Culturas agrícolas na Foz do Sabor voltam a ser destruídas pela subida do caudal do rio

Qua, 17/02/2021 - 10:37


Agricultores falam em prejuízos avultados e que “ninguém assume a culpa”.

As descargas da barragem do Pocinho fazem aumentar o caudal da Foz do Sabor, em Torre de Moncorvo, e alagar os terrenos agrícolas que estão próximos da margem. O problema repete-se todos os anos e não há solução à vista. Na madrugada de quarta-feira, dia 10 de Fevereiro, a jovem agricultora Catarina Martins tinha vários hectares de terreno com 80 cm de água. Estima que os prejuízos podem ir até aos 50 mil euros, não só pelas hortaliças que foram destruídas, mas também pelo sistema de rega que poderá ficar danificado e algumas mangueiras podem até ter-se perdido, com a corrente da água. “As culturas acabam por ser perdidas porque a água vem com muito lodo, devido às descargas, e depois as coisas apodrecem, porque são culturas temporárias, como couve lombarda, couve-flor e brócolo e culturas permanentes temos laranjeiras. O problema é mais até o sistema de rega, fica todo entupido”, contou. A empresária reconhece que isto já não é novidade e que, em 2019, o caso foi muito mais grave, quando os terrenos ficaram cobertos com “dois metros de água”. Quanto aos apoios, pelos prejuízos causados, até agora nada. “Nós temos 500 mil euros de prejuízos de processos de cheias antecedentes, a decorrer em tribunal. Ninguém assume a culpa, ninguém assume nada. Podiam pensar em expropriar os terrenos e falar com os agricultores, mas nem chega a isso”, afirmou. Todos os anos, os agricultores vivem com a incerteza de como será o Inverno e se as produções sairão ilesas à subida do caudal do rio. Também Mário Martins viu as culturas ficarem destruídas e já estima “prejuízos avultados”. Dinheiro que não irá reaver, porque os “apoios não são nenhuns”, com a justificação de que “culturas anuais não são pagas”. “Uma pessoa fica desolada, porque é muito trabalho e não se tira rendimento por causa destas situações”, salientou o agricultor. “A culpa é de quem comprou as barragens, antes era da EDP”, disse, explicando que “deixam encher as barragens muito acima do que deviam de deixar”. Quem já pensou em deixar de fazer algumas plantações foi José Pinto. Cultiva apenas para consumo próprio mas, nesta altura, acaba por perder sempre algumas culturas. “O ano passado tive 2,4 metros verticais no local onde cultivo”, contou. Este ano, queria já ter semeado batatas, mas agora reconhece que se o tivesse feito, acabariam por se estragar. “Já temos medo de meter certas coisas no terreno em Fevereiro, porque acontece isto muitas vezes. Há coisas que eu já nem as cultivo”, afirmou. José Pinto chega mesmo a dizer que pessoas como ele, que não vivem da agricultura, “não ousam queixar-se”, visto que “não dá em nada”. 

Jornalista: 
Ângela Pais