Ernesto Rodrigues

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Um espírito livre

Trunfa angolana, densa barba, verbo solto, assim nos apareceu, na Praça da Sé, Teófilo Valdemar, que entraria em breve no Mensageiro de Bragança, onde pontificava Carlos Pires, em cuja casa da Rua do Norte ele se aboletava, quando as horas se distraíam madrugada fora. Saiu Carlos Pires uns tempos, ficámos Marcolino Cepeda e eu. Com Manuel de Jesus, Teófilo assinaria coluna de reflexão crítica sobre a política nacional. Fazer jornalismo antes do 25 de Abril, numa cidade fechada, não era pequeno risco. O director do semanário, padre Manuel Sampaio, dava- -nos liberdade na escolha dos assuntos e contornava a censura prévia. Esta definia-se após o almoço, no café Chave d’Ouro, à esquerda de quem entrava, onde se cumprimentavam as autoridades civis, militares e religiosas, como rezava a sintaxe do Estado Novo. Veio a liberdade de Imprensa. Não esperávamos, por isso, a decisão episcopal de, em Outubro de 1974, ver o director afastado, caso que se tornou nacional. Os colaboradores lavraram (redigi eu) comunicado contra os que só viam vermelhos à frente, que trariam o inferno à região. Assinaram, além do escriba, Teófilo Waldemar (hesitava em V / W, antes de ser Teófilo Vaz), Marcolino Cepeda, Humberto Gil, Carlos Pires, Desidério Martins, Onofre de Castro e Manuel Domingues. A segunda experiência em democracia indecisa deu-se com o ènié – Uma Voz do Nordeste Português, cujo número zero saiu em 23 de Abril de 1975, 30 edições até 24 de Dezembro. Dirigido por Eduardo Carvalho, eram redactores Carlos Pires e Teófilo Waldemar, com a liberdade de movimentos semanalmente em perigo. Entrei na equipa mal regressado de França. E tudo se precipitou com texto meu de 26 de Novembro sobre um comício do Partido do Centro Democrático e Social resumido em vontade assim expressa por Galvão de Melo: «Temos que destruir os comunistas se não queremos ser destruídos por eles.» Havia assaltos a sedes dos partidos de Esquerda, atentados e rebentamentos quase todos os dias. Frequentar o café Ponto de Encontro era apodarem-nos de comunistas, que não éramos. A vida acalmou ao entrarmos na Faculdade de Letras de Lisboa, Teófilo e João Jacob em História, eu em Filologia Românica. Aquele, contudo, vivia em Castanheira do Ribatejo e não se interessava pela vida jornalístico-literária de Lisboa, aonde aportou, entretanto, Carlos Pires, para encarreirar na Imprensa escrita. Passara a vestir bem, inesperada gravata, constituiria família cedo. Mas a preocupação era regressar à terra, onde se sentia pássaro livre. Nas férias dos meus cinco anos de Hungria, multiplicávamos sessões nocturnas, ele bebendo a suas duas cervejas, entre informações de primeira água, Marcolino e eu mais comedidos. Recordo como, em Agosto de 1982, batemos em Conversa Acabada, a que assistíramos na Torralta, e, já na sua casa da Estacada, discutindo, equacionámos a federação, ou coisa do género, de nós, aquém-Douro, com a Galiza. O filme era sintoma de uma ruptura mental, com implicações económicas e estratégicas, no tecido da nação, que ele denunciaria até ao último suspiro. Em 1984, relancei Amigos de Bragança, ainda dirigido por Eduardo Carvalho e redactado por Teófilo, Marcolino e eu. Na fotografia que acompanha a entrevista ao presidente da Câmara José Luís Pinheiro, Teófilo já assume o rosto de hoje, embora com mais cabelo. Prosseguimos noitadas com Jacob e Jorge Morais; em Agosto de 1988, mudámos para a lareira do pré-casadoiro Marcolino, ladeado pela Mara, incansável. Nos últimos 32 anos, era em casa destes que reuníamos, sempre que eu subia a Bragança. Às vezes, passavam meses sem se verem, e menos um esquivo Jacob. A mesa, já composta, perfumava-se de conversa à solta, entre farpas e projectos, enfim louvando a renovação a que o director procedia no Jornal Nordeste desde 2015. A partir dos anos 90, contam-se outras experiências: A Voz do Nordeste, intervenção radiofónica e comentários de má-língua, Imprensa escolar, reunindo ao ensino cargos e iniciativas que muito valorizaram a Escola Secundária Emídio Garcia. Os 150 anos do ex- -Liceu (2003) significaram comunhão excelente entre gerações. Fica um percurso em defesa da terra sagrada do Nordeste. Ficam as conversas depois da meia-noite, saídos do café Flórida, quando Marcolino e eu, no luar da Praça da Sé, o animámos a filiar-se no Partido Socialista – de facto, ele desejava um Partido Soarista, tão indefectível era de Mário Soares. Não admirava menos a beleza sob forma de mulher, que resumia na sua; os filhos completavam-no. E, para estranheza minha, gostava de cozinhar. Ao dar-me boleia em noites de sinceno e geada até ao Bairro da Mãe d’Água, o banco estava sempre pejado de papéis e jornais. Esta dispersão de décadas merecia uma recolha de textos que iluminassem o historiador e político (no melhor sentido), para reflexão nossa. A tristeza é uma ponte que nos leva à margem da saudade e da admiração pelo espírito livre que foi Teófilo Vaz, querido Amigo.

