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Atenor serviu de montra das tradições do planalto mirandês

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Qua, 15/06/2016 - 15:35


Sexta edição da “Ronda das Adegas” atraiu mais 5 mil pessoas que, de caneca de barro na mão, provaram o vinho e descobriram tradições mirandesas.

A caneca de barro é a peça-chave da “Ronda das Adegas”. Com ela se entra em cada casa típica da aldeia, com o pretexto de provar o vinho ou licor que por aqui se faz, mas, isso é apenas um complemento da visita. O certo é que as tradições e objectos rurais tradicionais do planalto mirandês estão presentes em cada parede, em cada porta ou janela, em cada pedra das adegas ou “curraladas”.

Motivos que se complementam e que atraem cada vez mais visitantes, de várias localidades do país, ou até da vizinha Espanha. Ao entrar numa das adegas encontramos um grupo de amigos que veio da Guarda, pela primeira vez, mas garantem, que não será a última. “É uma boa iniciativa, estamos a gostar muito e gostaríamos de voltar a repetir, talvez para o ano”, referiu ao Jornal Nordeste Carla Carvalho. “Somos cerca de 40 pessoas. Temos amigos em Sendim e decidimos vir visitá-los, aproveitando para conhecer esta iniciativa, em Atenor”, contou o organizador desta excursão, Manuel Matos.

E enquanto se esvaziava a caneca, houve tempo para assistir à recriação de tradições. Algumas delas foram recriadas pelas mãos de um grupo de mulheres, a maioria da aldeia de Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro, que fizeram vassouros, rodelas e demonstraram as várias etapas do ciclo da lã, sem esquecer de acompanhar estes trabalhos com as canções tradicionais mirandesas. “Temos uma senhora que está a sacar, outra a torcer e outra a fiar a lã. Depois estamos a fazer meias tradicionais que se usavam, por exemplo, para os pauliteiros de Miranda do Douro”, descreveu a artesã Maria Delgado. Já Arminda de Castro conta que aprendeu esta arte em criança. “ Aos 8 anos já fazia as minhas próprias meias, com cinco agulhas. Depois, fiz meias rendadas para a minha filha e para a minha neta mas agora raramente faço”, confessou.

Além destas artes, houve também a recriação de outros ofícios como o de sapateiro ou oleiro. Da aldeia de Saldanha, no concelho de Mogadouro, veio, pela quarta vez, Isabel Marinha, de 55 anos. Demonstrou as etapas do ciclo do linho e expôs os seus panos e toalhas numa das “curraladas” que abriu as suas portas aos visitantes. “Aprendi com a minha mãe a fazer todas as etapas do ciclo do linho. Aos 13 anos comecei a trabalhar no tear. Mais tarde aprendi a fiar porque não tinha quem me fiasse. Dá muito trabalho e já há pouca gente a fazê-lo. Quase não compensa mas quem tem gosto por isto, como eu, não deixa esta arte”, referiu.

 

Outra das artes que está em vias de extinção é a de fazer cestos de vime. Aos 86 anos, Giolanda São Pedro, é uma das poucas mirandesas que mantém viva esta tradição. “Aprendi quando andava na escola. Na minha aldeia, antigamente, quase todas as mulheres sabiam fazer cestos e agora não há ninguém que faça. Também já quase não há vime. Antigamente as ribeiras andavam limpas, cortavam-se os salgueiros e agora já são grandes como freixos”, constata a habitante de Águas Vivas, no concelho de Miranda do Douro.

Atenor ganhou um novo impulso com a instalação de empresários vindos de outras zonas do país

A aldeia de Atenor tem apenas 95 habitantes, durante o ano, mas teria ainda menos se não fossem os empresários que se instalaram na localidade, nos últimos 15 anos, e que, além de pequenas empresas, criaram associações de promoção do património e das tradições locais. Desde logo, estes habitantes de Atenor se juntaram à organização da Ronda das Adegas, impulsionada pela autarquia local, há seis anos.

Bárbara Fráguas veio do Porto para o planalto mirandês há 20 anos e há 15 que está em Atenor, onde tem empresas na área do turismo, fotografia e de sabonetes de leite de burra. A empresária acredita que a complementaridade entre as ideias daqueles que vieram de fora e as tradições de Atenor é a chave do sucesso da “Ronda das Adegas”. “No fundo, acaba-se por trazer ideias e coisas novas, pelas pessoas que vieram de fora, mas é o trabalhar com as pessoas da região e a interactividade com as pessoas de Atenor, que emprestam as suas ideias e as suas casas, que é também muito importante e sem isso nunca resultaria desta forma”, considera.

Características que fazem da “Ronda das Adegas” um evento de sucesso. A juntar ao artesanato ao vivo, houve ainda concertos, passeios de burro e actividades desportivas.

 

Jornalista: 
Sara Geraldes