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Memória respira fundo e volta a abrir os olhos

Ter, 18/11/2025 - 07:50


Há lugares onde o tempo não passa, antes se debruça, comovido, sobre aquilo que a humanidade decidiu preservar. O Museu do Abade de Baçal, em Bragança, é um desses raros lugares onde a memória ganha corpo, onde o passado se levanta do pó e fala connosco, baixinho, como quem não quer ser esquecido.

No dia 14 de novembro, após meses de silêncio e de obras, as suas portas abriram-se novamente. E o que se revelou não foi apenas um museu renovado, mas um gesto de ternura para com a história, um compromisso profundo com a dignidade da memória e com a inclusão daqueles que desejam escutá-la.

A casa que outrora foi Paço Episcopal, quase condenada ao esquecimento em 1914, quando os seus bens se preparavam para ir a leilão, renasce agora com uma força nova, como se cada pedra tivesse sido lavada pela luz. O investimento feito, mais do que financeiro, foi um investimento na alma coletiva, climatização que preserva, iluminação que revela, acessibilidade que abraça.

O museu, com os seus 110 anos, respira hoje como se acabasse de nascer ou como quem volta de viagem, com o coração cheio e a vontade de partilhar.

Mas nenhuma pedra, por mais antiga, fala por si sem aqueles que lhe dedicam vida. E aqui, a figura do Abade de Baçal ergue-se como uma sombra luminosa. Homem simples, sacerdote de aldeia, arqueólogo autodidata, caminhou pelos trilhos de Trás-os-Montes como quem recolhe orações caídas no chão. Levou consigo fragmentos de um povo, objetos que guardavam segredos, histórias que ninguém escreveria se ele não tivesse escutado. O museu que hoje celebra o seu nome continua a ser o eco desse amor absoluto por uma terra e pelas suas gentes.

Nesta reabertura, há novas salas que são como janelas íntimas para o coração do abade, fotografias, manuscritos, objetos pessoais e até o único filme que o mostra em movimento, um reencontro quase sobrenatural com aquele que deu origem a tudo. É também inaugurada a sacristia do antigo Paço Episcopal, agora aberta ao olhar público pela primeira vez, permitindo que o visitante atravesse séculos num único passo.

Mas a grande marca deste novo tempo é a inclusão. Ao som de QR Codes, de visitas narradas, de língua gestual portuguesa, o museu aprende novas formas de dizer “entra”. É uma casa que se abre para todos, porque a memória, quando é verdadeira, não pode ter muros.

E, como se não bastasse, a reabertura trouxe ainda tesouros raros: obras únicas cedidas pelo Museu Nacional de Arte Antiga, como os freios dos maldizentes ou a arca dos santos óleos. São objetos que não se contemplam apenas com os olhos, mas com o assombro, com a lentidão de quem percebe que diante de si está algo que pertence ao país inteiro.

Hoje, ao atravessar estas salas, sente-se que o museu não é apenas um edifício restaurado, é um coração refeito. E cada visitante leva consigo uma promessa suave: a de que a memória, quando tratada com amor, nunca morre. É transmitida, guardada, reinventada. E permanece, luminosa, como uma chama que não se apaga.

 

Carina Alves, Diretora de Informação.