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Quinta-Feira da Ascensão é tempo de ladainhas e bênção dos campos

Ter, 04/06/2019 - 11:32


Como estão os leitores da página do Tio João?

Estamos no mês de Junho, mês dos Santos Populares. Diz o nosso povo que “quem em Junho não descansa, enche a bolsa e farta a pança”, sinal que agora é uma época de muito trabalho nos campos para os nossos tiozinhos, que já andam a segar os fenos, pois “feno alto ou baixo, em Junho é segado” e, como “sol de Junho madruga muito”, as lides no campo começam muito cedo.

Vendavais - Aquilo que o povo não disse

Como facilmente nos apercebemos, as eleições para o Parlamento Europeu, caracterizaram-se por um demasiado desinteresse, não só em Portugal como em todo o espaço da União Europeia. É lamentável que tal aconteça, especialmente quando nos referimos tantas vezes com ênfase crítico ao que por lá se faz e que acaba por nos afetar a todos.

Não vale a pena queixarmo-nos de que a Direita e Extrema-direita cresce e ganha lugares no Parlamento Europeu e em alguns países desta União, pois isso acontece porque os que se desinteressam pelas eleições, permitem que tal se verifique, já que os eleitores de extrema-direita não se inibem de dizer “presente” no dia de ir às urnas.

Que moralidade podem ter as pessoas que não votaram, para criticar os que são eleitos pelos poucos que os elegeram? Quem não participa, não pode criticar já que não elegeu ninguém. Os que elegeram têm toda a prioridade para criticarem, pois se atuarem diferentemente do que prometeram ou não fazem o que se espera que façam, também não podem esperar elogios de ninguém.

O nível de abstenção que nestas eleições se verificou, não são, de modo algum, a aferição de uma votação futura, como muitos querem fazer crer. Votou-se para a Europa. Ponto. E é isto que temos de agendar como prioritário em qualquer conclusão. Claro que houve vencedores e vencidos, como em todos os atos eleitorais, independentemente do número de votantes. Mas quando quase 70% da população não expressou o seu sentido de voto, ficamos com a impressão de que o resultado é apenas uma amostragem e nada mais do que isso. A verdade é que a população europeia não expressou a sua vontade e o seu sentido de voto. A população europeia não quis escolher os seus governantes. Podemos aduzir razões de vária ordem, mas nenhuma nos responderá ao problema que se levantou perante o facto de só cerca de 30% da população ter comparecido às urnas.

Face a estes resultados, o que nos apraz dizer é que o povo europeu anda desanimado com os que o governam e que não acredita já nesta união. Há um desinteresse absoluto. Mas será isso que o povo quis dizer? Ou será que o povo ainda não disse o que deveria dizer?

Quando a Europa atravessou crises económicas e sociais profundas e os governos não conseguiram resolvê-las satisfatoriamente, o povo quando foi chamado a eleições, elegeu quem lhe prometeu o que os outros não prometiam. Assim, a Europa confrontou-se com um Hitler e com um Mussolini que acabaram por levar à destruição completa da Europa. Para trás ficavam alguns governos das chamadas democracias liberais, que tanto tempo levou a colocar à frente dos países europeus. Aos poucos caía a democracia liberal e foi preciso uma guerra mundial para resolver o desnorte dos ditadores. Agora, passados quase setenta anos, não queira a Europa viver de novo as agruras de uma guerra suicida, somente porque 70% da população se alheou de uma decisão que os restantes 30% aproveitaram para marcar pontos.

Diz-se frequentemente que o tempo é bom conselheiro, mas parece que não foi o caso que se verificou nestas eleições. Se o conselho chegasse a tempo de o tempo influenciar alguém, a abstenção teria sido de 30% e não o inverso.

Desta feita, o povo talvez não dissesse o que deveria, porque a maioria não se expressou devidamente. O que ficou por dizer é que assusta. Ficamos sempre na dúvida se o que faltou dizer foi que não se quer mais uma Europa unida, se o que se quer é não enviar para o Parlamento deputados que só vão encher os bolsos e não representar ninguém a não ser a si próprios ou se quer acabar com este sistema de representação parlamentar. Afinal o que quer a Europa?

A Europa não existe sem países e se queremos uma união, os países têm de comungar na maioria das decisões e estas têm de agradar à maioria e não a 30%. Alguma coisa está mal. É preciso coragem para o afirmar, mas para decidir é preciso votar. Todos têm de votar. A democracia é isso mesmo. Todos podem votar, mas devem obrigatoriamente expressar o seu sentido de voto e não deixar em mãos alheias o que a eles cabe por direito. A Europa não pode ficar refém de uma Marine Le Pen. E já há muitas Le Pen na Europa! Porquê?

Pois muito foi o que o povo não disse, mas o que ficou por dizer deve assustar-nos. Qual seria o resultado destas eleições se a maioria da população tivesse votado? Qual seria o sentido político dos votos? A extrema-direita teria este resultado? Era bom que o povo europeu se tivesse expressado condignamente para tirar as dúvidas dos que ainda pensam como os britânicos do Brexit. Afinal, o que terá ficado por dizer?