Perseu

Evoquei, já, a importância de dois livros no meu despertar para a literatura: Narrativas e Lendas da Antiga Grécia (1956), de Nathaniel Hawthorne, e Coração, de Edmondo De Amicis. Recebi-os de uma prima, em 1961, tinha eu cinco anos, quando começava a ler. No limiar da tese de doutoramento, salientei Cuore, mas A Wonder Book perseguia-me. Assim, quase sessenta anos depois, pego nessa tradução (que há muito mandei encadernar, e não doei, com outros oito mil volumes), da qual sai, a abrir, “A cabeça da górgona”. Não me recordava disto, ao encadear 14 sonetos sobre Perseu, que dá título ao recente livro de poemas (Fafe: Editora Labirinto, 65 páginas). Mas é certo que, num escaninho da memória, esse herói me acompanhou durante décadas. Em ficção e estudos sobre a crónica, eu já aproveitara alguns feitos de Zeus. Terei acordado o meu herói à leitura, nos 25 anos, de André Bonnard, Les Dieux de la Grèce, tão extraordinária era a história de Perseu, com tanto de Bíblia como de Camilo Castelo Branco, e remissão para Édipo, mas sorte diferente. Retorna em 1992, pois o segundo capítulo de Mitologia Clássica. Guia Ilustrado, de A. R. Hope Moncrieff, trata de Perseu, nas cores de Ticiano e E. Burne-Jones. A Editora Labirinto dá na capa Perseu com a Cabeça da Medusa, de Antonio Canova, um neoclassicismo sereno que simplifica igual título do clássico Benvenuto Cellini, longe da imagem terrífica da górgona. A história é simples: o rei de Argos ouve de oráculo que um descendente vai assassiná-lo. Encerra a filha, guardas em volta de entrada cuja chave traz consigo. Zeus metamorfoseia-se em chuva de ouro e gera criança. Respeitoso do deus, o rei poupa filha e neto, que lança em barca frágil. Salva-os pescador, irmão de rei que, autoritário, sonha desposar aquela. Na tensão entre irmãos (já se adivinha qual ganha), e para afastar Perseu de uma decisão desfavorável, confia-lhe missão impossível: matar Medusa, cujo olhar petrifica mortais. Ajudado por Hermes e Atena, essa é só a primeira aventura, com manhas e pormenores que não descrevo. Mas a cabeça sabiamente cortada vai servir para acabar com a raça do rei mau e salvar a mãe, entretanto refugiada no templo de Atena. A segunda aventura é salvar Andrómeda de um monstro, com ela casar e subir ao céu. Acontecem outras, mas corramos ao final: durante uns jogos, falha um lançamento de disco e mata, involuntariamente, o avô, cumprindo-se oráculo. Recusa o trono de Argos, governa Tirinto (ou Tirinte) e funda Micenas. Persée é uma entrada do Dictionnaire des Symboles, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, que não acolhe muitos outros heróis, mas falha ao curar da «complexité de la relation père- -fils, fils-père, existant en tout homme». Ora, Perseu não tem problemas com Zeus pai, nem com o avô, cuja fatalidade é de outra ordem. E vencer, sobre um Pégaso alado, a Medusa – «image excessive de la culpabilité –, não significa vencer uma culpabilidade própria, mas, sim, «acquérir le pouvoir de se regarder soi-même sans défomation». Curar de «vanité» e de «ses propres monstruosités» (que não podemos extrair da vitória sobre o monstro desejoso de Andrómeda) sobre que Perseu triunfou é adulterar o mito de alguém esforçado, que nem o destino atropela (como se deu com Édipo), já recusando o fácil (Argos), já erguendo cidade do nada (Micenas). Eis a narrativa de um amadurecimento, sobre que os versos também evoluem. Outras considerações roubariam ao leitor o gozo de pequenas descobertas. Valha dizer que os sonetos deste livro (e só um texto não é soneto), conjugados com a variedade da penúltima selecção – Do Movimento Operário e Outras Viagens (2013) – completam a imagem que me faço da poesia, subida, afinal, das brumas da infância.

Um disperso de Pascoaes

No VI volume das Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. Poesia, editadas por Jacinto do Prado Coelho (Amadora, Livraria Bertrand, s. d.), a escolha final de Dispersos assenta nos que «pareceram mais significativos da arte de Pascoaes e de algumas suas preocupações de circunstância, como as provocadas pela guerra de 1914-18» (p. 169). Ora, sobre a Primeira Guerra só vemos quatro, de 1915 e 1916; porque não representar o ano de 1917, quando a nossa presença é diariamente noticiada, por causa de, ou interpostos, vultos da escrita, combatendo no centro da Europa? Um desses nomes fora celebrado por Pascoaes no “Inquérito literário” de Boavida Portugal (1912), de cuja reprodução em livro cito: «Nem quero mesmo referir-me aos dois maiores poetas europeus – Guerra Junqueiro e Gomes Leal. // Basta-me falar de António Correia de Oliveira, Jaime Cortesão, Afonso Lopes Vieira, Mário Beirão, Augusto Casimiro, Afonso Duarte, e, depois destes, dos novíssimos poetas, Carlos de Oliveira, Augusto Santa Rita, Afonso Mota Guedes. Eis uma vasta seara espiritual dadivosa e prometedora dos mais belos frutos. Estes poetas criaram em Portugal uma poesia profundamente portuguesa e original. Eles bebem a sua inspiração no mais intimo veio religioso da alma lusitana, criadora da Saudade, a Virgem do Desejo e da Lembrança, nascida do casamento do Paganismo com o Cristianismo.» (1915: 30-31) Descobre o leitor quem, assinalado como poeta, é, em tempo de guerra, dedicatário de um inédito de Pascoaes, que devera ter entrado nos Dispersos? Em 25 de Abril de 1917, o ‘diário republicano da noite’ A Capital dava, a meio da primeira página, “Canção heroica”, que, a não entrar além, pudera comparecer em reedição de Terra Prometida, onde constam as mais variadas canções: Canção crepuscular, Canção triste, Canção da minha sombra, etc., num total de 16 canções. “Canção heroica” é dedicada «(A Augusto Casimiro – Ao Poeta e ao Soldado)», um tenente das relações, também, do militar Raul Brandão, citado em O Pão não Cai do Céu, de Miguéis, e nome a redescobrir. Transcrevo oitava e décima dentro de quadra-refrão: «Já por milagre de Deus, /Aurea canção repentina / A negra noite ilumina / E os negros céus! // E o vulto da nossa imagem / Das penumbras da paisagem / Ergue-se, emfim, com firmeza / Revivendo, / Avultando em alegria, / Sendo elle, combatendo / Contra o medo, a cobardia, / A vil tristeza! // Eil-o a santa Heroicidade! / Esta divina vontade, / Suprema força de ser! / Este desejo infinito / De em bronze eterno e granito, / Além da morte, viver! / Esta offerta sublimada / Da nossa vida exaltada / A outra vida mais perfeita: / A Patria eleita!... // Já por milagre de Deus, / Aurea canção repentina / A negra noite ilumina / E os negros céus!»

Memória do Rogério

Era um velho repórter, quando a reportagem impressa reunia em si todos os condimentos do jornalismo. Especializara-se na vida interna do Partido Comunista. Encontrava-me com ele e Afonso Praça, que há muito nos sorriu pela última vez.

Já sem Redacção, continuava imerso nesse mundo, porque o bicho do papel nunca deixa de roer. E acrescentava um livro, recente, ou não.

Compassava a voz, e o cigarro, e o copo. Estes levavam-no, a pouco e pouco, invadindo a madrugada ruidosa de Torre de Moncorvo. Antes, amesava na Taberna do Carró.

Às terças, se na Amadora, tertuliava com amigos. Não esteve no dia 8, internado desde o fim-de-semana. Faleceu nessa tarde.

Depois que se reformara, quanto nos custava arrancar-lhe uma decisão!... Amadeu Ferreira, outro desaparecido, só não desesperava porque isso não quadrava com o seu feitio: sorríamos das demoras de quem se fizera responsável por colecção de poesia, à qual voltava como Pedro Castelhano (homenagem ao berço, Peredo dos Castelhanos, 1948), quase feliz por ter encontrado em alfarrabista exemplares do seu primeiro crime lírico, que oferecia aos próximos. Fizemo-lo presidente do Conselho Fiscal da Academia de Letras de Trás-os-Montes, mais como pretexto de irmos molhar o verbo no Solar Bragançano, onde, em 2010, me apresentou Leonel Brito. Por falar neste: veja-se o texto de Gente do Norte ou A História de Vila Rica (1977), e como é lido por quem assinou tantos documentários e biografias, ou deixou guiões por filmar.

Ao organizar a parte portuguesa de A Terra de Duas Línguas. Antologia de Autores Transmontanos (2011), seleccionei dele três poemas: “Quando o Natal chegar…” (e, agora, esse Natal perdeu-se), um doloroso “Stabat Mater…” e extensa “Carta à neta”, onde se autobiografa: «Como te hei-de dizer que fiquei sempre / à porta do infinito com a chave errada? / Se um dia te disserem que passei na vida / como ausência, acredita.»

Era a sensação que nos dava, e macerava os amigos, quando havia tempo para encontrar a chave certa. Com um pequeno esforço, e o treino da profissão, essa voz grave não nos teria abandonado sem outros frutos, ao seu alcance.

Tiremos das cinzas a palavra memória, Rogério Rodrigues.

Biblioteca Alberto Fernandes

A comunidade torguiana de Bragança lembrou, no passado dia 15, o antigo docente Alberto Fernandes, atribuindo o seu nome à Biblioteca do Agrupamento de Escolas Miguel Torga. Convidado para a cerimónia, no quadro da semana cultural, e precedendo evocações da mulher e filhas do homenageado, lembrei momentos da nossa vivência desde 1971 e fiz sentir a necessidade de publicitar o poeta estreado em 1981 e grande contista inédito.

Alberto José Sousa Fernandes era um aristocrata do espírito. Sem jamais renegar a origem de classe, cuja mundividência trazida de Benlhevai (Vila Flor) animará a sua ficção, era de espírito agudo, algo tímido, concentrado, num tom de voz que evitava exaltações, desse realismo medido que desembocou no estoicismo da sua fase terminal. Consciente da distância entre o viável e o impossível, preferia afastar-se ou recuar («Não vale a pena»), quando, por vezes, as soluções intermédias são o único sucedâneo à ansiada perfeição.

Presença discreta, mas cúmplice, na Bragança culturalmente efervescente de inícios de 70, em cujo Liceu Nacional fez grandes amizades, teve a fase de esquerda radical na Faculdade de Direito de Lisboa, que o levou à prisão no Outono de 1974. Descreu da política, ia vivendo feitos e desfeitas do clube do coração, emigrou, veio para terminar o curso e empregar-se, no pavor de se levantar cedo, ‘empregado cansado’ (diria António Ramos Rosa) à espera do autocarro – que entrará pela sua poesia. As noites políticas ao cheiro do Fervença ante-abrilino eram, entre 1979 e 1981, de sonhos epicuristas e fervor cinéfilo e literário, enfim convencido de que deveria publicar alguns versos.

Antologiámos, assim, quatro do distrito, sendo que Acácio Trigo e eu já éramos batidos nestas lides. Março ou As Primeiras Mãos (1981) tira o título dos conjuntos de Victor Rodrigues e Alberto Fernandes, e deste registei a contenção, «a terra a abrir-se», «o suceder límpido das coisas», das águas do Império (ou do exílio), mas sempre «do mesmo lado».

Decidindo-se por Bragança nos anos 80, até ao funeral de 27 de Outubro de 2016, escolhia a família, a advocacia, reuniões prandiais com os amigos, a docência – e, sobretudo, uma entrega devocional à Escola que agora o celebra. Com um bom vinho que a doença não recomendava – sendo bem sofridos os últimos vinte anos –, entregava-se à paixão do teatro, aos clássicos, à emergência bloguista e à escrita, intensa, de ficção.

Quem o conheceu admirou, naturalmente, a sua arte de contar histórias, como figuras típicas encadeavam uma linguagem do terrunho, irradiando ironia e boa disposição de um fundo enevoado de melancolia. Se destruiu muito texto, na insatisfação de criador, restou, pelo menos, um conjunto de 24 contos, a editar. É um pouco da vida, nossa e desta terra, que aí se encontra. Urge, pois, reunir o poeta e ficcionista, dando redobrado sentido à Biblioteca com o seu nome.

A ponte de vidro - Introdução a Torre de Dona Chama

 O monte de São Brás tem a desafiá-lo monte que chamamos Fraga. Separa-os um abismo respeitável de vinhas, estevas e mato por onde meu avô caçava. Uma ponte entre ambos seria de grande inutilidade; mas as promessas cumprem-se, e mais bela seria essa jura de princesa moura – caso vencesse os cristãos –, se o inútil virasse espantoso tabuleiro de vidro, acaso seguro em pilares sensíveis e cristalinos.
Sempre que entro nas minhas guerras de reconquista – um novo texto, outra infidelidade ao pensamento único –, lembro-me dessa ponte adiada na voz de narrador que, perguntado pela criança que eu fui – «E depois, avô?» –, respondia no limiar da novela de estreia: «Depois isso. Não fizeram a ponte e pronto.» Seja: não é que não houvesse vidro (de facto, não havia); a beleza da tentadora dona é que não chegava. Não deverei eu, autor sobre um abismo de nada, criar outro impossível, transformando a luxúria do verbo em amor de verdade aos seres de que me vou tornando senhor?
Eis a lição da minha princesa, Eugénia, no romance da terra natal, Torre de Dona Chama (1994), longa resposta à pergunta com que fechava a novela Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), onde já colocara as versões literárias, oralizantes e históricas, que se conjugavam naquele nome, mas que, agora, nos meus distantes dias de Budapeste (1985-1986), eu vinha subverter, num quadro ainda medieval, estritamente bakhtiniano. Noutros momentos, em poema e conto, retomei essas preocupações, também homenagem ao berço.
Quanto às fontes literárias, tínhamos a linhagística desembocando n’“A Dama Pé de Cabra” (com extensão, em 2005, a Fascinação, de Hélia Correia), cuja edição crítica dei em Conto Português. Antologia Crítica (2005): como ela, a nossa Chama / Chamorra era pernas de cabra, / cara de senhora. Mas esta vivia numa torre, lá no cimo do monte hoje de São Brás, donde vigiava a cristandade. Era, pois, a torre de Dona Chama. Consideram outras vozes que a sineta que na torre tocava ao meio-dia, para despegar do serviço, levava os cristãos, em baixo, no vale onde se ergue a localidade, a entredizer-se: «Na torre, a dona chama.» Chama seria, portanto, ou nome de dona, ou forma verbal. Em qualquer caso, além da erótica herculaniana, a nossa era mais ígnea – nós mesmos designamo-nos flamenses, preferível a flamulenses –, de uma luxúria sem travão, obcecada por corpos de religião adversa, que atrai a si para, cevada a luxúria, os matar no tálamo de prazer.
Ao iniciar o meu romance, sabia que a expectativa dos dois narradores – um jovem professor recém-chegado e um jornalista da terra, primo da heroína – se casava neste lugar-comum: se desapareciam homens da terra, ou eram assassinados, é que morriam nas garras de jovem órfã e rica, acastelada em luxúria. Por analogia, esperavam outros poderes locais, a começar num tio da menina, que esta, descoberta em suas maldades, fosse justiçada ou se precipitasse na morte, deixando atrás as suas riquezas.
Na versão da princesa moura, ela é descoberta na figura (pernas de cabra), vício (sexo desenfreado) e crimes (matar amantes), por cristão desconfiado, que, após o amor, não adormece e lhe retira o anel, seu salvo-conduto por corredores de guardas, e que já esporeia cavalo de medo. Quando acorda, espavorida, uivando pelo amado (mas, ao adormecer a seu lado, não o encontrara, enfim?), os cavaleiros que o perseguem gritam-lhe: «Torna, torna, cavaleiro, que na torre a dona chama.» Se ainda temos uma forma verbal – podendo também ser um elíptico «que na torre está a dona Chama» –, é, já, terceira e mais rica versão. No desespero de se ver denunciada, a princesa cobre-se de toda a sua riqueza e atira-se a um poço. Mas quem acrescentou que, contíguo, há outro poço, de peste, e que, se nunca houve escavações no monte, foi com medo de bater, não no poço das riquezas, mas no da peste, que mataria tudo em redor? Esta ideia serviu-me para desenvolver uma guerra surda entre os bons e os maus, em individuações que adiam um juízo imediato do leitor.
Ora, com este suicídio, voltamos ao universo literário tirado da vox populi, e pequeno deslocamento geográfico: em Lordelo, a poucas léguas de Vila Real, situa o Camilo Castelo Branco de Anátema (1851) – estreia em que a circularidade do anel é igualmente fundamental – o castelo a que o povo chamava Torre de D. Chama, na sequência da morte de Inês da Veiga:
«[...] viu abrir-se aquela janela do meio, viu uma aventesma, amortalhada de branco, chegar à janela e atirar-se dela abaixo! E depois uma voz medonha diz que bradara aqui para estes sítios: Chama!... Chama!... [...] As luzinhas apagaram-se, ficou tudo calado e meu pai, vindo para casa contar a passagem, veio aqui quase meio povo e não encontrou nada!... Enquanto a mim aquilo era moura que quebrou o seu encantamento, à voz do seu mouro que pelidava por ela: Chama! Chama! E é por isso que estes perdieiros são a Torre de D. Chama.»
A inversão narrativa – trata-se de um mouro e não de um cristão; é um homem que chama por Chama e não ela, ou os seus cavaleiros – animava-me a outras subversões.
Neste ponto, proposições da História traziam a poderosa mulher, de olhos feudais, para a topografia actual: descida do monte, ainda transformo pormenor arquitectónico da casa de Eugénia em ameias, numa alusão a torre dominando a imaginação de mortais. Num jornal da terra, A Torre de D. Chama, de 1-II-1913, explicava Francisco Manuel Alves:
«Chama era o nome próprio de mulher frequentemente usado em Portugal na idade média e mesmo antes de constituída a nossa nacionalidade, como pode verificar-se em documentos desde o séc. VIII por diante e até adoptado pela aristocracia, segundo mostram os Livros de Linhagens no Portugal. Monument. Hist. pág. 145, 148, 158, 168 do 1.º livro, p. 174, 175, 176, 178, 181 do 2.º e ainda em vários outros sítios.
Encontra-se também sob as formas chamoa ou Flamula que se equivalem.
É bem conhecida a riquíssima D. Flamula, uma das mais nobres damas do século X, senhora de várias terras na província de Entre Douro e Minho. [...]
A povoação denominada Torre de D. Chama só começa a figurar com este nome no tempo de D. Diniz [seja, na carta de foral em 25-IV-1287], sendo muito provável que a mulher que legou o nome seja uma Dona Chamoa memorada nas Inquirições de D. Afonso III ao tratarem das freguesias de Santa Maria de Serzedo e S. Miguel de Espadanedo – interrogatus unde habuit eum dicit quod audivit dicere quod dona Chamoa una mulier de ipsa vila (Serzedo) leixavit eum pro sua anima in tepore Regis donni Sancii veteris.
Trata-se, pois, de uma dona Chamoa mulher nobre e rica, natural de S. Miguel de Serzedo, povoação que hoje não existe e provavelmente ficava nos limites da actual Torre de D. Chama, que vivia no tempo de D. Sancho II que deixou os seus casais de Serzedo e Espadanedo ao mosteiro beneditino de Castro de Avelãs, junto a Bragança, com encargos de bens d’alma.
De alguma torre que essa dona tivesse como habitação, segundo o costume da época, de que restam similares em Moncorvo (Torre de Mendo ou Men Corvo) e Santa Apolónia, perto de Bragança, ficou o nome à terra da sua principal habitadora, Dona Chamoa, simplificada posteriormente em Dona Chama que suplantou e fez esquecer o primitivo de Serzedo passando assim a designar-se por Torre de D. Chama.»
Potentado económico assim descrito na deficiente pontuação do Abade de Baçal interessava-me para as guerras intestinas entre falsos cristãos e mouros no trabalho, cujo desenlace se orquestra à luz da Festa dos Caretos, descrita nos seus actos de teatro de rua, que João Vieira narrou em vídeo (em que intervim) e recriou na pintura desde 1984. A lúbrica e assassina dona Chama era causa próxima de revolta que, por outro lado, rastilhara em lutas da Reconquista cristã. Assim se explica, dentro daquela terceira versão, a revolta dos cristãos animados pelo nascimento de Cristo sob o efeito do jogo e da máscara. A preparação do combate final começa na noite de 25 de Dezembro. Na tarde de Santo Estêvão, após quase 24 horas de encenação e luta, estará queimado o castelo da princesa moura.
Face a este horizonte de expectativa, o que acontecerá à minha heroína – alegadamente lúbrica, assassina e narrativamente distante, porque contada por quem a compromete? Primeiro parágrafo:
«Vivia por este tempo na torre uma dona formosa como a noite em que nos conhecemos. Sempre, ao acordar, a imaginação dos homens corria até conquistar a fortaleza e, com ela, o corpo jamais ou fugazmente entrevisto. Dizia-se que não raros tinham sido aliciados por quem, firme no seu tenebroso poder, os honrava superiormente e matava a seguir.»
Este narrador actua no quadro do esperado. Conta a terceira versão. Para o padre da terra, inclusive (antes de, muito à frente, se converter, isto é, se desfazer do preconceito...), Eugénia retoma maldade antiga. O velho professor, por outras razões, não pode defendê-la. Ela está de relações cortadas com o avô, médico. O tio, outro rico do lugar, tudo manipula, à espera de que lhe caia no regaço a riqueza da sobrinha. É a orfandade absoluta. Pior: o comandante da guarda investiga uns crimes, noticiados em Lisboa. Por isso, o primo, paixão de infância – que, todavia, sabe ser ela amada pelo seu dele grande amigo de infância –, agora jornalista, volta à terra; ao passar a narrá-la, substituindo professor digno de pouca confiança (e que nunca perceberá ter sido aliciado para noite em que, ao contrário do que julga, não teve aquele corpo de ouro), ainda acredita nos crimes da prima. Como se dá a reviravolta? Que força tem aquela jovem, e como, de moura dita lúbrica, leva a efeito a reconquista desse primo, vencendo cristãos hipócritas e afirmando-se na virgindade de corpo e alma? Eugénia não fazia desaparecer mancebos: encontrando-lhes empregos no litoral, esvaziava a terra para que o primo viesse encher o seu deserto de amor.
Enquanto assim punha o meu pequeno mundo de pernas para o ar, no interior de uma carnavalização dos seres e da linguagem própria da festa, eu estava a reverter, ponto por ponto, memória ancestral caldeada em versões históricas, orais e literárias, servindo-me de uma diligência policiária e máscaras a retirar. Àquelas versões acrescentava algo, ausente em narradores de carne e osso: eu estava há muito apaixonado pela protagonista, imagem de Dona Chama, senhora da minha torre / terra e do coração, que aí bateu pela primeira vez.
Que isso não fosse, ou dívida para com a pátria que nos deu respiração, um autor deve tentar, em quaisquer circunstâncias, mesmo quando se mostre impossível, o salto para o outro lado – talvez que, entretanto, tenha sido lançada uma tábua de salvação, quem sabe se uma ponte de vidro...

Adeus a Nuno Nozelos

Mestre no minifundo literário que é o conto, uma das especialidades transmontanas, Nuno Nozelos (Fradizela, 1931) faleceu, em 18 de Julho, na nossa Torre de Dona Chama, que lhe inspirou o clássico Gente da Minha Terra (1967; também título do excelente contista vila-realense António Passos Coelho, 1961). Em 2 de Julho, a terra homenageara-o, acrescentando o seu nome à toponímia local.

Poeta, estreia-se com Iniciação (1963) e Retrato (1964), assinando Nuno Álvares. Em 1987, podou essas árvores, para reeditar, em Vozes Distantes, 12 poemas daquele e 18 deste. Nesta trintena, há versos magníficos. De 1963, aconselho o segundo, “Paradoxo”, e o também soneto “Desejo louco”. De 1964, em que o ‘retrato’ do sujeito está no seu canto de fraternidade, realço “Aquele quarto de aldeia”, enquanto resumo de uma existência ‒ vista de ‘fora’, de ‘dentro’, e ‘em mim’ ‒, vida em choque permanente. É já de compleição citadina, e suas contradições revolvidas por esse ser solidário, o conjunto de 22 poemas de Canto Aberto (1973), reforçado por A Cidade e Eu, Poeta (1978). Aqui, se ainda paira lembrança aldeã («…E é isto mais ou menos a cidade / ‒ poulo na minha arada de poeta / onde às vezes, por milagre, / irrompe o caule de um verso.»), surpreendem-nos temáticas raras na lírica nacional, dedicadas ao metropolitano, aos semáforos ou ao “Supermercado”, muito antes d’A Caverna de José Saramago, que julgou inventar nos centros comerciais as modernas catedrais e a religião do consumo. Aos 70 anos, encerra Musa Preterida (2001) com um hino à Mulher, relação que perpassa no geral dos seus versos, e cujos ângulos, luzes e sombras pediriam um rastreio pormenorizado.

O ficcionista, porém, sobrepôs-se ao poeta, na recepção crítica. O diário inaugural de Ambos, Afinal... (1973) começa a ser escrito em 1969. Dois anos antes, saíra Gente da Minha Terra. A cidade recentra o olhar de quem inventaria pequenas cenas do quotidiano e mostra o interior e exterior das criaturas, em oposições violentas: cisne branco / águas fétidas, pureza / imundície, etc. São 13 narrativas em que vozes ‒ por meio de diário, carta, diálogo, monólogo ‒ se desnudam nos seus sonhos e fracassos, ou vivem vidas alheias, como a intitulada “Um homem estranho”, que é uma obra-prima. São, ainda, de assunto urbano Histórias ou Algo Mais (1985), Relatos Nebulosos (2003), em que realço o sarcasmo sobre os enganos conjugais, e o romance Soçobrado (1992).

Se, em Ambos, Afinal..., poderíamos eleger os autores preferidos do narrador, neste romance, temos o universo da pintura, figurado na insatisfação de um ex-docente da Escola Superior de Belas-Artes e pintor, Luís Sacadura, de origem transmontana. Entre a frieza, fuga ou insulação da esposa Marília e a sedução de uma Sónia que se revelará seropositiva, assistimos às relações promíscuas de finais de 80, em tempo de também política com Gorbatchov, ou ao incêndio do Chiado em 1988, intervalando com um quadro de Mirandela no capítulo X e larga demora em aldeia vizinha. O regresso à capital é doloroso: morta Sónia, igualmente infectado pela SIDA, Luís suicida-se…

A vertente localista e regional está, antes de Contos Nordestinos do Natal (2008), na dúzia de Ecos de Nordeste (1999), ecos que se diluem pela Linha de Cascais e aforas do Nordeste, mas prolongam, na sua maioria, o já clássico Gente da Minha Terra.

No prefácio da 3.ª edição (1987) deste, Nozelos diz ter procurado construir «uma tela, embora modesta, que retratasse as gentes nordestinas, relevando essencialmente a sua personalidade, os seus costumes, o seu linguajar e as suas carências. Tela que, como salientei na nota prefacial da segunda edição da obra [1975], se inspirou em motivos colhidos “no alfobre da minha infância e juventude”.»

Entramos facilmente em literatura que é a do nosso chão. Depois, a resistência é virtude dos sobreviventes; e temos «a força inabalável dos fraguedos», como, em decassílabo de “Pretenso auto-retrato” (Delações Poéticas, 1996), Nuno Nozelos caracteriza os transmontanos.

 

Bragança a um passo de Madrid

Bragança está a 40 quilómetros de Otero de Sanábria, aldeia onde, em 2018, vai parar o comboio de alta velocidade (AVE) na ligação Galiza-Madrid. São menos de 400 quilómetros até à capital espanhola, que se podem fazer em duas horas, ou menos, se houver bom-senso político nas duas capitais. Isto significa uma rodovia decente, que não obrigue a perigosos 54 minutos, no mínimo, para chegar a Puebla de Sanábria e a um lago magnífico, muito concorrido no Verão. Do lado de lá virão mais facilmente ao Parque Natural de Montesinho e à Domus Municipalis.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o crescimento do turismo em Bragança foi superior, na comparação entre 2014 e 2015, à média da região Norte, noticiou este jornal. Imagine-se, em regiões transfronteiriças deprimidas, o impacto de um AVE à porta. Conjugado com o aeródromo, Bragança estaria a distâncias próximas de Lisboa, Porto e Madrid: era um acto de justiça. Para isso servem as cimeiras ibéricas.
Quando se lançava o projecto do túnel do Marão, titulou o Expresso (7 de Abril de 2009): “Nove auto-estradas não são necessárias”. Mais do que erros de previsão, houvera cedências políticas. Em seis meses de abertura daquele, a empresa pública Infraestruturas de Portugal reconheceu ter o tráfego ultrapassado as expectativas. Só quem não conheceu o IP4 pode falar de favor político – quando, de facto, era o Estado que há muito estava em dívida com a região.
Melhor: está em dívida. Há estradas que não são deste milénio, tantas as viragens e reduções de velocidade, limitada a 50 quilómetros. Pagar cada país metade do percurso (e Portugal menos ainda) era um investimento de futuro nesta Europa dita das regiões. Como repete o presidente do município de Bragança, Hernâni Dias, tudo vai da vontade política, que um ano de eleições poderá clarificar. Roubado o comboio à cidade (roubado, literalmente, em noite cobarde), outro se aproxima, mais europeu, a menos de 30 quilómetros em linha recta. Haja vontade.

Alberto Fernandes: in memoriam

Amicus est alter ego, dizia Pitágoras, na linha de Marcial, Cícero, Séneca, Horácio, Santo Agostinho, Montaigne, D. Francisco de Portugal e tantos mais. Ressinto, pungente, este «outro eu» da amizade, na manhã de quinta-feira, 27 de Outubro, em que vai a enterrar Alberto Fernandes: é uma injustiça; e, se eu desejava estar com Henriqueta, Maria João e Maria Henrique, o mínimo que posso fazer é lembrá-lo, num entendimento de 45 anos.
Entrávamos na juventude, com um pé na insatisfação. Arguto, modulando ironias num sorriso, Alberto respondia aos nossos fervores com uma reserva de quem pisava o chão (vindo de família numerosa), e, mais do que a página que nunca deixou de o acompanhar, sentia a desigualdade social como tarefa urgente a vencer.
Assim, já na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se formou, o pós-25 de Abril fê-lo radical de Esquerda – contra certa Esquerda, e a Direita que, em contra-manifestação, o levou ao hospital e à prisão. Sucederam derivas entre Portugal e França, empregos menores que a coragem suportou: quando vivíamos no Bairro Alto, o autocarro madrugador apavorava-o. Descansávamos num filme e nas intermináveis conversas sobre literatura, Lisboa fora.
  Foi quando, vencendo essa visceral reserva, consegui estreá-lo em volume. Acácio Trigo e eu já tínhamos publicado; não ele, nem Victor Rodrigues, que ambos seleccionei sob o título “Março” e “As primeiras mãos”, resultando Março ou as primeiras mãos, assinado pelo quatro. Celebrámos estes versos com jantar na Rua de São Marçal, em 28 de Março de 1981. Em breve, teríamos outro fogacho: Bico d’Obra, uma editora de vida curta. Era maneira de trazer à boa mesa – até à dor de Alberto não poder beber o tinto Cistus, produção de família – amigos como João Manuel Neto Jacob, Hélia Correia, Rui Ferreira e Sousa e Victor Rodrigues, com este vivendo também sob o mesmo tecto, pouco depois. 
Ora, o leitor de clássicos (ainda neste Verão, lia os clássicos antigos), cada vez mais avesso aos génios do dia, era um narrador nato. Sendo o nosso melhor contador de histórias (era um prazer escutá-lo), por mais que eu insistisse, não se dignava dá-las ao prelo. Alguma publiquei em jornal ou revista, todavia, nos anos 80 e 90; e, animado por José Carrapatoso – com quem esteve largos anos nos destinos da Escola Secundária Miguel Torga –, de ambos recebi material notável, e a resposta que Alberto reiterava: «Não vale a pena…» Tenho aqui Farruco e outros contos, do melhor que a prosa de cor transmontana nos oferece: «Dá-se o caso que ao Antero de tal forma lhe tolheu a razão, já pouca, a primeira vez que conheceu mulher, que o caso foi falado por muita distância de povos com brado de milagre ou coisa inexplicável pelo humano entendimento. Assim foi, de facto, lembro-me como se fosse hoje, e ainda não formei juízo, depois de tanto tempo decorrido, sobre tal assunto de pasmar. Mas eu conto, ciente que não haverá nenhum de vós que, sucinto ou por largo, não tenha dele tido notícia.»
Recordo a tarde de 25 de Dezembro de 2001, após o funeral de um irmão do Marcolino Cepeda, também dilecto Amigo: dei uma volta com o Alberto, que trazia Maria João e Maria Henrique – aquela, séria e inteligente no seu sorriso bom; esta, já convivial, malandra («Pai, não inventes!»), ambas significando um futuro que é a grande obra de Alberto e Henriqueta.
Henriqueta pedia outra demora. Resumo-a numa palavra: grandeza. Alberto deveu-lhe a vida, no meio de tanto sofrimento dele, e sacrifício dela. Só assim o pudemos ter connosco – embora um pouco menos do que seria justo.
Às onze da manhã desta quinta-feira, deixo uma lágrima pelo meu Amigo.

Fonógrafos e Gramofones

É conhecida a fórmula algébrica com que abre A Cidade e as Serras (1900): Suma ciência x Suma potência = Suma felicidade. Esta teoria de Jacinto, no seu 202 parisiense, exigia os últimos inventos da Civilização, ou seja, da Cidade, pois mais nada existia para o nosso Príncipe da Grã-Ventura. E qual a representação ideal de tanta invenção? É o próprio a responder: «– Aí tens tu, o fonógrafo!... Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho.» (Queirós, s. d.: 16)
Jacinto possuía outros «utensílios misteriosos» (p. 60), como o telégrafo e o telefone, máquinas de escrever e contar, o grafofone e o microfone.
“Telégrafo” está em título de jornais desde 1809, na senda do telégrafo óptico inventado por Claude Chappe (1793). Em 1844, Morse liga Washington e Baltimore; no final da década, a ligação Berlim-Viena inspira outras, desaguando na União Telegráfica Internacional (1865). As regatas de Kingston têm transmissão telegráfica sem fios em 1898. Os contactos multiplicam-se por milhões, anualmente (cerca de 30 milhões, em 1870), decuplicando na viragem do século. Folhetinista anónimo do Jornal do Comércio (25-II-1868), ao projectar “O jornalismo no ano 2000”, prenuncia a internet: «O telégrafo eléctrico generalizar-se-á, cada cidadão terá o seu telégrafo em correspondência mútua, de maneira que em um minuto se saberá o que se passa nos pontos mais afastados e, em Lisboa, se poderá saber, de instante a instante, até à vida caseira do mais boçal esquimó; com o que os povos hão-de folgar, deleitar-se e instruir-se.»
A cacofonia noticiosa, tal a massa de artigos vinda no telégrafo, obriga a ordenar as páginas por secções e colunas, fazendo do jornal um mosaico (Mosaico é título regular) ‒ imagem reforçada na televisão ‒ , à imagem de sociedade que, simultaneamente, molda. O medium é, também, mensagem, no reconhecimento de que «toutes les technologies créent petit à petit un milieu humain totalement nouveau». Já com as vias, meios de transporte e comunicação se percebia múltipla transformação: de quem expedia, recebia, tantas vezes da mensagem, do veículo e mesmo do transportador, se houvesse lugar a tradução. «L’usage de n’importe quel médium ou prolongement de l’homme modifie les modèles d’interdépendance des hommes, tout comme il modifie les rapports entre nos sens.» (McLuhan, 21977: 12; 113-114) No século do carril, comboio ou metropolitano, ia-se além da estrada, da roda de carroça ou diligência e do impresso. A era da electricidade tornaria tudo mais veloz ‒ no século XX.     
Entretanto, Bell e Elisha Gray correm a patentear (1876) o telefone, coqueluche de Paris-Bruxelas e bolsas de Paris-Londres em 1887 e 1890. Em finais de 1877, ensaiam-se comunicações entre Lisboa e Carcavelos e entre os observatórios meteorológico da Escola Politécnica e astronómico da Tapada da Ajuda, assistindo aqui o rei D. Luís. As primeiras redes só em 1882 são inauguradas no Porto e em Lisboa (26 de Abril, com 23 assinantes na capital, que falavam entre as 8 e as 21 horas).
Era, todavia, no fonógrafo que as senhoras convidadas desejavam ouvir uma ária da Patti. Jacinto respondeu: «– Ária da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhum trabalha.» (p. 67) Três fonógrafos, naturalmente inspirados pelo telégrafo e telefone. Luís Cangueiro (2008) tem mais.
Jacinto instalara, ainda, «prodigamente dois Teatrofones, cada um provido de doze fios», e as senhoras e senhores colavam um receptor ao ouvido, para «saborear» cançoneta. José Fernandes é o único alheado de tanto progresso. Observa que, «de cada orelha atenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa». De pálpebras fechadas e meditabundo, certo historiador, «com o ‘receptor’ na ponta delicada dos dedos, [...] gravemente cumpria um dever palaciano» (p. 71). Certa madame sorria lânguidamente, «como se o fio lhe murmurasse doçuras»: «Então, ante aqueles seres de superior civilização sorvendo num silêncio devoto as obscenidades que a Gilbertte lhes gania, por debaixo do solo de Paris, através de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos canos das fezes – pensei na minha aldeia adormecida.» (p. 72) – confessa José Fernandes. Subitamente ‒ nessa expectativa, grave ou lânguida, mas acrítica, impossibilitados de interconexão ‒, percebem que não é a Gilbertte que canta, ouvem-se somente guinchos e zumbidos, todos largam os fios: este desastre sonoro anuncia outros – vai começar um jantar não menos atribulado – e levará Jacinto a trocar a Cidade pelas Serras.
Era um velho sonho: “Cyrano de Bergerac foi o inventor do fonografo no século XVI”, titulava O Século Ilustrado (Lisboa, n.º 148, 2-XI-1940: 3), exagerado. Thomas Edison, sim, inventará, em 1877, o fonógrafo de cilindro, ou graphophone, termo este que até os melhores dicionários, preguiçosos, datam somente de 1909. Luís Cangueiro lembra o precedente do engenheiro francês Charles Cros e estabelece dados curiosos sobre a polémica entre os adeptos de Léon Scott – o primeiro a gravar a voz humana, em 1860, num fonautógrafo – e Edison – «o primeiro a reproduzi-la» (p. 12), 17 anos depois. As vibrações produzidas por estilete num cilindro eram amplificadas por corneta; substituído o cilindro pelo disco de 78 rotações, no virar do século, o sonoro industrializa-se; The Gramophone Company e a Deutsche Gramophon são de 1898; a Victor Talking Machine, americana, de 1901. Enrico Caruso grava em 1902 e, com outra outra gravação operática de 1904, em Milão, vende um milhão de discos.
Peço uns segundos mais para o laboratório do também poeta Charles Cros, do grupo de Verlaine e Rimbaud. Em 1867, projectou um telégrafo eléctrico automático e um «processo de registo e de reprodução das cores, formas e movimentos», continuando a preocupar-se com a fotografia a cores e a invenção de um cromómetro, que medisse a coloração dos objectos. Meses antes de Edison, em 1877, descreve aparelho capaz de registar e reproduzir sons, que designa por paléophone.
No caso português, lembra Luís Cangueiro apresentações públicas em Lisboa e Coimbra, entre Outubro e Dezembro de 1879, bem como a paixão de D. Carlos pelo fonógrafo, que vira na Exposição Universal parisiense de 1889, dotando o iate oferecido à rainha, em 1894, de um fonógrafo. Seu pai, D. Luís, fora já o primeiro rei a ligar-se telefonicamente, um pouco depois de muitos particulares. Imitando o teatrofone de Eça, o monarca, na Ajuda, ouviu a ópera Lauriana, do São Carlos, por telefone.
Desde Novembro de 1893, o Salão do Phonographo, na Avenida da Liberdade, convidava a audição de 25 minutos a troco de 200 réis; desde 1894, Porto, Viseu, Coimbra e Figueira da Foz redobravam esse êxito, em sessões públicas. Enfim, lembra ainda Cangueiro, essa «Maravilhosa invenção» já comparece no conto queirosiano “Civilização”. Mas pouco portugueses o teriam lido, pois saiu em Outubro de 1892 na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Conto desenvolvido em A Cidade e as Serras, só aqui o fonógrafo atinge a máxima representação. E menos leitores teve A Tribuna, de Lisboa, em 15-X-1899, com o soneto “Phonographo”, escrito em Macau, 1896, por Camilo Pessanha. 
Ora, a história entre nós pode recuar. Sempre atento a estas aventuras, Ramalho Ortigão será, talvez, o primeiro a tratar do fonógrafo, aquando de uma segunda visita a Paris. Veja-se o seu livro Notas de Viagem. Paris e a Exposição Universal (1878-1879), saído neste ano. Em Maio de 1879, a propósito de exposição portuguesa no Rio de Janeiro, critica n’As Farpas o nosso «regime industrial» (2007: 1550), e, entre inventos recentes, cita «Edison, o fonógrafo e, ultimamente ainda, o admirável teléfono electroquímico, no qual o som é mais intenso ao chegar ao aparelho receptor do que ao partir do aparelho transmissor» (p. 1551).
Em 25 anos, o fonógrafo substitui outros modelos e representações. Lembrarei uma personagem lengalengando no In Illo Tempore, editado em 1902, que leva Trindade Coelho a dizer: «Era um realejo! ¬ E digo um realejo, porque no tempo do Pedro ainda não havia o fonógrafo!» (Coelho, 1991: 206)
Sirvam estes breves subsídios para estabelecermos um quadro mental do que se entendia por progresso, aqui, em função de um objecto particular datado de 1877, embora o termo francês phonographe (‘aquele que transcreve a pronúncia das palavras’) seja de 1844.
‘Gramofone’, ou ‘fonógrafo para discos’, será um termo de 1901 – o vocábulo português é de 1923 –, e, sendo gramophone em francês e inglês, pode ser que o germano-americano Emile Berliner, que registou o termo, tenha procedido à inversão do inglês phonogram, ou ‘gravação de uma faixa de disco’. Inventado em 1887, o gramofone é comercialmente lançado em 1893. A Imprensa portuguesa do início do século XX publicita-o profusamente. Na literatura, Luís Cangueiro detecta um texto, “O País dos Gramofones”, em Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira. Datada de 1901 a primeira experiência radiofónica a grande distância, montada por Marconi, em breve se assistiria ao estancar de interesse pelo gramofone e sua portátil grafonola. Mas quantos não se lembram, ainda, de discos de 78 rotações?  
Aquando da edição de Instrumentos de Música Mecânica (duas tiragens, 2007), priorizando a sua notável colecção de caixas de música, Luís Cangueiro oferecia, já, colecção de postais com fonógrafos e gramofones, datando o mais antigo daqueles de França, 1879, com que abre este segundo volume. Foi um dos pioneiros, portanto. Outros provinham da Alemanha, Suíça, Estados Unidos, acrescendo cartazes humorísticos, franceses e ingleses. Essa amostra é, agora, para os mesmos países (com entrada de Itália e Rússia), muitíssimo acrescentada em exemplares – cronologizada em fonógrafo, grafofone, gramofone, grafonola, gramofone de viagem, gramofone de criança –, fazendo-nos desejar o Museu de Música Mecânica, no concelho de Palmela. Muitas peças são, além do mais, exemplos raros de mobiliário e sinalizam décadas de design. Os acessórios – dos cilindros e discos às agulhas, de iconografia variada à bibliografia – encerram esta notável colecção. 
Para surpresa minha, o professor do Liceu Nacional de Bragança e artista fotográfico que conheci em Outubro de 1972, sem abandonar o sentido do olhar, entregou-se decididamente ao prazer auditivo. Homem de gosto raro, detentor de uma colecção de mais de 600 peças, com que formou o primeiro Museu da Música Mecânica em Portugal, o qual vem historiar segmento importante da cultura material da Humanidade, Luís Cangueiro torna-se, assim, protagonista da nossa memória colectiva.

Bibliografia
Barbier, Frédéric; Lavenir, Catherine Bertho. 32009. Histoire des Médias. De Diderot à Internet. Paris: Armand Colin; Cangueiro, Luís. 2008. Fonógrafos e Gramofones. S. l.: Quinta do Rei – Lazer e Cultura; Coelho, Trindade. 1991. In Illo Tempore. Lisboa: Círculo de Leitores; Marshall McLuhan. 21977. Pour Comprendre les Médias. Paris: Mame / Seuil, 1977 [ed. americanas: 1964, 1976]; Ortigão, Ramalho. 2007. As Farpas Completas. Quinto volume. Ed. de Ernesto Rodrigues. Lisboa: Círculo de Leitores; Queirós, Eça de. S. d. A Cidade e as Serras. Porto: Lello & Irmão – Editores.
[Texto mais desenvolvido em Ernesto Rodrigues, Ensaios de Cultura. Lisboa: Editora Theya / Wook. pt. Ebook.]