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Teófilo... meu irmão

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O ano de 2020 nasceu, praticamente, com a pandemia que assola o mundo. As más notícias começaram cedo e prolongaram-se até ao seu final. Quando, finalmente, pensava ver, ao fundo do túnel, uma ténue luz com o início da vacinação contra o Covid19, recebi a notícia, para mim, mais improvável, da morte do meu amigo, diria mesmo, meu irmão, Teófilo Valdemar Alves Vaz. Quando o nosso amigo João Manuel Neto Jacob telefonou, não quis acreditar por se me afigurar uma situação tão absurda e insana, que me parecia absolutamente impossível. Seria, com certeza um engano… mas, como sói dizer-se, as más notícias correm depressa. Não tive outro remédio senão assumir a sua veracidade. Os primeiros momentos foram muito difíceis. O que fazer agora sem a sua fina ironia, sem a sua empatia, sem a sua amizade, sem a sua defesa constante e esclarecida daquilo em que acreditava, sem o seu profissionalismo, sem a sua entrega aos projetos que desenvolvia? Nunca mais ouvir as suas histórias, desfrutar do seu sentido de humor, não mais apreciar o seu ar de desdém… Em Maio de 1972, Teófilo foi oferecer-se ao jornal da terra, neste caso o Mensageiro de Bragança, para lançar uma página a que chamou “Página de Participação Jovem” que, mais tarde, se viria a chamar “Participação”. Apresentou-se no gabinete do Director, o padre Manuel Sampaio, que acolheu, com muito entusiasmo, a sua proposta. Com a irreverência própria da juventude, dezassete anos quase feitos (a 31 de maio), propunha-se criar e desenvolver a página “Participação”. Pretendia, com um pequeno grupo de amigos, uma maior intervenção política e social, sem saber bem como iludir a censura ditatorial o que aguçou o engenho e a arte de todos. Foi, sem dúvida, um começo auspicioso e inseguro que a todos direccionou para o jornalismo. À terceira edição da página “Participação” (1972), como habitualmente fazia, fui comprar o Mensageiro de Bragança ao quiosque junto à Livraria Rosa d’Ouro, na Praça da Sé. Levava fisgada a ideia de conhecer Teófilo Vaz e de poder participar na página por ele criada. Escrevi-lhe uma carta e enviei-a pelo correio para o jornal. Hoje rio-me ao pensar no pormenor do correio, tão profissional, quando era tão fácil que nos cruzássemos no centro da cidade que, na altura vivíamos tão intensamente. Mas assim foi. Recebida a carta e prontamente respondida, combinámos encontrar-nos na Praça da Sé para falarmos com o director do Mensageiro, padre Manuel Sampaio que, de bom grado, aceitou a minha inclusão no projeto. Foi assim que nos conhecemos e começámos a colaborar, sempre com proveitosos trabalhos em nome da cidade e da região, nos jornais e noutros sítios. Nessa altura, já colaborava o Carlos Pires e o Ernesto Rodrigues começava a aparecer com alguns textos. Mal sabíamos nós que ali nasceria uma amizade de quase cinquenta anos. Convém referir que, com o passar do tempo, a nossa participação no jornal extravasou a “página” e, alguns de nós passaram a ser autênticos redatores. Também Jorge Morais e Desidério Martins, por exemplo iam apresentando alguns trabalhos. O dinamismo era evidente e a cumplicidade também. Esta forma de intervenção dos jovens não era inédita em Bragança, porque já havia uma página “A tribuna dos novos” em que alguns jovens apareciam a fazer poesia e a escrever textos de reflexão, como Amadeu Ferreira. Teófilo, para mim, é sinónimo de “presença”, de “amigo”, de “irmão”. Quis saber sempre de mim, nos bons e maus momentos. Nunca deixou de estar. Nunca deixou de ser. É impossível esquecer tantas coisas que fizemos juntos. Certo dia, em pleno inverno, durante a noite, com os nossos pujantes dezassete anos, depois de beber umas cervejas, eu, o Teófilo, o Manuel de Jesus e o Lino fomos gritar palavras de ordem contra o Dr. Salazar, para a avenida do Sabor. O Manuel de Jesus, já cansado, deitou-se sobre um pequeno muro que ali havia e adormeceu profundamente. Nós continuámos com a nossa missão até que alguém chamou a polícia que, prontamente se apresentou e nos levou para a esquadra onde tomou nota dos nossos depoimentos. Foi um valente susto. Fomos avisados de que se voltasse a acontecer, seriamos presos. Dessa vez, fomos mandados para casa. Manuel de Jesus continuou placidamente a dormir. Só no dia seguinte soube do sucedido. Depois deste episódio, Teófilo regressou a Angola, Luanda. Durante a sua viagem de barco, enviou-me um postal que guardo religiosamente. Queixou-se da viagem, em barco pouco rápido e prometeu voltar logo que fosse possível. Com a ausência dele, coube-me a mim, a responsabilidade de continuar com a