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A miragem da informação como quarto poder

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Ter, 26/03/2019 - 10:22


Já ganhámos calo relativamente ao que vamos ouvindo aos protagonistas da política, o que nos permite descontar a demagogia, a dissimulação, mesmo a aldrabice, tosca ou descarada.

Olhando com olhos de ver, os malefícios associados à política resultam, no fim de contas, do que cada um de nós faz ou deixa de fazer no seu contexto social, porque, pelo menos por enquanto, não estamos submetidos a uma ditadura que nos condicione as liberdades. As opções que tomamos são da nossa inteira responsabilidade, ninguém é obrigado a ser ignorante, distraído e pouco solidário, muito menos a abdicar da cidadania, do sentido crítico e da defesa do direito ao futuro.

Também gostaríamos de nos habituar a contar com uma informação livre, sem condicionamentos, capaz de ser um instrumento fundamental na vida do país, o tal quarto poder que, afinal, não passa de uma piedosa miragem.

Todos os dias se assiste à degradação da informação, confundida com exploração das emoções, da aberração, da violência boçal, em nome das audiências, o que pode resultar num retorno à animalidade. Não há a preocupação de contextualizar os fenómenos, de identificar os verdadeiros problemas da sociedade, da economia, ou da política, nem de questionar os responsáveis, para além das encenações concebidas para eleitor ver.

Os espaços informativos, ditos de análise sobre a realidade política, são gastos em superficialidades ou, ainda pior, acolhem autênticos duplos dos responsáveis políticos, que se dedicam a empastelar até ao cansaço de quem os ouve. Assim se vão mantendo como entendidos sobre fenómenos que, na verdade não conhecem, nem querem conhecer, porque preferem propalar os seus desejos, convicções e preconceitos.

Nos últimos dias comentadores encartados cantaram loas às medidas de redução dos preços dos transportes nas zonas metropolitanas. Qualificativos como medida de grande alcance, com claros proveitos eleitorais para os partidos que suportam o governo e considerações sobre uma oposição literalmente comida não faltaram. Marques Mendes, a terminar o arrazoado domingueiro, ainda dedicou uns segundos aos municípios que nem transportes têm. Entretanto, Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva, na TSF, um matando, outro esfolando, alegavam que o interior não tinha que se queixar, chegando Pedro Adão e Silva a argumentar que “quem paga os médicos em Macedo de Cavaleiros” são os contribuintes de Lisboa, pelo que deveríamos ficar caladinhos como ratos, em vez de reivindicar condições de equidade.

Não devemos estranhar porque quando os políticos, de qualquer cor, se deslocam ao nosso território, os directores de informação metropolitanos nunca encontram razões para publicar o que quer que seja sobre as questões que nos dizem respeito. Pelo contrário, impõem aos correspondentes as agendas da actualidade nacional, desprezando a regional. Só abrimos os noticiários em casos de catástrofes ou tragédias e as peças sobre o interior, se as há, são relegadas para o fim dos noticiários, quando já ninguém está a ligar aos aparelhos de televisão.

Pelos vistos, o quarto poder não é melhor que os outros.

 

Teófilo Vaz