva dos lameiros. Objeto de ferro, precisa de ser muito bem laminado e temperado e dificilmente haveria na região capacidade tecnológica para o seu fabrico. Possivelmente era importado de algum país nórdico ou da região da Biscaia. Seria o Raba o distribuidor destas alfaias pela região? Facto é que, em Fevereiro de 1709, ainda estavam 23 ganhadas por vender, entregues ao depositário. Quanto às cartas de jogar, sabemos que o “judeu” brigantino Eliseu Pimentel conseguiu, em 1703, o monopólio de venda pelo país. (8) Em terras de Trás-os-Montes, o negócio estaria na mão do Raba, conforme se vê da listagem de estalajadeiros/compradores de baralhos de cartas em dívida, que iam de Vila Franca a Vila Flor, de Lebução a Freixo de Espada à Cinta, de Bemposta aos Cerejais e a Lamalonga… Resta falar dos bens da tenda que foram arrematados por Francisco Henriques Raba, o filho mais velho de José Henriques pelo valor de 105 890 réis. Cresceram assim 280 542 réis das gadanhas, das cartas e da tenda, dinheiro que foi entregue por Bartolomeu Rodrigues ao novo depositário do fisco em Bragança, António Chaves Salgado, com certidão passada pelo escrivão Francisco Correia, em 2.2.1709, e com ordem para entregar aquele dinheiro em Coimbra, no prazo de 20 dias.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães