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Inverno vivo

Ter, 06/01/2026 - 10:05


Aqui, no Nordeste Transmontano, o tempo não se mede apenas em datas, mede-se em rituais, em gestos repetidos, em máscaras que regressam ao rosto e devolvem sentido às comunidades.

As Festas de Inverno são muito mais do que um cartaz cultural ou um motivo de atração turística. São uma afirmação profunda de identidade. Num mundo apressado, que tantas vezes empurra os territórios do interior para o esquecimento, estas celebrações lembram-nos quem somos e de onde vimos. No fim e arranque de cada ano, entre o Natal e os Reis, as aldeias do distrito voltam a falar uma linguagem antiga, feita de fogo, de chocalhos, de gaitas-de-foles e de palavras que resistiram ao silêncio.

É motivo de orgulho ver que aquilo que o tempo parecia ter apagado, em tantas localidades, regressa agora com força renovada. Não por nostalgia vazia, mas por vontade coletiva. Há mais artesãos a fazer máscaras, mais jovens dispostos a vestir o papel dos caretos, mais associações empenhadas em ouvir os mais velhos e reconstruir memórias. Não para as fechar numa vitrina, mas para as devolver à rua, ao frio do Inverno, ao coração da festa. As máscaras de Trás-os-Montes são vivas porque são usadas, porque correm a aldeia, porque cumprem o ritual.

De Varge a Aveleda, de Ousilhão a Constantim, de Vila Chã de Braciosa a Rio de Onor, o mapa do distrito enche-se, ano após ano, de sinais claros de continuidade. O calendário muda, mas a tradição permanece. Os rituais adaptam-se, é certo, porque o tempo também transforma. Mas a essência mantém-se, a comunidade reunida, a inversão simbólica da ordem, a celebração da renovação e da fertilidade, o encontro entre o sagrado e o profano.

Num tempo em que tanto se perde, o Nordeste Transmontano mostra que sabe guardar. Guardar não como quem fecha, mas como quem cuida e transmite. As Festas de Inverno não pertencem ao passado, pertencem ao presente e ao futuro deste território. São a prova de que a identidade não se decreta, vive-se.

Neste Dia de Reis, quando as máscaras percorrem as últimas casas e pedem pelo Menino, fica a certeza, enquanto houver quem acenda a fogueira, quem toque a gaita e quem vista a máscara, Bragança continuará a começar o ano fiel a si própria. E isso é motivo de profundo orgulho coletivo.

E é precisamente neste entrelaçar do passado com o presente que Bragança se distingue. Aqui, cada gesto ritual, cada máscara, cada palavra antiga pronunciada na rua fria do Inverno é um fio que liga gerações, tornando visível o que é invisível, a força de uma comunidade que se reconhece na sua própria história. As Festas de Inverno não são meramente celebrações, são lembranças vivas, testemunhos de uma identidade que se recusa a desaparecer.