Ter, 30/12/2025 - 11:11
O ano que agora se fecha ficará registado, no Nordeste Transmontano, como um tempo de acertos de contas com o passado e de interrogações sobre o futuro. Foi um ano em que a justiça, a política, a economia e a identidade cultural se cruzaram de forma intensa, revelando tensões antigas e abrindo novas possibilidades.
O dossier das barragens do Douro simboliza bem essa encruzilhada. A decisão do Ministério Público de afastar responsabilidade criminal na venda das seis barragens pela EDP, mas de reconhecer a existência de impostos em falta superiores a 335 milhões de euros, veio confirmar aquilo que muitos denunciavam há anos, a legalidade formal não esgota a exigência de justiça fiscal. Num território que produziu energia, riqueza e impacto ambiental durante décadas, a ideia de que um negócio de 2,2 mil milhões de euros poderia escapar a uma tributação justa era difícil de aceitar. Este desfecho não apaga o passado, mas reafirma um princípio essencial, a lei fiscal não pode ser opcional, sobretudo quando estão em causa recursos estratégicos e comunidades historicamente sacrificadas.
Também na política local o ano foi de viragem. As eleições autárquicas alteraram equilíbrios considerados quase imutáveis. Em Bragança, a eleição de Isabel Ferreira encerrou um ciclo de décadas e inaugurou uma liderança marcada pela abertura à sociedade civil e pela renovação de protagonistas. Em Macedo de Cavaleiros, a mudança de poder revelou que o eleitorado continua atento e disposto a sancionar ou premiar projetos. Estas transformações mostram que, mesmo em territórios do interior, a democracia local está viva e responde quando existem propostas credíveis e trabalho consistente.
Nem todas as expectativas tiveram, contudo, um desfecho positivo. O fim da concessão das minas de ferro de Torre de Moncorvo travou um projeto que prometia investimento avultado e criação de emprego. O caso expôs, uma vez mais, a dificuldade em conciliar desenvolvimento económico rápido com exigências ambientais e administrativas cada vez mais rigorosas. Ficou a sensação de oportunidade perdida, mas também a mensagem de que grandes investimentos não podem avançar à margem das regras.
No plano nacional, o caso Hernâni Dias trouxe para o centro do debate a ética governativa. A demissão do secretário de Estado, sob suspeitas de conflitos de interesses, recordou que a confiança dos cidadãos nas instituições é frágil e depende de transparência absoluta. Mesmo sem condenações, a perceção pública pesa, e a responsabilidade política impõe-se como valor essencial.
Houve, ainda assim, motivos de afirmação e orgulho. A elevação de Mogadouro a cidade teve um significado simbólico profundo, reforçando a autoestima coletiva. No desporto, o Sport Clube de Mirandela devolveu alegria aos adeptos com uma época invicta. E na cultura, o reconhecimento dos Pauliteiros de Miranda como património cultural imaterial consagrou uma tradição que continua a dar identidade a todo um território.
No balanço final, este foi um ano que ensinou que o interior não é apenas espaço de resistência, mas também de exigência. Exigência de justiça fiscal, de ética política, de desenvolvimento responsável e de valorização daquilo que nos define. Um ano que não resolveu todos os problemas, mas que deixou sinais claros de que o futuro se constrói com memória, rigor e participação.
Carina Alves, Diretora de Informação.