Nós, trasmontanos, homens da Inquisição - Francisco Fernandes da Guerra, de Freixo de Espada à Cinta

Francisco Fernandes da Guerra nasceu em Freixo de Espada à Cinta, em 4 de agosto de 1713, sendo filho de João Fernandes Morgado e Maria Fernandes Tratária. Fez os estudos elementares na terra natal, com o licenciado Manuel Marques Sá Cardoso por mestre de gramática. Seguiu os estudos superiores na universidade de Coimbra, formando-se em medicina. Regressou a Freixo, obtendo o cargo de médico do partido, que lhe rendia 60 mil réis/ano.

Médico do partido e pessoa bem conceituada, muito naturalmente, o Dr. Francisco procurava ascender na escala social do concelho. Decidiu, para isso, candidatar-se à nomeação de familiar do santo ofício. Nesse sentido, em setembro de 1747 apresentou um requerimento ao conselho geral da inquisição.

Seguindo as normas, foi ordenado ao tribunal de Coimbra que promovesse a busca de informações “secretas” sobre a capacidade do candidato e a sua limpeza de sangue. Algo ao arrepio das normas, tais informações foram solicitadas ao “notário” Manuel Zuarte Coelho que, no caso, assumiu o papel de “comissário”.

A informação foi positiva e o processo continuou, com as investigações judiciais a ser conduzidas pelo também notário padre Francisco Geraldes da Guerra,(1) morador em Urros, investido no papel de comissário e levando como secretário o padre João Gabriel, cura de Ligares.

A inquirição das testemunhas teve lugar na capela do Senhor da Fonte Seca, na vila de Freixo de Espada à Cinta e todas elas, em número de 12,(2) certificaram que o habilitando era homem abonado de bens, competente e de boa vida e costumes, sem a mais leve suspeita de impureza de sangue.

Foi um processo simples e normal, sendo-lhe passada carta de familiar do santo ofício em 20.6.1749.(3) A essa altura contava Manuel Fernandes da Guerra 35 anos e mantinha-se solteiro, médico do partido. Mas logo acertou casamento com Maria Esteves Gemelga, 8 anos mais nova que ele, natural da freguesia de Poiares, filha de Lucas Martins e Maria Pires Morena.

Dada a sua qualidade de familiar do santo ofício, o casamento não poderia realizar-se sem o prévio certificado de limpeza de sangue da noiva, passado pelo conselho geral da inquisição.

O processo teve início com o pedido de informações confidenciais enviado de Coimbra ao notário Manuel Zuzarte Coelho em 30.10.1749 e o pagamento adiantado de 6 mil réis. Hospedado em Poiares, em casa de Pedro Esteves, de Frechas, por 2 dias e meio, o “comissário” Zuzarte inquiriu uma dúzia de pessoas e, no fim, em 15.2.1750, escreveu no seu relatório:

— A dita habilitanda padecia de fama de judia, por parte de seu avô paterno João Pires Moreno, a qual fama não me souberam declarar se era falsa ou verdadeira.(4)

Chegada a Lisboa a diligência feita em Poiares e o relatório do “comissário”, coube ao deputado do conselho geral, Francisco Mendes Trigoso analisar o processo e decidiu:

— Tornem estas diligências à inquisição de Coimbra, para que os inquisidores mandem perguntar judicialmente (…) se a fama de judia é antiga, se moderna, qual a origem dela, se teve princípio em pessoas mal afectas ou maldizentes e que conceito forma da verdade desta fama…(5)

Com esta determinação, o deputado Fragoso enviou também uma nova lista de pessoas de Poiares que deviam ser chamadas a testemunhar. Certamente que os nomes destas testemunhas foram sugeridos pelo requerente, que também pagou as custas da nova diligência.

Voltou o “comissário” Zuzarte a Poiares e as testemunhas ouvidas alinharam pelo mesmo diapasão dizendo que realmente correu fama de que a família de Maria Esteves Gemelga era judia e que a fama vinha do tempo de sua avó Maria Esteves Belita, que tinha uma irmã chamada Catarina Fernandes Belita. No entanto a fama era falsa e nasceu de um episódio bem caricato, que vamos contar, resumindo o que disseram as testemunhas.

Ao tempo em que a Catarina era moça solteira, um clérigo de Poiares quis meter-se de amores com ela e levá-la para a cama. Ela contou aos irmãos, que arranjaram um corno de um boi (alguns diziam carneiro) e lho deram, para que o atirasse ao padre, em público.

Aconteceu por essa altura realizar-se uma festa e procissão pelas ruas da aldeia. O pároco seguia na procissão, debaixo do pálio, com o Santíssimo Sacramento, e o tal clérigo ia à frente do pálio, com o turíbulo na mão, incensando os ares. Chegando a procissão à rua do Barreiro, onde a Belita morava, esta saiu à porta e atirou com o chifre ao padre, acertando-lhe na cabeça.

