Ter, 25/11/2025 - 10:54
Há territórios onde o silêncio ganha peso de pedra e Bragança é hoje um desses lugares onde o tempo parece caminhar mais devagar, como se carregasse às costas a memória de quem partiu. Os números da GNR não surpreendem quem conhece estas terras. 4 191 idosos vivem sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade. E esse número cresce como cresce a distância entre o interior e o resto do país. Mais 824 vidas solitárias do que no ano passado, mais portas fechadas ao fim da tarde, mais janelas onde ninguém acena.
Bragança sobe agora ao terceiro lugar nacional nesta dolorosa contabilidade, apenas atrás da Guarda e de Vila Real. Mas o que significam, verdadeiramente, estes lugares em estatísticas como esta? Significam que há aldeias onde cada idoso é uma ilha, rodeada não de mar, mas de ausências. Significam que, a cada ano, o mapa humano do interior se torna mais pálido, mais rarefeito, como se as vozes se perdessem no vento que atravessa montes e vales.
Aqui há muitos idosos sozinhos porque há, antes de tudo, muitos idosos, mas também porque os mais jovens, numa peregrinação quase inevitável, seguem para o litoral ou para o estrangeiro, empurrados pela necessidade de encontrar trabalho, futuro, vida. Partem deixando um país dentro do país, um país feito de pais e avós que permanecem, guardiões teimosos de casas antigas, hortas, memórias, rituais. Ficam porque partir seria arrancar raízes, ficam porque alguém tem de ficar.
A operação Censos Sénior, que desde 2011 percorre estas geografias humanas, tenta mitigar a solidão com presença, proximidade e cuidado. A Guarda Nacional Republicana bate a portas que muitas vezes só se abrem para o som dos passos que chegam, oferecendo aos idosos não apenas conselhos de autoproteção, mas também algo mais raro, atenção. Em todo o país foram contactados mais de 35 mil idosos e mais de 43 mil vivem sós, isolados ou vulneráveis, uma enorme constelação de vidas discretas, muitas vezes invisíveis.
A solidão destes territórios não nasce da negligência individual, mas de um desequilíbrio estrutural entre o interior e o litoral. Nasce de décadas de assimetrias, de políticas que não fixaram famílias, de escolas que fecharam por falta de crianças, de transportes que rarearam até desaparecer. O distrito do Porto, exemplo inverso, regista apenas 854 idosos nestas condições. É a geografia social do país a revelar-se em números.
Contudo, por detrás das estatísticas há histórias que não cabem em relatórios, mãos que já seguraram o mundo, paredes onde ecoam risos antigos, cadeiras vazias deixadas por filhos que regressam apenas de tempos a tempos, como as aves migratórias que nunca abandonam totalmente o ninho.
O futuro do interior não pode ser apenas um espelho embaciado de memórias. Se queremos que estas terras voltem a ouvir passos de quem chega e não apenas de quem parte, será preciso mais do que operações anuais, será preciso presença contínua, políticas de povoamento, respeito e investimento. Porque nenhum país é inteiro enquanto uma parte dele envelhece na penumbra, esperando que alguém bata à porta.
Carina Alves, Diretora de Informação.



