Pós 25 de Abril: “A censura era sob forma de perseguição, mas isso não impediu que escrevêssemos o que bem entendêssemos”

Ter, 27/04/2021 - 11:46


Ernesto Rodrigues nasceu em 1956, em Torre de Dona Chama, no concelho de Mirandela. Veio para Bragança na flor da idade, onde vivenciou de perto o 25 de Abril, enquanto jornalista na imprensa local. Foi co fundador do jornal Enie, em 1975. As ameaças aos jornalistas e a censura fizeram acabar com o jornal. Foi para Lisboa em Janeiro de 76, onde vive actualmente. É poeta, ficcionista, crítico, ensaísta, tradutor de húngaro e professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Como é que um jovem com quase 18 anos vivenciou o 25 de Abril?

Eu ainda estava nos 17 anos e quer por acção jornalística, no Mensageiro de Bragança, quer logo a seguir ao 25 de Abril, tive uma acção que considero útil. O próprio 25 de Abril, essa quinta-feira fabulosa foi vivida a correr a cidade, sobretudo a Avenida do Sabor, que considerávamos que era onde estavam os ricos da terra, a cantar o Zeca Afonso, “Os Vampiros”, entoando “Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”. Foi assim uma espécie de loucura colectiva de jovens que no jornalismo da época anunciavam já os novos tempos.

Onde estava quando soube do golpe militar?

Estava no Liceu Nacional de Bragança. Às nove da manhã as aulas foram suspensas e passamos o resto do dia à espera das notícias de Lisboa para saber o que se passava. A partir do fim da tarde e noite e olhando para o canal único, a RTP, começámos a perceber que era um novo tempo.

O que é que lhe ia passando pela cabeça à medida que ia assistindo à revolução?

Desde Janeiro, em que o regime, com o lançamento dos secretariados para a juventude, procurava aliciar os jovens e nós percebíamos que havia ali uma cisão. Em Janeiro, dia 17, o ministro Veiga Simão visitou Bragança, eu pude entrevistá-lo, até para o único número do Jornal Novo Rumo, e percebíamos que havia ali problemas no regime e que a juventude, aliciada para outras medidas para um secretariado para a juventude, que se opunha à Mocidade Portuguesa, podia significar alguma liberdade de movimentos, como de facto passamos a ter. Percebíamos que algo estava em marcha, sobretudo a 16 de Março e com o livro de António de Spínola, que era vendido às escondidas e a nossa sensação era de que o próprio regime tinha gente avançada que ia minando o sistema e algo se anunciava. No dia 26 de Abril, há uma edição do Mensageiro de Bragança e nos textos que eu e Alcides Rodrigues apresentámos a censura já não caiu sobre eles.

Quando escrevia na imprensa local, sentiu de perto a censura e a falta de liberdade de expressão?

Não propriamente. Desde 72 que o Mensageiro de Bragança, dirigido por Manuel Sampaio, dava toda a liberdade aos jovens e nós sabíamos contornar essa censura. Teófilo Valdemar, Manuel de Jesus, Marcolino Cepeda, nós conseguíamos passar pelos pingos da censura, até porque o director dava-nos esse apoio. A censura era sobretudo moral. Em 73 estreei-me com um livro de poemas e sabia perfeitamente que desde o Governador Civil ao presidente da câmara, criticavam esses poemas, como já antes tinham criticado alguns desses textos do Mensageiro de Bragança, mas sem o cortar. Portanto, havia essa censura moral, mas não propriamente uma rasura completa. Depois do 25 de Abril, sim é que podemos falar em momentos censórios já no Enie, o jornal lançado por Carlos Pires, Teófilo Valdemar e depois colaborado por mim.

Como lidava com as críticas ao livro que lançou e também ao que escrevia na imprensa local?

Sem problemas. Esse meu livro abre com poemas cujo título era “Poemas em Café Democrata”. Em 73, numa cidade província, falar assim de democracia, era algo estranho. Por outro lado, eram poemas com uma linguagem muito trivial, do dia-a-dia e familiar e essa censura moral que referi, mesmo de professores, não me fazia mossa. Interessava-me mais a opinião dos colegas e mesmo pessoas autorizadas, como o Nunes dos Reis, que seria depois director geral dos impostos, que de alguma forma dava alento à juventude. Interessava-me mais essa opinião do que dos representantes do regime em Bragança.

E que estratégias utilizavam para fugir aos pingos da censura, para que os textos não fossem rasurados?

Por exemplo, em Bragança havia a chamada Ilha do Rei, que desapareceu aquando das obras da Sá Carneiro, e que era uma espécie de bairro de lata. Bastava que nós contássemos o que se passava nas classes mais baixas, com todo um discurso metafórico alusivo. Em Janeiro de 74 eu escrevi um poema que falava de martelo, de cachieiros, que tinha a ver com os presos de Cachias e “martello” com dois “ll” remetia para o Marcello Caetano, o primeiro-ministro. Havia assim maneiras de dizer as coisas contornando a censura. Mesmo depois do 25 de Abril o que interessava era fazer uma espécie de prosa de guerrilha sem declarações directas à situação, tudo muito oblíquo, para que não houvesse problemas.

Sentia que era um jovem revolucionário naquela época?

Em termos literários considerava-me. Ouvíamos o Manuel Alegre na rádio, íamos para as madrugadas do Florida, na cave, líamos “Um barco para Ítaca” e outros livros dele, entre uma cerveja e uma sandwich. O próprio comportamento, como nos vestíamos, desde as barbas às calças à boca-de-sino. Nós, jovens, tínhamos uma certa liberdade de movimentos. Lançámos, poli copiado, o jornal ONU, Organização das Narinas Untadas, só saiu um número mas era para dizer que não nos paravam. Bragança até 74 era uma cidade fechadíssima e tinha que haver maneiras de nos esquivarmos a esses poderosos que tinha o poder que o regime lhes dava.

Como é que foram vividos os meses que se seguiram?

Os meses que se seguiram foram de facto difíceis. Ainda em 74 houve uma espécie de solidão geral. Eu próprio pensei regressar à aldeia, hoje vila, porque havia um certo desconcerto no próprio liceu, não se sabia com que médias podíamos entrar para a universidade. Foi um verão de hesitações, indefinições para em Outubro concluirmos que ou íamos para o serviço cívico, ou então, como no meu caso, para França. Havia também a nível do país um desconcerto geral. Uma vez António Augusto Gonçalves, Alcides Rodrigues e eu fizemos um texto policopiado que distribuímos pelas caixas de correio à volta da Praça da Sé contra iniciativas do Telo Saraiva de Carvalho e, portanto, havia um certo ultra esquerdismo contra posições que não concordávamos e associavam-nos à extrema-esquerda e não era o caso. Foi para França e foi quando regressou que surgiu a ideia de ser co-fundador do Enie? O Enie nasceu já eu estava em França e só no regresso, em finais de Junho, é que fiz duas coisas, a primeira foi integrar essa equipa, e de alguma forma eu fui o causador do fim não só do jornal mas também em parte de quer Carlos Pires, quer o Teófilo Valdemar serem perseguidos e atacados fisicamente quando saíamos do café ponto de encontro. Concluímos que era melhor, para nos defendermos, acabarmos com o jornal e em Dezembro de 75 saiu a trigésima edição e foi o fim.

O Enie surgiu um ano depois do 25 de Abril, em 75. Quando escrevia para este jornal, aí sim sentiu censura?

A censura era sob forma de perseguição, mas isso não impediu que escrevêssemos o que bem entendêssemos. Essa minha reportagem que, presumo eu, deitou tudo a perder foi uma reportagem de um comício do CDS, em que Galvante Melo dizia simplesmente “temos que acabar com os comunistas, antes que eles acabem connosco”. Foi uma reportagem que se limitava a narrar o que já tinha acontecido e que lançou depois alguma celeuma, porque Fernando Subtil, do CDS, respondeu no Mensageiro de Bragança, entrámos em polémico e como algumas figuras do CDS e até da extrema-direita não só ameaçaram como atacaram dois redactores concluímos que não valia a pena. Até porque Teófilo Valdemar e eu íamos entrar para a Universidade, no ano lectivo 75/76.

Houve então agressões e ameaças?

O Carlos Pires e o Teófilo Valdemar foram mesmo atacados fisicamente e sabia-se que quando virassem ali em São Vicente podia haver de facto outros perigos. Estava tudo muito quente, muito desagradável. As sedes do PC eram incendiadas, os carros também, foi um verão tremendo.

Depois do Enie foi para a universidade, mas continuou a estar ligado ao jornalismo?

A colaboração nunca parou. Voltei depois ao Mensageiro de Bragança e ao Jornal Nordeste. Mas o interessante foi as polémicas que criámos.

Considera que as novas gerações têm noção da importância que teve a revolução do 25 de Abril?

Duvido, mas se fizerem o trabalho que lhe compete, um jornalismo rigoroso, o 25 de Abril sai homenageado e é o que importa. Um bom jornalismo é mais do que suficiente para justificar parte do 25 de Abril.

Pode dizer-se que se sente um privilegiado por ter vivido nesse tempo?

Posso dizer que fui privilegiado no sentido em que estando em Bragança conseguia acompanhar o que se passava em Lisboa, mesmo antes do 25 de Abril, que nos chegava no dia seguinte às três da tarde. Desde 68 que eu vim coleccionando suplementos literários e mesmo em 73 colaborando no Diário Popular e noutros jornais de Lisboa fez com que em 73, além de me estrear em livro, eu tenha entrado num antologia de Maria Alberta Menéres, “O Poeta faz-se aos 10 anos”, que eram poemas de jovens publicados no Diário Popular, de Lisboa. Eu tinha essa nostalgia, sobretudo dos vespertinos de Lisboa. Estar em Bragança mesmo antes do 25 de Abril, nós recebíamos o mundo no dia seguinte, mas vivíamo-lo de forma empenhada e sem o êxito que hoje tem as redes sociais e a internet nós estávamos à parte do mundo. Nesse sentido era privilegiado porque estava a par e esse é o instinto maior de alguém que desde os 14 anos escreve em jornais e viveu essa arte nobre e que alguns dizem ser a arte superior da literatura.

Jornalista: 
Ângela Pais