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NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS António Manuel Lima (c. 1718 – ?)

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O processo inquisitorial de António Manuel Lima (1) ganha uma importância excecional por várias razões. Desde logo por ter sido este réu o último “judeu” brigantino a abandonar as cadeias da inquisição de Lisboa. Depois porque ele se desenrola numa época de radical transformação do tribunal do santo ofício que, no seguimento do terramoto de Lisboa e da tomada do poder pelo marquês de Pombal, passou a funcionar em defesa dos interesses do soberano mais do que no combate às heresias religiosas.
Em terceiro lugar (e este é um aspeto que até hoje ninguém estudou em profundidade) porque ele se desenvolve numa época em que as sedas de Bragança (e também Chacim, Lebução e outras terras Trasmontanas) ganhavam extraordinária reputação e procura dentro e fora das fronteiras. (2) E o negócio das sedas era tão importante que foi definido pelo governo como “cluster” prioritário da política de “industrialização” do país. Com esse objetivo foi então criada a fábrica de sedas do Rato. E nos arredores da fábrica fez-se até uma urbanização nova, com vista a atrair mão-de-obra especializada. E onde estava essa mão-de-obra? Em Bragança e no Nordeste Trasmontano. E essa será a explicação para o facto de vermos naqueles anos tantos fabricantes de seda abandonar Bragança e Trás-os-Montes e estabelecer morada em Lisboa. Aliás, mesmo depois de entrar em pleno funcionamento a Fábrica do Rato a administração de Vasco Lourenço Veloso mandava comprar 18 mil cruzados de sedas em Viseu para torcer sedas em Bragança. E sendo já a Fábrica propriedade da Fazenda Real, as sedas eram mandadas a tingir em Bragança. Defeito da tinturaria do Rato ou falta de qualificação dos operários?
Obviamente que o processo de António Lima não fala da fábrica do Rato nem da política industrial do país mas abre janelas sobre o assunto. Mostra, por exemplo, que as famílias de Catarina Angélica de Castro (3) e José António Pereira foram de Bragança fixar morada na moderna urbanização junto da Fábrica do Rato. E mostra quantidade de artesãos brigantinos do setor sericícola mudados para Lisboa. Mas vejamos alguns traços biográficos deste homem.
Nasceu em Bragança pelo ano de 1718, sendo filho de Manuel Rodrigues Lima, de Mirandela e Maria da Fonseca, natural de Bragança, um e outro apresentados na inquisição. O casal terá ainda estabelecido morada na aldeia de França e o mais valioso dos imóveis herdados pelo nosso biografado foi exatamente uma casa na dita aldeia. (4) Feitos os estudos preparatórios em Bragança, certamente no colégio dos Jesuítas, António Manuel rumou a Coimbra para frequentar o curso de direito na universidade. Por 1740, o novel advogado “por se achar com algum dinheiro e viver na lei de Moisés, e lhe dizerem que em Londres havia liberdade de cada um viver na lei que queria” para ali embarcou. Na capital inglesa viveu 5 ou 6 meses, fazendo-se circuncidar e frequentando a sinagoga. Explicaria depois que ali passou a páscoa em que comeu o pão asmo e o cordeiro, conforme as determinações da lei. E citou para o processo a seguinte oração que ali aprendeu e rezava na sinagoga:

Vós, Senhor do mundo todo,
Senhor de toda a verdade,
A minha alma a vós clama
Meu coração voa alabe;
Eu sou vosso servo
E no vosso serviço acabe;
Assim rezemos e não cansemos
E damos graças ao Senhor;
Quem no Senhor confia
Não lhe faltará favor para sempre.
De regresso a Portugal, mais do que o exercício da profissão de advogado, fez-se homem de negócio, mais concretamente “contratador de mantos”. E sendo Lisboa o palco privilegiado para vender as sedas que recebia de Bragança, para ali mudou a sua residência.
Estava-se em meados da década de 1740 e a cidade de Bragança sofria uma nova e terrível investida da inquisição. E foi um caudal de prisões e apresentações, muito especialmente no tribunal de Coimbra. E certamente sabendo que muitos de seus conterrâneos (inimigos, amigos e até familiares) “tinham dado nele”, o advogado Lima meteu-se também a caminho de Coimbra onde, no dia 8 de Agosto de 1749 se apresentou na inquisição, contando que era judeu, que fora circuncidar-se em Londres… mas que estava arrependido e prometia ser bom cristão.
Foi reconciliado em Mesa, no dia 29 do dito mês Agosto, ao contrário de 18 brigantinos que então estavam presos nas cadeias da mesma inquisição e saíram no auto de fé de 16 de Novembro seguinte, 2 deles queimados na fogueira: Gabriel Mendes e Inácio Borges. (5)
Poucas notícias temos dele nos anos que se seguiram. Mas temos um rol de denúncias produzidas por outros réus contra o Lima, tanto na inquisição de Coimbra como na de Lisboa. E então, o nosso advogado, tomou de novo a iniciativa de ir-se apresentar nos Estaus, no dia 25 de Agosto de 1752 Na audiência que a seguir lhe foi concedida declarou o seguinte:
- Ainda que se fora apresentar em Coimbra e dissera que havia deixado a lei de Moisés e abraçado outra vez a de Cristo, fizera contudo a sua confissão e apresentação simuladamente, porquanto na crença da lei de Moisés estava vivendo e nela viveu até 24 de Agosto deste presente ano…
Disseram-lhe os inquisidores que fosse para casa mas que se não ausentasse de Lisboa sem licença do santo ofício.
Decorreram os dias e… no 1º de Novembro de 1755, aconteceu o terramoto de Lisboa, com todas as consequências materiais, políticas e religiosas que aqui seria despropósito referir. E se uma onda de proselitismo cristão invadiu a cidade atirando as culpas do terramoto aos pecados e ofensas à religião de Cristo, outros aceitavam explicações naturalistas e talvez que entre a gente da nação hebreia crescesse o apego à lei de Moisés. Terá sido o caso de António Manuel Lima?
Facto é que, em 16 de Janeiro de 1758, o advogado contratador de mantos foi preso pela inquisição de Lisboa, ficando retido no cárcere da custódia e no dia 28 seguinte prestou um depoimento de espantar :
- Suposto que se apresentou na inquisição de Coimbra no ano de 1749 e depois na de Lisboa (…) por medo de ser preso pela inquisição de Coimbra, veio a esta de Lisboa, não por estar arrependido das mesmas culpas pois desde o tempo em que lhe fizeram o ensino da lei de Moisés até ao dia 16 deste mês, conservou no seu coração a crença da dita lei, e só então a deixou, alumiado pelo espírito Santo e por fazer reflexão do estado em que o reduziram as ditas culpas…
Deixaria mesmo? Ou estaria mais judeu do que nunca e mais uma vez a fazer o jogo do rato com os inquisidores? Com efeito, em 14 de Abril seguinte, apresentou-se perante o inquisidor Nuno Álvares Pereira e declarou:
- Achando-se ao presente preso nestes cárceres com o mesmo Francisco Rodrigues da Costa, se declararam crentes e observantes na dita lei, até ao dia de anteontem, 12 do presente mês em que ele confitente, alumiado por Cristo Nosso Senhor…
Seria de vez o seu arrependimento? Talvez não ou talvez sim. Isto porque no dia 8 do mês de Maio seguinte voltava a confessar, dizendo:
- Ainda que ele por repetidas vezes tem dito nesta mesa que de todo o seu coração deixava a crença na lei de Moisés em que vivia e que tornava a abraçar a lei de Cristo (…) sempre conservara no seu coração a errada crença da lei de Moisés e nela vivera até ao dia 13 de Abril próximo passado…
Se os tempos fossem outros, certamente o seu destino estaria há muito traçado e ele seria consumido na fogueira de um auto de fé. Assim, foi reconciliado num auto de fé celebrado com recato no claustro do convento de S. Domingos, condenado em confisco de bens, cárcere e hábito a arbítrio, o qual lhe será tirado no auto de fé.

NOTAS E BIBLIOGRAFIA:
1-ANTT, inq. Lisboa, pº 1898, de António Manuel Lima.
2Pastrana terá sido a cidade espanhola que albergou a maior colónia de fabricantes de seda idos de trás-os-Montes, especialmente de Vila Flor e Torre de Moncorvo. E sobre Toledo temos a seguinte informação: - Catalanes, portugueses y algun francês, estos laborantes venían com contratos de cuatro años com opción a prorroga, eran conminados y perseguidos, com alborotos, por tejedores toledanos quienes llegaron a amenazarlos com quitarirles y destruirles los telares. – VAQUERO, Angel Santos – A Industria Têxtil Sedera de Toledo, pp. 242-243.
3-Catarina Angélica era filha de Pedro Lafaia de Castro, o homem que em Bragança desempenhava a função de “chamador” para as reuniões em sinagoga, conforme denúncia feita pelo capitão de ordenanças Francisco Lopes: - Estando ele pelas 8 ou 9 horas da noite, na rua Direita, em Bragança, viu sair da casa de Pedro Lafaia de Castro um homem com um pau ferrado em fundo dando golpes na calçada a chamar… ANTT, inq. Coimbra, pº 1806, de António Rodrigues Gabriel.
4-Os arquivos do ANTT apresentam vários moradores nesta aldeia processados pelo santo ofício.
5-ANTT, inq. Coimbra, pº 8565, de Gabriel Mendes; pº 9663, de Inácio Borges.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães