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Eduardo Gonçalves sobre o Campeonato de Portugal: “Não é justo que grandes investimentos sejam julgados em um ou dois jogos”

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Sáb, 06/06/2020 - 16:57


Eduardo Gonçalves considera positivas as alterações que vão ser feitas no Campeonato de Portugal a partir da temporada 2020/2021. O técnico, natural de Bragança, há três anos e meio trabalha na China e pondera voltar a treinar em Portugal.

 

 -Como analisas as alterações que vão ser feitas no Campeonato de Portugal (CP) já na próxima época e a criação da III Liga na temporada 2021/2022?

No meu ponto de vista, as alterações que se irão verificar vão ser benéficas para o futebol português na medida em que os campeonatos poderão ficar mais equilibrados e em termos desportivos haverá mais justiça. Neste momento no Campeonato de Portugal verifica-se uma grande discrepância entre equipas que lutam pela promoção aos play-offs de subida, geralmente equipas com grandes orçamentos e com plantéis com qualidade substancial elevada, em comparação com equipas que lutam pela manutenção e equipas que sobem dos campeonatos distritais.

Assim sendo, haverá um equilíbrio mais alargado, seja no CP, seja na 3ª Liga, onde irá haver regras rigorosas no que diz respeito ao maior cumprimento e capacidades financeiras dos clubes e salários mínimos a atribuir o que me parece justo e mais profissional do que as situações actuais que se verificam.

 

-Acreditas que a 3ª Liga vai servir de preparação às equipas com aspirações às competições profissionais?

Sem dúvida. Equipas que neste momento estão num patamar elevado em termos de estrutura e em termos desportivos também, como por exemplo este ano Fafe, Vizela, Espinho, Arouca, Lusitânia, Praiense, Benfica Castelo Branco, Olhanense, Real, Alverca, clubes que fazem investimentos enormes e que tem capacidade e qualidade para estarem um patamar acima.

Dizer também que o modelo actual é de uma tremenda injustiça para todos os clubes relembrando que de 72 clubes sobem apenas dois. Há clubes que passam a fase regular sempre em primeiro e depois nos play-offs se tiverem um dia de azar podem ficar afastadas da luta pela subida. Não é justo que grandes investimentos sejam julgados em um ou dois jogos. Portanto, por estas e outras acho que as alterações vão ser sempre benéficas, quer para clubes de grandes investimentos, quer para os clubes mais modestos.

 

-Estas alterações são benéficas para equipas como Bragança , Mirandela e Vimioso que vai subir ao Campeonato de Portugal?

Na minha opinião sim. O Mirandela, ultimamente, tem apresentado uma maior regularidade, mas também tem as suas dificuldades em competir com os ditos “tubarões”, mas tem-nos presenteado com equipas competitivas que têm cumprido com os objectivos do clube.

Quanto ao Grupo Desportivo de Bragança, eu acredito que melhores dias virão. É um clube histórico da região, é um clube que tem que dar mais mas as pessoas também têm que lhe dar mais, sobretudo as pessoas que o gerem, ou os vindouros que vão gerir, que o façam com ambição, inovação e credibilidade para que as pessoas de toda a cidade acreditem mais, se envolvam e se comprometam com o clube, passando a fazer parte integrante de um grande GDB. Quanto ao Vimioso, irá passar por um processo de adaptação e reconhecimento de uma nova realidade, uma logística e uma competitividade completamente distintas, onde certamente terá as suas dificuldades, mas tenho a certeza que de tudo fará para representar o seu concelho com orgulho, com carácter e ambição.

 

-Não se sabe quando vai começar a nova temporada do CP devido à pandemia, fala-se em Setembro ou Outubro, e os jogadores estão sem competir desde Março. De que forma isto pode afectar os próprios jogadores e até os clubes, que apesar de se começarem a organizar estão rodeados de incertezas?

Certamente irá afectar toda a gente. De maneiras diferentes, mas irá afectar imenso. Falando dos jogadores porque, como se sabe, nesta realidade há salários em atraso em muitos casos e começando a época mais tarde significa que os jogadores só irão recomeçar a ser remunerados muito mais tarde também. Em termos motivacionais é precário, é desmotivante e a Federação Portuguesa de Futebol terá uma palavra e uma ajuda a dar certamente. Em termos físicos, é um desafio enorme para os jogadores e para as equipas técnicas. Aqueles que se conseguirem adaptar mais rápido, aqueles que se juntarem mais cedo, aqueles que se reorganizarem mais rápido, vão estar mais bem preparados para o recomeço do campeonato. O treino será importante, mas numa dosagem mais qualitativa do que quantitativa. O que quero dizer com isto é que os jogadores já perderam muito tempo sem o jogo, sem o trabalho específico de campo, sem um trabalho em especificidade. O regresso ao trabalho terá que ser feito com muito jogo, muitas abordagens ao jogar específico do treinador, mas jogar, jogar muito, diferentes tipos de jogo, controlando índices de volume/intensidade, mas sempre o trabalho ser focado no jogo e num jogar específico. Na minha opinião é esse o caminho de 7/8 meses sem competição.

 

-Esta pandemia vai mudar a forma de olhar, neste caso, para o futebol?

É óbvio que sim. Vai mudar tudo, vai mudar a forma como olhamos para a vida em geral. Reconhecendo o futebol como um fenómeno antropo-social total, é certo que as mudanças e problemas sociais afectem o futebol e este tenha que ser olhado, visto e “esmiuçado” de forma diferente.

 

-Vieste no início do ano para Portugal para passar umas férias, mas a pandemia fez com que tivesses que te manter por cá. Como é que está neste momento a situação na China? O dizem os teus colegas?

Infelizmente foi isso, vim para 12 dias de férias e fui ficando, primeiro porque a situação na China estava caótica e mais tarde porque a Europa também ficou caótica, o que levou o Governo da China a fechar fronteiras e até hoje assim se mantém. Existem vários treinadores em situação idêntica, de vários países, ainda sem data para o regresso. Na China as coisas estão normais, embora o futebol, assim como outras modalidades, estão parados ou a um ritmo muito baixo. De resto, em termos sociais e económicos o país regressou à normalidade e tudo trabalha a 100%.

 

-Pensas em regressar?

Neste momento, estou a pensar ficar por Portugal. A situação de indefinição do que possa acontecer na China também irá pesar nesta decisão, obviamente.

 

-Há propostas para ficares em Portugal?

Não digo que sejam propostas concretas, mas sim abordagens. Há abordagens de três clubes, vamos aguardar e ver o que o futuro nos reserva.