25 de Abril: A celebração de um fracasso histórico

Ainda que tenha aberto caminho para a democratização e correlativa modernização do país, o golpe militar de 25 de Abril de 1974 redundou num monumental fracasso histórico com três funestas dimensões: a descolonização, dramática, o PREC, antidemocrático e o Regime prevalecente, corrupto. Fracasso frustrante para os jovens militares que, sublimadas as reivindicações profissionais, leit motiv inicial do golpe de estado, assumiram o nobre propósito de bem descolonizar e melhor democratizar, acreditando que Portugal se tornaria num país desenvolvido, justo e democrático. Fracasso que alcança agora o fastígio com o Regime político vigente que favorece a corrupção, avilta a Justiça, malbarata a economia, aprofunda as desigualdades e faz da política social um entretém. Fracasso determinado, desde logo, pelas obscuras personalidades político-militares que emergiram espontaneamente com o golpe, sem outro mérito nem crédito. Começaram por destapar a caixa de pandora dos agentes maléficos que as crises políticas sempre regurgitam para voltar a mastigar: vende-pátrias, assaltantes de Estados, anticristos e miasmas da corrupção. E deixaram que o poder caísse na rua ameaçando, desde logo, a almejada democracia. Contrariaram os propósitos da maioria dos militares revoltosos, franquearam portas à descolonização criminosa, induziram parte das Forças Armadas a embarcar na aventura de sacrificar a secular nação portuguesa, e colónias, ao frustrado império soviético, imolando a liberdade e a democracia ao sinistro deus marxista- -leninista, o que significava implantar em Portugal um regime político totalitário, ainda pior que o anterior. Deram aso a que, na passada, alimárias diversas, aventureiros e oportunistas, tomassem o Estado de assalto para o espoliar e hipotecar aos grandes usurários e agiotas internacionais, num processo libertário que diziam progressista. Muitas destas insanas alimárias acabariam por se diluir em 25 de Novembro. As mais insidiosas, porém, continuam a esbracejar tentando acabar de vez e por todos os meios, com o que resta de Portugal. Agentes ímprobos procuram agora reescrever a História de Portugal a seu jeito, para melhor propagandearem os seus sinistros propósitos. História que não é só profusa no heroísmo, mas também o é na traição, como os historiadores mais probos nunca esconderam, os mais esclarecidos cidadãos nunca ignoraram e o próprio Épico, de resto, cantou. Atacam os monumentos pátrios mais emblemáticos, acusam de racismo e xenofobia o povo que foi campeão da miscigenação e estigmatizam os combatentes que não desertaram, embora o pudessem ter feito, como uns tantos o fizeram por covardia e poucos por ideologia, justiça lhes seja feita. Combatentes que recebiam uma bandeira em mão e embarcavam livremente, sem serem empurrados, para espanto dos diplomatas e correspondentes estrageiros que assistiam à cena. Obedeciam aos desígnios da História, tão-somente. Milhares de soldados negros que acabaram marginalizados e sumariamente fuzilados e soldados brancos que os vende-pátrias no poder continuam a destratar e a olhar com desdém. Cidadãos de todas as raças, credos e tribos, que acreditaram numa nova pátria que não os descriminava e antes os irmanava e projectava no futuro. Projecto que foi a alma mater do Exército mais humano da História que em simultâneo com a missão militar rasgou estradas, ergueu escolas e hospitais, tratou, curou, ensinou a ler e a escrever e matou a fome a milhares de infelizes. Que promoveu a paz e harmonia interétnicas e corrigiu os desmandos prevalecentes do colonialismo ancestral. Exército que durante treze longos anos se bateu vitoriosamente em três distintos teatros de operações, imensos e distantes, num esforço grandioso só possível a uma Nação com História longa e alma grande. Numa guerra que não opôs brancos a negros, asiáticos e africanos a europeus, mas apenas os que acreditavam na ideia de portugalidade e os que ambicionavam tornar-se herdeiros privilegiados do colonialismo, como se veio a verificar. Projecto que, para desgraça de milhares de infelizes, fracassou em 25 de Abril o que, face à miséria generalizada que grassa em África, representou uma enorme perda para a Humanidade. É este fracasso que os seus fautores procuram iludir com festas e celebrações porque de melhor coisa não são capazes. A História se encarregará do que falta: verdade e justiça!

Henrique Pedro