Ernesto Rodrigues

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Adeus a Nuno Nozelos

Mestre no minifundo literário que é o conto, uma das especialidades transmontanas, Nuno Nozelos (Fradizela, 1931) faleceu, em 18 de Julho, na nossa Torre de Dona Chama, que lhe inspirou o clássico Gente da Minha Terra (1967; também título do excelente contista vila-realense António Passos Coelho, 1961). Em 2 de Julho, a terra homenageara-o, acrescentando o seu nome à toponímia local.

Poeta, estreia-se com Iniciação (1963) e Retrato (1964), assinando Nuno Álvares. Em 1987, podou essas árvores, para reeditar, em Vozes Distantes, 12 poemas daquele e 18 deste. Nesta trintena, há versos magníficos. De 1963, aconselho o segundo, “Paradoxo”, e o também soneto “Desejo louco”. De 1964, em que o ‘retrato’ do sujeito está no seu canto de fraternidade, realço “Aquele quarto de aldeia”, enquanto resumo de uma existência ‒ vista de ‘fora’, de ‘dentro’, e ‘em mim’ ‒, vida em choque permanente. É já de compleição citadina, e suas contradições revolvidas por esse ser solidário, o conjunto de 22 poemas de Canto Aberto (1973), reforçado por A Cidade e Eu, Poeta (1978). Aqui, se ainda paira lembrança aldeã («…E é isto mais ou menos a cidade / ‒ poulo na minha arada de poeta / onde às vezes, por milagre, / irrompe o caule de um verso.»), surpreendem-nos temáticas raras na lírica nacional, dedicadas ao metropolitano, aos semáforos ou ao “Supermercado”, muito antes d’A Caverna de José Saramago, que julgou inventar nos centros comerciais as modernas catedrais e a religião do consumo. Aos 70 anos, encerra Musa Preterida (2001) com um hino à Mulher, relação que perpassa no geral dos seus versos, e cujos ângulos, luzes e sombras pediriam um rastreio pormenorizado.

O ficcionista, porém, sobrepôs-se ao poeta, na recepção crítica. O diário inaugural de Ambos, Afinal... (1973) começa a ser escrito em 1969. Dois anos antes, saíra Gente da Minha Terra. A cidade recentra o olhar de quem inventaria pequenas cenas do quotidiano e mostra o interior e exterior das criaturas, em oposições violentas: cisne branco / águas fétidas, pureza / imundície, etc. São 13 narrativas em que vozes ‒ por meio de diário, carta, diálogo, monólogo ‒ se desnudam nos seus sonhos e fracassos, ou vivem vidas alheias, como a intitulada “Um homem estranho”, que é uma obra-prima. São, ainda, de assunto urbano Histórias ou Algo Mais (1985), Relatos Nebulosos (2003), em que realço o sarcasmo sobre os enganos conjugais, e o romance Soçobrado (1992).

Se, em Ambos, Afinal..., poderíamos eleger os autores preferidos do narrador, neste romance, temos o universo da pintura, figurado na insatisfação de um ex-docente da Escola Superior de Belas-Artes e pintor, Luís Sacadura, de origem transmontana. Entre a frieza, fuga ou insulação da esposa Marília e a sedução de uma Sónia que se revelará seropositiva, assistimos às relações promíscuas de finais de 80, em tempo de também política com Gorbatchov, ou ao incêndio do Chiado em 1988, intervalando com um quadro de Mirandela no capítulo X e larga demora em aldeia vizinha. O regresso à capital é doloroso: morta Sónia, igualmente infectado pela SIDA, Luís suicida-se…

A vertente localista e regional está, antes de Contos Nordestinos do Natal (2008), na dúzia de Ecos de Nordeste (1999), ecos que se diluem pela Linha de Cascais e aforas do Nordeste, mas prolongam, na sua maioria, o já clássico Gente da Minha Terra.

No prefácio da 3.ª edição (1987) deste, Nozelos diz ter procurado construir «uma tela, embora modesta, que retratasse as gentes nordestinas, relevando essencialmente a sua personalidade, os seus costumes, o seu linguajar e as suas carências. Tela que, como salientei na nota prefacial da segunda edição da obra [1975], se inspirou em motivos colhidos “no alfobre da minha infância e juventude”.»

