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O racismo é um falhanço civilizacional

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Seg, 08/06/2020 - 18:52


Bastava a tragédia da pandemia, pouco propícia a grandes entusiasmos com o presente e menos com o futuro da humanidade, para sentirmos a fragilidade da vida que o acaso nos empresta, caprichoso e irracional como sabemos.
Esperava-se que a consolidação do conhecimento, construção milenar que foi depurando erros, com avanços e recúos dramáticos e consequências que não podem ser varridas da nossa memória, já tivesse garantido suficiente distanciamento crítico da animalidade natural.
A evolução dos modelos políticos, especialmente nos últimos dois séculos e meio, permitiu acreditar que as sociedades podiam tornar-se expressões da fraternidade, porque defensoras da igualdade e da liberdade, como ficara escrito nos dois textos fundadores da democracia moderna, a constituição dos E.U.A e a declaração dos direitos do homem e do cidadão, que marcou o início da revolução francesa.
Desde então desenvolveram-se, gradualmente, sistemas educativos, tendencialmente voltados para todos os cidadãos, com resultados diversos, dependendo da prosperidade económica e da lucidez da condução política em cada país. Apesar dos desvios, a referência era geralmente a preparação de cidadãos capazes de usar a inteligência nos caminhos desta vida.
Para mal de todos nós terá sido nesta questão essencial que se verificou lamentável falhanço, com resultados que continuamos a sentir num quotidiano que se assemelha a tempos tenebrosos, que não queríamos reviver.
As manifestações de irracionalidade racista não são um fenómeno localizado, já que irrompem um pouco por todo o lado, a propósito da cor da pele, mas também das diferenças culturais e religiosas, expondo a falta de solidariedade que nos conduzirá à destruição das conquistas civilizacionais e ao retorno ao caos.
Naturalmente os brancos europeus e as suas ramificações nas Américas e na Oceania têm a obrigação de dar o exemplo, porque tiveram responsabilidades irrecusáveis no esclavagismo moderno e em sociedades que mantiveram sistemas de segregação racial inadmissíveis.
Mas não devemos iludir realidades como as sociedades de castas, no sul da Ásia, onde o racismo determina a impossibilidade de transpor barreiras sociais e económicas, nem os fenómenos pouco tratados nos media, de populações de origem caucasiana no Japão ou na China, secularmente marginalizadas, maltratadas e consideradas inferiores.
Também não é avisado ignorar os tribalismos africanos, com um historial de violência despoletada por diferenças étnicas, que continuam a semear as morte por todo o continente, desde o Ruanda, ao Congo, à Nigéria ou ao Sudão e vários outros territórios que não chegam aos noticiários.
Cultivar diferenças e procurar mesmo acentuá-las é o melhor caminho para a desgraça geral. Num mundo global, o futuro interessante seria o da miscigenação generalizada, dando continuidade aos milénios anteriores, nomeadamente na Europa, que foi um caldeirão étnico e civilizacional.
O mundo não tem que continuar a ser a preto e branco e amarelo. Os matizes serão certamente muito mais empolgantes. Misturem-se por favor.

Teófilo Vaz