PUB.

“Foi dada uma palavra que não foi cumprida e depois demitiu-se”

PUB.

Ter, 31/03/2020 - 10:14


Em entrevista ao Nordeste, João Pinho, guarda-redes do Grupo Desportivo de Bragança, confessou que se sentiu enganado por Milton Roque tal como o restante grupo. A demissão do presidente, o actual momento que vive o clube e a pandemia Covid-19 que fez parar os campeonatos foram os assuntos abordados com o guardião.

 

-Como é que tem gerido esta paragem das competições e o isolamento necessário nesta fase?

Não vou dizer que tem sido uma situação fácil porque não é. Termos que parar e não fazer aquilo que gostamos não é fácil, mas a saúde está em primeiro lugar. Tento manter-me activo com alguns exercícios durante o dia e algumas corridas para quando voltarmos ao activo o nível físico não esteja em baixo.

Penso que durante muito tempo as pessoas não se aperceberam bem da realidade daquilo que este vírus trazia. Felizmente, tomaram-se medidas de precaução, se calhar até podiam ter sido tomadas mais cedo. O cenário é negativo, mas tenho fé e esperança que vamos ultrapassar isto, voltar à nossa rotina e vamos dar valor a coisas que até agora não dávamos.

 

- Os treinos tiveram que ser adaptados. Foi complicado essa adaptação?

Foi um pouco pois sendo guarda-redes o trabalho é mais específico. Tenho a felicidade de viver numa vivenda o que me permite fazer uma variedade maior de exercícios. Compreendo que há colegas meus que não tem essa sorte pois vivem em apartamentos e é mais difícil. O importante é acima de tudo mantermo-nos activos. Claro que que por muito que se tente fazer em casa num é igual a um treino normal.

 

- Estava a recuperar de uma lesão. Esta paragem pode atrasar esse processo ou nem por isso?

Antes pelo contrário. Na altura já estava integrado e já me sentia bem para dar o contributo à equipa. O lado negativo é o facto de não ter tanto tratamento como se estivesse a treinar normalmente. Tive um estiramento do ligamento interno do joelho esquerdo. Mas como não estou sujeito a tanto esforço é uma recuperação mais passiva.

 

- No que diz respeito ao futuro das competições o que acha que vai acontecer com o Campeonato de Portugal. Na semana passada a FPF deu por terminado os campeonatos da formação acha que vai ser tomada igual decisão para o CP?

Quero acreditar que não. Penso que poderá terminar mais tarde. Em relação aos mais novos eu penso que foi uma boa medida.

 

- Mostra-se optimista e acredita que se podem concluir os campeonatos, mas como vão estar os jogadores e os seus índices físicos?

Eu acredito que colocando o cenário de que o campeonato vai ser terminado e todas as equipas vão ter um tempo para se poderem adaptar.

 

- O GDB está em zona de despromoção e o plantel tem passado por várias situações, como mudança de treinador, a crise de resultados, problemas financeiros e o presidente demitiu-se. Como é que geriram todas estas situações e se interferiram no vosso rendimento?

É público e não vou estar a esconder algo que é verdade, o clube passa por dificuldades financeiras e em termos de resultados também não é o desejável porque sabemos o que trabalhamos e a qualidade que temos. Mas não afectou nem vai afectar o nosso profissionalismo ou o nosso rendimento. No meio destas infelicidades todas usamos o treino como um escape esquecendo todas as dificuldades. É verdade que depois no balneário toca-se nos assuntos. São coisas graves e famílias que dependem de nós e do nosso trabalho.

 

- A equipa foi e tem sido alvo de várias críticas. Acha que, apesar de actualmente já terem vindo algumas situações a público, era necessário as pessoas saberem daquilo que se passa internamente?

Sem dúvida. Nós somos atletas e estamos a representar um clube e acima de tudo uma cidade. Muitos de nós não somos de Bragança, mas fomos bem acolhidos e sentimo-nos brigantinos e defendemos a instituição e a cidade. Se calhar se as pessoas soubessem de algumas coisas não teriam certas opiniões. É verdade que temos que estar vacinados contra essas cisas. As pessoas quando vão ver o jogo olham para 22 jogadores mas não sabem o estado do jogador e não querem saber se tem ou não se tem os salários em dia.

 

- Já que fala em salários em atraso foi liquidado um dos dois e o presidente, Milton Roque, demitiu-se logo a seguir. Contava com essa situação?

Não. Todas as conversas que tive com o senhor Milton Roque nunca me levaram a pensar isso, muito pelo contrário. As indicações que tínhamos era que as coisas iam melhorar. Foi dada uma palavra que não foi cumprida e depois demitiu-se.

 

- Sentiu-se enganado?

Completamente. Falo por mim não quero falar pelos meus colegas. Nada indicava a atitude e os comportamentos que teve. Todas as conversas e reuniões que tive com ele fez-me acreditar que tudo ia ser diferente.

 

- Isso quer dizer que, numa altura tao difícil do clube, não contava que o presidente se demitisse …

Claro que não porque se fosse assim em Janeiro muitos jogadores podiam ter saído e não fizeram.

 

- No seu caso teve propostas para sair em Janeiro?

No meu caso não pois também nem permiti que isso acontecesse. Soube, na altura, que havia a possibilidade de ter uma reunião para seguir para outra situação, mas decidi manter a minha palavra com o GDB.

 

- Milton Roque deu alguma palavra aos jogadores quando se demitiu?

Não. Eu soube da demissão pelas notícias publicadas. Pelo que sei está incontactável. Ninguém sabe dele. Sei de pessoas que lhe ligaram e tem o telemóvel desligado. Sabemos que tem documentos para entregar às pessoas que ficaram para resolver isto.

 

- É a primeira vez na sua carreira que vive uma situação destas?

Não. No Freamunde também tive uma situação complicada, mas ao contrário do que aconteceu aqui ninguém abandonou o clube. É verdade que passamos mal, mas havia sempre uma ou duas pessoas que davam a cara e isso é importante.

Em relação ao presidente do GDB chegamos a marcar várias reuniões e nunca apareceu. Ele mostrou-nos documentos de protocolos com a Câmara Municipal de Bragança e que nos ia conseguir liquidar dois meses, pediu-nos para esperar, pagou-nos um mês e não sabemos mais nada.