Entramos facilmente em literatura que é a do nosso chão. Depois, a resistência é virtude dos sobreviventes; e temos «a força inabalável dos fraguedos», como, em decassílabo de “Pretenso auto-retrato” (Delações Poéticas, 1996), Nuno Nozelos caracteriza os transmontanos.

 

Bragança a um passo de Madrid

Bragança está a 40 quilómetros de Otero de Sanábria, aldeia onde, em 2018, vai parar o comboio de alta velocidade (AVE) na ligação Galiza-Madrid. São menos de 400 quilómetros até à capital espanhola, que se podem fazer em duas horas, ou menos, se houver bom-senso político nas duas capitais. Isto significa uma rodovia decente, que não obrigue a perigosos 54 minutos, no mínimo, para chegar a Puebla de Sanábria e a um lago magnífico, muito concorrido no Verão. Do lado de lá virão mais facilmente ao Parque Natural de Montesinho e à Domus Municipalis.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o crescimento do turismo em Bragança foi superior, na comparação entre 2014 e 2015, à média da região Norte, noticiou este jornal. Imagine-se, em regiões transfronteiriças deprimidas, o impacto de um AVE à porta. Conjugado com o aeródromo, Bragança estaria a distâncias próximas de Lisboa, Porto e Madrid: era um acto de justiça. Para isso servem as cimeiras ibéricas.
Quando se lançava o projecto do túnel do Marão, titulou o Expresso (7 de Abril de 2009): “Nove auto-estradas não são necessárias”. Mais do que erros de previsão, houvera cedências políticas. Em seis meses de abertura daquele, a empresa pública Infraestruturas de Portugal reconheceu ter o tráfego ultrapassado as expectativas. Só quem não conheceu o IP4 pode falar de favor político – quando, de facto, era o Estado que há muito estava em dívida com a região.
Melhor: está em dívida. Há estradas que não são deste milénio, tantas as viragens e reduções de velocidade, limitada a 50 quilómetros. Pagar cada país metade do percurso (e Portugal menos ainda) era um investimento de futuro nesta Europa dita das regiões. Como repete o presidente do município de Bragança, Hernâni Dias, tudo vai da vontade política, que um ano de eleições poderá clarificar. Roubado o comboio à cidade (roubado, literalmente, em noite cobarde), outro se aproxima, mais europeu, a menos de 30 quilómetros em linha recta. Haja vontade.

Alberto Fernandes: in memoriam

Amicus est alter ego, dizia Pitágoras, na linha de Marcial, Cícero, Séneca, Horácio, Santo Agostinho, Montaigne, D. Francisco de Portugal e tantos mais. Ressinto, pungente, este «outro eu» da amizade, na manhã de quinta-feira, 27 de Outubro, em que vai a enterrar Alberto Fernandes: é uma injustiça; e, se eu desejava estar com Henriqueta, Maria João e Maria Henrique, o mínimo que posso fazer é lembrá-lo, num entendimento de 45 anos.
Entrávamos na juventude, com um pé na insatisfação. Arguto, modulando ironias num sorriso, Alberto respondia aos nossos fervores com uma reserva de quem pisava o chão (vindo de família numerosa), e, mais do que a página que nunca deixou de o acompanhar, sentia a desigualdade social como tarefa urgente a vencer.
Assim, já na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se formou, o pós-25 de Abril fê-lo radical de Esquerda – contra certa Esquerda, e a Direita que, em contra-manifestação, o levou ao hospital e à prisão. Sucederam derivas entre Portugal e França, empregos menores que a coragem suportou: quando vivíamos no Bairro Alto, o autocarro madrugador apavorava-o. Descansávamos num filme e nas intermináveis conversas sobre literatura, Lisboa fora.
  Foi quando, vencendo essa visceral reserva, consegui estreá-lo em volume. Acácio Trigo e eu já tínhamos publicado; não ele, nem Victor Rodrigues, que ambos seleccionei sob o título “Março” e “As primeiras mãos”, resultando Março ou as primeiras mãos, assinado pelo quatro. Celebrámos estes versos com jantar na Rua de São Marçal, em 28 de Março de 1981. Em breve, teríamos outro fogacho: Bico d’Obra, uma editora de vida curta. Era maneira de trazer à boa mesa – até à dor de Alberto não poder beber o tinto Cistus, produção de família – amigos como João Manuel Neto Jacob, Hélia Correia, Rui Ferreira e Sousa e Victor Rodrigues, com este vivendo também sob o mesmo tecto, pouco depois. 
Ora, o leitor de clássicos (ainda neste Verão, lia os clássicos antigos), cada vez mais avesso aos génios do dia, era um narrador nato. Sendo o nosso melhor contador de histórias (era um prazer escutá-lo), por mais que eu insistisse, não se dignava dá-las ao prelo. Alguma publiquei em jornal ou revista, todavia, nos anos 80 e 90; e, animado por José Carrapatoso – com quem esteve largos anos nos destinos da Escola Secundária Miguel Torga –, de ambos recebi material notável, e a resposta que Alberto reiterava: «Não vale a pena…» Tenho aqui Farruco e outros contos, do melhor que a prosa de cor transmontana nos oferece: «Dá-se o caso que ao Antero de tal forma lhe tolheu a razão, já pouca, a primeira vez que conheceu mulher, que o caso foi falado por muita distância de povos com brado de milagre ou coisa inexplicável pelo humano entendimento. Assim foi, de facto, lembro-me como se fosse hoje, e ainda não formei juízo, depois de tanto tempo decorrido, sobre tal assunto de pasmar. Mas eu conto, ciente que não haverá nenhum de vós que, sucinto ou por largo, não tenha dele tido notícia.»
Recordo a tarde de 25 de Dezembro de 2001, após o funeral de um irmão do Marcolino Cepeda, também dilecto Amigo: dei uma volta com o Alberto, que trazia Maria João e Maria Henrique – aquela, séria e inteligente no seu sorriso bom; esta, já convivial, malandra («Pai, não inventes!»), ambas significando um futuro que é a grande obra de Alberto e Henriqueta.
Henriqueta pedia outra demora. Resumo-a numa palavra: grandeza. Alberto deveu-lhe a vida, no meio de tanto sofrimento dele, e sacrifício dela. Só assim o pudemos ter connosco – embora um pouco menos do que seria justo.
Às onze da manhã desta quinta-feira, deixo uma lágrima pelo meu Amigo.

Fonógrafos e Gramofones

É conhecida a fórmula algébrica com que abre A Cidade e as Serras (1900): Suma ciência x Suma potência = Suma felicidade. Esta teoria de Jacinto, no seu 202 parisiense, exigia os últimos inventos da Civilização, ou seja, da Cidade, pois mais nada existia para o nosso Príncipe da Grã-Ventura. E qual a representação ideal de tanta invenção? É o próprio a responder: «– Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho.» (Queirós, s. d.: 16)
Jacinto possuía outros «utensílios misteriosos» (p. 60), como o telégrafo e o telefone, máquinas de escrever e contar, o grafofone e o microfone.
“Telégrafo” está em título de jornais desde 1809, na senda do telégrafo óptico inventado por Claude Chappe (1793). Em 1844, Morse liga Washington e Baltimore; no final da década, a ligação Berlim-Viena inspira outras, desaguando na União Telegráfica Internacional (1865). As regatas de Kingston têm transmissão telegráfica sem fios em 1898. Os contactos multiplicam-se por milhões, anualmente (cerca de 30 milhões, em 1870), decuplicando na viragem do século. Folhetinista anónimo do Jornal do Comércio (25-II-1868), ao projectar “O jornalismo no ano 2000”, prenuncia a internet: «O telégrafo eléctrico generalizar-se-á, cada cidadão terá o seu telégrafo em correspondência mútua, de maneira que em um minuto se saberá o que se passa nos pontos mais afastados e, em Lisboa, se poderá saber, de instante a instante, até à vida caseira do mais boçal esquimó; com o que os povos hão-de folgar, deleitar-se e instruir-se.»
A cacofonia noticiosa, tal a massa de artigos vinda no telégrafo, obriga a ordenar as páginas por secções e colunas, fazendo do jornal um mosaico (Mosaico é título regular) ‒ imagem reforçada na televisão ‒ , à imagem de sociedade que, simultaneamente, molda. O medium é, também, mensagem, no reconhecimento de que «toutes les technologies créent petit à petit un milieu humain totalement nouveau». Já com as vias, meios de transporte e comunicação se percebia múltipla transformação: de quem expedia, recebia, tantas vezes da mensagem, do veículo e mesmo do transportador, se houvesse lugar a tradução. «L’usage de n’importe quel médium ou prolongement de l’homme modifie les modèles d’interdépendance des hommes, tout comme il modifie les rapports entre nos sens.» (McLuhan, 21977: 12; 113-114) No século do carril, comboio ou metropolitano, ia-se além da estrada, da roda de carroça ou diligência e do impresso. A era da electricidade tornaria tudo mais veloz ‒ no século XX.     
Entretanto, Bell e Elisha Gray correm a patentear (1876) o telefone, coqueluche de Paris-Bruxelas e bolsas de Paris-Londres em 1887 e 1890. Em finais de 1877, ensaiam-se comunicações entre Lisboa e Carcavelos e entre os observatórios meteorológico da Escola Politécnica e astronómico da Tapada da Ajuda, assistindo aqui o rei D. Luís. As primeiras redes só em 1882 são inauguradas no Porto e em Lisboa (26 de Abril, com 23 assinantes na capital, que falavam entre as 8 e as 21 horas).
Era, todavia, no fonógrafo que as senhoras convidadas desejavam ouvir uma ária da Patti. Jacinto respondeu: «– Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhum trabalha.» (p. 67) Três fonógrafos, naturalmente inspirados pelo telégrafo e telefone. Luís Cangueiro (2008) tem mais.
Jacinto instalara, ainda, «prodigamente dois Teatrofones, cada um provido de doze fios», e as senhoras e senhores colavam um receptor ao ouvido, para «saborear» cançoneta. José Fernandes é o único alheado de tanto progresso. Observa que, «de cada orelha atenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa». De pálpebras fechadas e meditabundo, certo historiador, «com o ‘receptor’ na ponta delicada dos dedos, [...] gravemente cumpria um dever palaciano» (p. 71). Certa madame sorria lânguidamente, «como se o fio lhe murmurasse doçuras»: «Então, ante aqueles seres de superior civilização sorvendo num silêncio devoto as obscenidades que a Gilbertte lhes gania, por debaixo do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos canos das fezes – pensei na minha aldeia adormecida.» (p. 72) – confessa José Fernandes. Subitamente ‒ nessa expectativa, grave ou lânguida, mas acrítica, impossibilitados de interconexão ‒, percebem que não é a Gilbertte que canta, ouvem-se somente guinchos e zumbidos, todos largam os fios: este desastre sonoro anuncia outros – vai começar um jantar não menos atribulado – e levará Jacinto a trocar a Cidade pelas Serras.
Era um velho sonho: “Cyrano de Bergerac foi o inventor do fonografo no século XVI”, titulava O Século Ilustrado (Lisboa, n.º 148, 2-XI-1940: 3), exagerado. Thomas Edison, sim, inventará, em 1877, o fonógrafo de cilindro, ou graphophone, termo este que até os melhores dicionários, preguiçosos, datam somente de 1909. Luís Cangueiro lembra o precedente do engenheiro francês Charles Cros e estabelece dados curiosos sobre a polémica entre os adeptos de Léon Scott – o primeiro a gravar a voz humana, em 1860, num fonautógrafo – e Edison – «o primeiro a reproduzi-la» (p. 12), 17 anos depois. As vibrações produzidas por estilete num cilindro eram amplificadas por corneta; substituído o cilindro pelo disco de 78 rotações, no virar do século, o sonoro industrializa-se; The Gramophone Company e a Deutsche Gramophon são de 1898; a Victor Talking Machine, americana, de 1901. Enrico Caruso grava em 1902 e, com outra outra gravação operática de 1904, em Milão, vende um milhão de discos.
Peço uns segundos mais para o laboratório do também poeta Charles Cros, do grupo de Verlaine e Rimbaud. Em 1867, projectou um telégrafo eléctrico automático e um «processo de registo e de reprodução das cores, formas e movimentos», continuando a preocupar-se com a fotografia a cores e a invenção de um cromómetro, que medisse a coloração dos objectos. Meses antes de Edison, em 1877, descreve aparelho capaz de registar e reproduzir sons, que designa por paléophone.
No caso português, lembra Luís Cangueiro apresentações públicas em Lisboa e Coimbra, entre Outubro e Dezembro de 1879, bem como a paixão de D. Carlos pelo fonógrafo, que vira na Exposição Universal parisiense de 1889, dotando o iate oferecido à rainha, em 1894, de um fonógrafo. Seu pai, D. Luís, fora já o primeiro rei a ligar-se telefonicamente, um pouco depois de muitos particulares. Imitando o teatrofone de Eça, o monarca, na Ajuda, ouviu a ópera Lauriana, do São Carlos, por telefone.
Desde Novembro de 1893, o Salão do Phonographo, na Avenida da Liberdade, convidava a audição de 25 minutos a troco de 200 réis; desde 1894, Porto, Viseu, Coimbra e Figueira da Foz redobravam esse êxito, em sessões públicas. Enfim, lembra ainda Cangueiro, essa «Maravilhosa invenção» já comparece no conto queirosiano “Civilização”. Mas pouco portugueses o teriam lido, pois saiu em Outubro de 1892 na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Conto desenvolvido em A Cidade e as Serras, só aqui o fonógrafo atinge a máxima representação. E menos leitores teve A Tribuna, de Lisboa, em 15-X-1899, com o soneto “Phonographo”, escrito em Macau, 1896, por Camilo Pessanha. 
Ora, a história entre nós pode recuar. Sempre atento a estas aventuras, Ramalho Ortigão será, talvez, o primeiro a tratar do fonógrafo, aquando de uma segunda visita a Paris. Veja-se o seu livro Notas de Viagem. Paris e a Exposição Universal (1878-1879), saído neste ano. Em Maio de 1879, a propósito de exposição portuguesa no Rio de Janeiro, critica n’As Farpas o nosso «regime industrial» (2007: 1550), e, entre inventos recentes, cita «Edison, o fonógrafo e, ultimamente ainda, o admirável teléfono electroquímico, no qual o som é mais intenso ao chegar ao aparelho receptor do que ao partir do aparelho transmissor» (p. 1551).
Em 25 anos, o fonógrafo substitui outros modelos e representações. Lembrarei uma personagem lengalengando no In Illo Tempore, editado em 1902, que leva Trindade Coelho a dizer: «Era um realejo! ¬ E digo um realejo, porque no tempo do Pedro ainda não havia o fonógrafo!» (Coelho, 1991: 206)
Sirvam estes breves subsídios para estabelecermos um quadro mental do que se entendia por progresso, aqui, em função de um objecto particular datado de 1877, embora o termo francês phonographe (‘aquele que transcreve a pronúncia das palavras’) seja de 1844.
‘Gramofone’, ou ‘fonógrafo para discos’, será um termo de 1901 – o vocábulo português é de 1923 –, e, sendo gramophone em francês e inglês, pode ser que o germano-americano Emile Berliner, que registou o termo, tenha procedido à inversão do inglês phonogram, ou ‘gravação de uma faixa de disco’. Inventado em 1887, o gramofone é comercialmente lançado em 1893. A Imprensa portuguesa do início do século XX publicita-o profusamente. Na literatura, Luís Cangueiro detecta um texto, “O País dos Gramofones”, em Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. Datada de 1901 a primeira experiência radiofónica a grande distância, montada por Marconi, em breve se assistiria ao estancar de interesse pelo gramofone e sua portátil grafonola. Mas quantos não se lembram, ainda, de discos de 78 rotações?  
Aquando da edição de Instrumentos de Música Mecânica (duas tiragens, 2007), priorizando a sua notável colecção de caixas de música, Luís Cangueiro oferecia, já, colecção de postais com fonógrafos e gramofones, datando o mais antigo daqueles de França, 1879, com que abre este segundo volume. Foi um dos pioneiros, portanto. Outros provinham da Alemanha, Suíça, Estados Unidos, acrescendo cartazes humorísticos, franceses e ingleses. Essa amostra é, agora, para os mesmos países (com entrada de Itália e Rússia), muitíssimo acrescentada em exemplares – cronologizada em fonógrafo, grafofone, gramofone, grafonola, gramofone de viagem, gramofone de criança –, fazendo-nos desejar o Museu de Música Mecânica, no concelho de Palmela. Muitas peças são, além do mais, exemplos raros de mobiliário e sinalizam décadas de design. Os acessórios – dos cilindros e discos às agulhas, de iconografia variada à bibliografia – encerram esta notável colecção. 
Para surpresa minha, o professor do Liceu Nacional de Bragança e artista fotográfico que conheci em Outubro de 1972, sem abandonar o sentido do olhar, entregou-se decididamente ao prazer auditivo. Homem de gosto raro, detentor de uma colecção de mais de 600 peças, com que formou o primeiro Museu da Música Mecânica em Portugal, o qual vem historiar segmento importante da cultura material da Humanidade, Luís Cangueiro torna-se, assim, protagonista da nossa memória colectiva.

Bibliografia
Barbier, Frédéric; Lavenir, Catherine Bertho. 32009. Histoire des Médias. De Diderot à Internet. Paris: Armand Colin; Cangueiro, Luís. 2008. Fonógrafos e Gramofones. S. l.: Quinta do Rei – Lazer e Cultura; Coelho, Trindade. 1991. In Illo Tempore. Lisboa: Círculo de Leitores; Marshall McLuhan. 21977. Pour Comprendre les Médias. Paris: Mame / Seuil, 1977 [ed. americanas: 1964, 1976]; Ortigão, Ramalho. 2007. As Farpas Completas. Quinto volume. Ed. de Ernesto Rodrigues. Lisboa: Círculo de Leitores; Queirós, Eça de. S. d. A Cidade e as Serras. Porto: Lello & Irmão – Editores.
[Texto mais desenvolvido em Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura. Lisboa: Editora Theya / Wook. pt. Ebook.]
 

Justiça

«A justiça é a grandeza das nações», lemos em Provérbios, 14: 34. À frente (25: 26), lemos: «Fonte turvada e um manancial contaminado, / assim é o justo que vacila diante do ímpio.» Parafraseando dito marxista, escrevi, já, que a justiça é o pio do povo. Pio, no sentido de se fazer ouvir, enquanto liberdade de expressão, não ópio, mesmo se casos mais badalados se transformam em lamentáveis narcóticos informativos.
Dois protagonistas, nossos comprovincianos, concorrem para a grandeza desta nação: Luís Maria Vaz das Neves e Manuel da Costa Andrade. Aquele acaba de se jubilar como presidente do Tribunal da Relação de Lisboa; este acaba de ser eleito presidente do Tribunal Constitucional. Falarei, ainda, de uma senhora desembargadora.
Conheci Costa Andrade há 41 anos, deputado do PPD na Assembleia Constituinte. Num regresso de Lisboa a Bragança, deu-me boleia até Coimbra, e dormida em sua casa, espaçosa, com ar de república, iluminada por essa generosidade que sempre associei ao sorriso do nosso grande penalista. Acompanhei-o de longe, apreciei alguns pareceres e, como exemplo de vida, nunca esquecerei a confissão das dificuldades por que passou na Alemanha, quando preparava o doutoramento.
Luís Vaz das Neves conheci-o, tão-só, há um lustro, no pontificado amigo de Amadeu Ferreira, a cuja biografia – O Fio das Lembranças (2015), de Teresa Martins Marques – dedicou larga prosa e um tesouro de afectos, na concorrida apresentação pública, quatro dias após a morte física de quem assinava Fracisco Niebro, entre outros pseudónimos. Em sede institucional, o mirandês de Luís Maria ia a par do português, caso da apresentação do volume-álbum Tribunal da Relação de Lisboa. Uma Casa da Justiça com Rosto (2010): «Este texto está em mirandês porque esta é a primeira das duas minhas línguas maternas, aquela em que aprendi o mundo e o sentido de JUSTIÇA.»
Galardoado pelo seu município de Miranda do Douro, em 10 de Julho, ignorou a Imprensa regional a homenagem da véspera, em hotel de Lisboa, onde duas centenas de comensais, das áreas do Direito e da Justiça, da respectiva ministra a familiares e amigos, cantaram loas a quem deu rosto fresco a velha casa, abrindo portas e convocando a sociedade. Peregrino de décadas na Rua do Arsenal, intrigava-me edifício que decide de tantas vidas; conheci-o, enfim, no consulado de Luís Maria, assistindo a apresentação de obra sobre a Ópera do Tejo ou Real Casa da Ópera, sensivelmente no espaço da actual Relação, e que entre Março e o primeiro de Novembro de 1755, só estreou uma peça, em 16 de Outubro.
Teresa e eu, contudo, não vemos Luís Vaz das Neves – seja à mesa ou nos nossos lançamentos – sem Dina Maria Monteiro, já na coordenação daquele volume sobre a Relação, onde é desembargadora, já na organização do jantar-surpresa de 9 de Julho. Isso ainda seria pouco, se não houvesse angariação de fundos para obras de solidariedade, decorrente de uma impressionante capacidade de reunir profanos e agentes da Justiça. Sair daquele Tribunal e descer ao terreno não é para todos: sem vacilar, assim se combate a impiedade, ou a dura sorte. Dina Monteiro, vinda do Brasil, transmontana de adopção, concorre igualmente para a grandeza de Portugal.             

Violência: pão nosso de cada dia?

Convidado pela vereadora da Cultura de Mirandela, Deolinda Ricardo, a organizar e moderar o 2.º TUAESCRITA, em 4 de Junho de 2016, às 17 horas, convidei Jorge Golias, José Manuel Pavão, José Mário Leite, Telmo Verdelho e Teresa Martins Marques para debater o assunto em epígrafe: «Violência: pão nosso de cada dia?». Desenvolvo, aqui, o guião proposto.
Somos confrontados diariamente com notícias de violência sob as mais diversas formas. Crimes antigos no chão transmontano – fosse a posse da terra, defesa da honra, alguma obscura vingança… – são, agora, não só acompanhados de outros, incluindo atitudes e comportamentos sentidos como tais, mas amplificados pelos meios de comunicação, que assim nivelam o país e o mundo.
Terra profundamente marcada pela religião, que importância assumiu esta no controlo das emoções negativas, se não foi, como pretende René Girard (La Violence et le Sacré, 1972), fonte desse desequilíbrio hoje patente no Islão extremista? O que significa matar em nome de Deus ou de uma causa, chame-se esta Pátria, Nação ou Império?
Há vocábulos perigosos, como pode confirmar Telmo Verdelho; e causas difíceis de entender, se se invoca em vão o nome de Deus ou esboçamos genocídios, sobre que discorrem José Mário Leite (A Morte de Germano Trancoso, 2016) e Jorge Sales Golias (A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, 2016). É matéria historicamente abordada por John Docker, emThe Origins of Violence. Religion, History and Genocide (2008). O termo genocídio foi inventado por Raphael Lemkin, em 1944.
A violência de género, que aquele romance também inscreve, fora antecipada em ficção de Teresa Martins Marques (A Mulher Que Venceu D. Juan, 2014), cujo último ensaio (Clave de Sol – Chave de Sombra. Memória e Inquietude em David Mourão-Ferreira, 2016) revela inéditos de autor que nos deixou há 20 anos – em particular, peças de teatro sobre a crueza das relações sociais.
Cimos de crueldade ocidental / inter-estatal e familiar estão, porém, no sexto romance de Ernesto Rodrigues, Uma Bondade Perfeita (2016), título-resposta a mecanismos psico-neurológicos sobre que falará a experiência do médico José Manuel Pavão.
Na qualidade de director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – que se associa à iniciativa da Câmara Municipal de Mirandela –, o debate deseja-se participativo, visando a melhoria do quotidiano, na relação com outrem.

Tradição e multiculturalismo

Discuti, em Estudos da Cultura (ebook, 2016), os perigos do exclusivismo hereditário, que, na passagem da família à comunidade, desemboca em tradição. Esta, que é um processo de transmissão cultural (não mera entidade), implica uma regular aquisição em forma de vida social. Nos desvios desta forma, começa a violência.
Podíamos recuar 36 000 anos, ao Neandertal. Mais perto de nós, a violência é produto de várias cegueiras: nacionalismos torpes, racismo, xenofobia, outras pertenças e «identidades abusivas» que atentam contra direitos. O pensamento liberal (Friedrich Hayek, Raymond Aron, K. Popper, Mario Vargas Llosa) vê um perigo maior civilizacional nos nacionalismos. Em The Road to Serfdom (1944), o primeiro acrescentava o socialismo real ou marxista. O nacionalismo caricatural estava em Hitler, Mussolini, Franco; hoje, disfarça-se em regionalismos autonómicos (em Espanha, sobretudo) ou recusa etiquetar-se ideologicamente, sem prescindir de fórmulas terroristas. Llosa, todavia, distingue essas práticas da «de los nacionalistas que actúan en la legalidade y rechazan los métodos violentos» (El País, 13-XII-1998).
Ao desconsiderar a violência – afinal, os pacíficos também são maus! –, que tange à desordem natural das coisas, urge perceber que aquela se estende ao crime inumano de certas famílias, castas, tribos, clãs, estados legisladores de conveniências, enclausurados numa ideia feita de intocável tradição, comum a extremismos, nacionalistas ou não. Ora, a tradição só se faz contemporânea (em suas raízes antigas) se for «memória não hereditária da colectividade» (Lótman, Uspenskii), definição de cultura assente na longevidade dos discursos, valores e códigos da memória, que se renovam no diálogo com outrem, o estrangeiro, que todos somos. Isso dá-nos «plasticidade de espírito», faz-nos «adaptáveis ao costume alheio, facilmente comunicativos com os outros povos» (António Sérgio), mesmo em nossa casa. Facilita o pluriculturalismo «como un derecho dentro de la comunidad nacional», que, ao contrário do que escreve Agnes Heller, não «va en contra de esta tradición […] de identificación entre cultura y nación» (El País, 6-II-1993).
Será barragem suficiente o multiculturalismo, também intra-fronteiriço? Interessando a poderosos, aquele conceito desliza para um complô económico agrupando minoria (já nem sequer estados, tão-só fundos de investimento), o qual desnivela, desiguala, tiraniza, convertendo-se em fundamentalismo tão perigoso como os assentes numa religião. Seja de que teor for, incapaz de confluência, atentatório dos direitos humanos, é de evitar qualquer radicalismo.
Outros, que se julgam poderosos – quando não políticos de pacotilha, resguardados na noção de tolerância; ou progressistas, de Esquerda, segundo liberais –, contemporizam face a quem, por princípio, jamais aceitará posição alheia. Comunidades islâmicas multiplicando-se no Ocidente têm a liberdade de defender os seus direitos (que não concederiam a ocidentais em seus países), e, no gozo geral da liberdade de expressão, asseveram, em terra de asilo, que dela serão, um dia, senhores. Michael Burleigh lembra, resumido em título: “La tolerancia multicultural europea ayuda a los terroristas” (El País, 21-X-2008). Francis Fukuyama já corroborara, justificando: «El viejo modelo multicultural estaba basado en el reconocimiento de los grupos y de sus derechos. A causa de un erróneo sentido de respeto por la diferencia – y tal vez por sentimientos de culpa poscoloniales –, se otorgó a las comunidades culturales una excessiva autoridade para fijar las reglas de conducta de sus membros. […] La civilidad de la Ilustración europea, de la cual es heredera la democracia contemporânea, no puede ser culturalmente neutral, dado que las sociedades liberales tienen valores propios que resguardan la igualdad de los valores y de la dignidad de los indivíduos. Las culturas que no aceptan esas premisas no merecen igual protección en una democracia liberal. Los membros de la comunidade inmigrante y sus descendientes merecen ser tratados en un plano de paridad como indivíduos pero no como miembros de la comunidad cultural.» (La Nación ([Buenos Aires], 11-VIII-2007)         
Face às vagas de milhões de imigrantes, refugiados e deslocados, paredes-meias com a violência, joga-se o destino da democracia; talvez a sorte de uma civilização.