O reflexo da pandemia na saúde mental dos jovens

Ter, 06/04/2021 - 11:37


Crianças e jovens têm manifestado ansiedade devido à alteração de rotinas e com ensino à distância. Os agrupamentos de escolas mantiveram acompanhamento psicológico à distância

“Passado um ano desde o início da pandemia é com alguma certeza que se afirma que existem consequências da pandemia na saúde mental”. Parece já ser claro que a pandemia tem vindo afectar a saúde mental das pessoas e as crianças e os jovens não são excepção. Segundo Sara Araújo, psicóloga no Hospital Terra Quente, as “alterações de rotina” e o “sentido inesperado” de tudo o que tem acontecido tem “consequências emocionais”. A ansiedade e angústia são sintomas normais na vida dos adolescentes, mas “até um determinado ponto”. A psicóloga Sara Araújo disse que o alerta começa quando estes sintomas interferem em muitos domínios da vida e incapacita a pessoa de ter sucesso escolar, de estar e falar com os outros jovens. Naqueles jovens com condição psicopatológica prévia, ou seja que já tinham alguma perturbação emocional ou alguma fragilidade psicológica, Sara Araújo afirmou que “os sintomas se agravaram com a pandemia, devido à privação de uma vida social normal, alteração de rotinas, alteração na relação com a escola e com os outros” e que as “pessoas em circunstâncias normais” têm manifestado sintomas relacionados com “ansiedade”. “Temos verificado um aumento de pedidos de ajuda”, disse, explicando que “muitas vezes são os pais que se apercebem alterações de comportamentos dos filhos, outras vezes são os professores”. Associado a estes sintomas, está também a desmotivação escolar. A pandemia veio alterar as rotinas e uma delas foi a aprendizagem presencial. Medidas apertadas para evitar a propagação do vírus levaram ao encerramento das escolas e o ensino à distância passou a ser a nova realidade. Mas até que ponto os alunos se mantém motivados para aprender segundo estes moldes? “Notamos que as crianças e jovens se queixam de um aumento de desmotivação em relação aos processos de aprendizagem, porque não é a mesma coisa do que estar no ensino presencial”, referiu. Também os serviços de pedopsiquiatria tiveram uma maior afluência durante este período de pandemia. Ainda assim, Sara Araújo considera que “tudo isto são reacções emocionais a um evento muito específico” e que tudo voltará à “normalização”. “Não se pode afirmar ainda que isto possa ter características de carácter traumático, que possam ter consequências a médio e longo prazo”. Fernanda Leal é psicóloga escolar no agrupamento de escolas Emídio Garcia, em Bragança, e também admitiu que os níveis de ansiedade dos mais novos estão “alterados”. No primeiro confinamento, em Março do ano passado, as escolas fecharam e parece ter tido consequências na saúde mental dos jovens. Segundo Fernanda Leal, quando retomaram as aulas presenciais houve “bastantes” alunos a pedir ajuda. Apesar de o acompanhamento dos jovens se ter mantido à distância, a psicóloga escolar antecipa e prevê que os pedidos de ajuda voltem a aumentar e, por isso, disse já estar a preparar-se neste sentido. Referiu também que durante estes meses em que as escolas estiveram fechadas, desde Janeiro, já foram identificados dois novos casos de alunos a precisar de apoio. “Muitas vezes são os alunos que pedem ajuda, mas outros ainda estão a tentar perceber porque estão tristes e acabam por não pedir já ajuda”, referiu.

Acompanhamento escolar

Neste segundo confinamento as escolas conseguiram preparar-se melhor para manter o acompanhamento dos “alunos mais problemáticos”. No agrupamento de escolas D. Afonso III, em Vinhais, os alunos com mais dificuldades de aprendizagem continuaram a ter aulas presenciais na escola. Noutros casos a psicóloga escolar do agrupamento continuou a acompanhá-los à distância, através de videochamadas ou telefonemas. “A psicóloga escolar continuou a acompanhá-los, tiveram alguns apoios síncrones. Contactava os pais, para perceber como estavam a reagir em casa e se era preciso irem para escola”, disse o director do agrupamento. Segundo Rui Correia “os psicólogos têm uma relação estreita com as famílias, porque nestes casos tem que se ter uma relação muito próxima com as famílias e só com o apoio da família é que se consegue fazer com que os alunos evoluam”. Todos os alunos estão escritos numa plataforma online que facilita a realização de uma reunião a qualquer hora. Para além disso, o agrupamento tem um Programa de Insucesso Escolar, financiado pela Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, com uma equipa de profissionais que dá consultas a estes jovens, mas agora à distância. Apesar da distância, Rui Correia referiu que não houve alunos a desistir do acompanhamento e que “alguns deles até tiveram mais acompanhamento do que no acompanhamento directo”. Quanto aos alunos com necessidades especiais, o agrupamento de escolas de Vinhais tem uma unidade dedicada a alunos autistas e, no confinamento, esses jovens foram encaminhados para a escola.

Absentismo escolar

A Comissão de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças (CPCJ) também tem vindo a desempenhar um papel importante no acompanhamento destes jovens, durante a pandemia. Em função da problemática da criança em causa o processo é distribuído ao técnico cuja profissão ou especialidade se enquadra na problemática sinalizada. No concelho de Bragança, a principal sinalização está relacionada com o absentismo escolar. “Nesta situação a CPCJ intervém e obriga as crianças a frequentar a escola de acolhimento. As justificações são que não têm o equipamento para aceder, muitas vezes não têm internet em casa, outras razões é que os pais não têm com quem as deixar”, explicou o presidente da comissão de Bragança. Carlos Lopes salientou que a CPCJ faz “a monotorização no local”, “acompanhamento por telefone com frequência” e reencaminha para outras entidades, nomeadamente a da saúde.

Maus tratos

Abril é o mês da prevenção dos maus tratos na infância. Com a pandemia, as famílias são obrigadas a passarem mais tempo em casa e o confinamento poderá ter levado a um aumento de sinalização de casos por maus tratos. Em Bragança, segundo o presidente da CPCJ não houve “aumento significativo de sinalizações de maus tratos durante este período de pandemia em relação aos anos anteriores”, mas reconheceu que o facto de as pessoas passarem mais tempo em casa “poderá criar alguma pressão”. Nestes casos, a Comissão de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças tem uma associação de aconselhamento parental, com pessoas especializadas, para fazer o acompanhamento das famílias.

Jornalista: 
Ângela Pais