página no Mensageiro, com a colaboração dos jovens que faziam parte do grupo. Podemos dizer que o papel desempenhado por todos nós assumiu algum significado na vida do Mensageiro de Bragança durante os anos de 1972, 73 e 74. Algum tempo depois da saída do Teófilo fui chamado ao gabinete do padre Manuel Sampaio que me transmitiu que o Senhor Bispo me proibia de escrever para o jornal: “Este garoto está expulso”. O padre Sampaio, apercebendo-se da minha desilusão e da hipotética injustiça, sugeriu-me que continuasse a escrever sob pseudónimo, o que fiz, utilizando, a partir daí, os pseudónimos José Valverde e Ricardo Faria. Chegámos ao 25 de Abril de 1974, tempo de todas as liberdades e, nessa altura, em “ato heróico”, decidimos demitir-nos em bloco através de um manifesto publicado no jornal, onde estavam todos os nossos nomes, aparecendo o meu nome em primeiro lugar. A demissão do grupo que escrevia para o Mensageiro de Bragança, deu origem à criação do Jornal “Énie”, que durou cerca de dez meses, até Novembro de 1975. Teófilo Vaz, já regressado de Angola, Ernesto Rodrigues e Carlos Pires foram os grandes impulsionadores desta publicação, sendo seu Diretor o Dr. Eduardo de Carvalho. Eu apenas escrevi um artigo para o primeiro número e fui entrevistado, enquanto Presidente da Associação de Estudantes do Magistério de Bragança, pelo Carlos Pires. Foi essa a minha participação nesta publicação. As nossas lides culturais não ficaram por aqui. Enquanto Presidente do Clube de Bragança, tive a honra de ter como Vice-presidente o Teófilo. Foi durante o nosso mandato que assinámos, no palco do Clube de Bragança, um protocolo com o então, Presidente da Câmara de Bragança, José Luís Pinheiro, que permitiu ao clube realizar três importantes acontecimentos: a 1ª Feira do Livro de Bragança, realizada de 30 de abril a 9 de maio de 1982, no Jardim António José de Almeida. Convém dizer que a ideia da Feira do Livro nasceu de uma crónica escrita pelo Teófilo no Jornal Mensageiro de Bragança, que eu fui repescar; a publicação da revista “Amigos de Bragança”, Boletim de Informação e Estudos Regionalistas, sendo Director o Dr. Eduardo de Carvalho e redatores Marcolino Cepeda, Teófilo Vaz e Ernesto Rodrigues, que também era o proprietário. A publicação do boletim prolongou-se de junho de 1984 até dezembro de 1986. Neste último número contou com a colaboração de João Manuel Neto Jacob; e, ainda, a instituição de um prémio para a realização de Concursos Literários sobre Trás-os-Montes. Cabe-me referir que durante esse mandato, contámos com a colaboração de Jorge Morais na elaboração do cartaz para a Feira do Livro. O gosto pelo jornalismo foi-se construindo paulatinamente e entranhando-se. Passou a assumir um espaço que era obrigatório preencher. Assim fez Teófilo embrenhando- -se na imprensa regional, esticando esforços pela rádio… tornou-se jornalista sem deixar de ser Professor. Incutiu valores de perseverança nos seus alunos, abriu horizontes e mostrou passados. E desde aquele sábado, em plena Praça da Sé, em que me gritou: “Já nasceu!”, tornou-se PAI, talvez o seu melhor papel. Deixa três filhos: Pedro, Helena e Inês; e uma neta, Maria Clara. E as nossas tertúlias, já homens casados, em noites incertas, lá pelas onze da noite, na minha casa, na rua do Loreto, regadas a vinho, cervejas ou outros quejandos, acompanhados por petiscos que a Mara, a minha esposa, preparava, com a ajuda de um ou outro elemento do grupo, numa mistura de sabores vários. Diria que a Mara ficou a conhecer-nos muito bem e se tornou mais um elemento do grupo. De tudo se falava, umas vezes riamo-nos e, por vezes, chorávamos por amigos que já não estavam. Ali nos perdíamos em histórias, romances e poemas, em anedotas e um quase-nada de má-língua. Nunca era tarde. Nunca nos cansávamos e, muitas vezes, ao raiar o dia, ensonados, dizíamos: “Até qualquer dia.” Com a certeza absoluta de que nos podíamos voltar a encontrar um dia qualquer, à mesma hora, no mesmo local… Já passou algum tempo desde a última vez em que todos estivemos juntos. Nunca mais conseguiremos reunir-nos. Custa-me admitir as ausências dos que já partiram. Amadeu Ferreira, Alberto Fernandes… e agora tu, Teófilo… São muitos amigos para perder em tão pouco tempo… As nossas vidas não voltarão a ser as mesmas. “Mudar o destino” foi o teu último editorial no Jornal Nordeste. Infelizmente, o teu destino não pode ser mudado, mas podemos todos, se assim o quisermos, mudar o destino desta região na qual tu decidiste viver e criar uma família. Onde conservas alguns dos teus melhores amigos. Região pela qual sempre lutaste. Bragança agradece. Obrigado amigo pelo tempo que sempre me dedicaste.

Marcolino Cepeda