Obviamente que foi um escândalo enorme e logo muita gente comentou que só uma judia era capaz de fazer uma cena daquelas; que só uma judia poderia interromper uma procissão. Se era grave ofender um clérigo, muito mais era fazê-lo no decurso de uma procissão. A ofensa maior era a nosso Senhor Cristo, que seguia na procissão levado pelo pároco na hóstia do cálice.

Na sequência do escândalo e alcunhada de judia, Catarina não teve outro remédio senão abandonar a aldeia e ir morar para Castela. No entanto, acrescentaram as testemunhas, ela e toda a família eram cristãos-velhos inteiros e em prova diziam que dessa família se ordenaram dois padres: Mateus Borges e António Caldeira de Melo.

Ficou satisfeito o deputado Fragoso com esta segunda diligência, considerando que a fama de judia era falsa e teve princípio “na acção temerária que referem de uma moça desta geração, que, ofendida de algumas palavras atrevidas que lhe dissera um clérigo, lhe atirou ou deu com um corno na cabeça, indo ele em uma procissão incensando com o turíbulo ao Santíssimo Sacramento, do que resultou dizer-se que quem tal fazia devia ser judia”.

Nestes termos, foi concedida autorização ao Dr. Francisco Fernandes da Guerra, familiar do santo ofício, para casar com Maria Esteves Gemelga, em julho de 1750. Resta dizer que ela era já viúva de Pedro Fernandes(6) e dele tinha uma filha, nascida em 1745.

Notas:

1 - ANTT/TSO-CG, Habilitações, Francisco, mç 63, doc. 1206. Francisco Geraldes da Guerra, natural de Almendra, era cura encomendado na igreja de S. Bartolomeu de Urros, Torre de Moncorvo. O facto de serem nomeados funcionários da inquisição de menor categoria, como eram os notários, para proceder a estas diligências, significará que então havia muitos processos de habilitação a decorrer e não havia comissários suficientes para o fazer.

2 - Por curiosidade, diremos que José Domingues Mocanca, de 52 anos, foi uma das testemunhas, o qual fez carreira militar, em terras da América de onde regressou a Freixo em 1737.

3 - ANTT/TSO/CG, Habilitações, Francisco, mç. 70, doc. 1284.

4 - Idem, tif, 137.

5 - Idem, tif, 197.

6 - Pedro Fernandes era filho de Pedro Fernandes Periscalho e Catarina Fernandes Belita, a moça que, supostamente, atirou o galho ao padre.

Fernando Faria, Tozé

Esvaía-se a tarde de domingo quando a estridência avisadora chamou. A voz compungida da Xana Fernandes informava-me que o meu excelente, jovial e generoso Amigo que sempre foi, o Fernando Tozé tinha sido sepultado pouco antes. Porque encontrava nas proximidades, passou o telemóvel à Mãe dos seus filhos, a Maria de Lurdes, Milú para os familiares e amigos.

Eu sabia da existência da terrível maleita a corroer o seu corpo, o Alberto Fernandes e o Ezequiel Sequeira informaram-me, a ambos prometi telefonar a este Príncipe hedonista, sempre bem-disposto, incapaz de invejas, estuante de vida recheada de alacridade e movimento ao modo dos seus antecessores da Renascença.

Se cada “homem tem de estudar o seu modo pessoal de encarar as coisas, para reconhecer sem dúvida uma visão própria do mundo e do universo”, o Fernando desde cedo estabeleceu as premissas dessa visão mantendo-se-lhe fiel sem quebras, sem remorsos ou remordimentos.  

Vejo-o tamanino, impecavelmente vestido de branco, de panamá na mão, no palco do Cine-Teatro Camões, a entoar parte de uma canção da famosa vedeta brasileira Carmen nascida em Marco de Canavezes e falecida em Holllywood.

Recordo-o a brincar no passeio fronteiro ao estabelecimento paterno debaixo do olhar risonho a chispar ternura do seu adorado tio Queiroz, tio esse que anos mais tarde, na Póvoa do Varzim, no decorrer das férias de Verão nos apagava as despesas no bar do Casino e facilitava a entrada na boíte ante a complacência do porteiro porque o sobrinho ainda não detinha idade legal para penetrar no espaço mal iluminado onde se dançava ao som de músicas dolentes da orquestra de Xavier Cugat, os violinos de Mantovani e o saxofone de Fausto Papetti.

Revejo-o engolfado num sobretudo de couro ornado por abas compridas e peludas durante as férias de Natal, na Pousada de S. Bartolomeu, estava a estudar na Inglaterra, discorremos durante horas acerca do futuro e não esqueço as palavras a incentivarem-me a prosseguir os estudos.

Lembro-o quando surgiu em frente à minha casa em Santarém, conduzia um Datsun triplo S, ostentando na frente dois faróis de camião. Fizemos uma festa, enquanto permaneceu na Escola Prática de Cavalaria até ser promovido a alferes e mobilizado. Durante semanas cirandarmos na periferia da cidade, bebíamos água-pé, esfusiante vinho capitoso, comíamos fêveras, as famosas caralhotas, tripas enroladas de carneiro e tudo quanto entendemos ser apetitoso.

A benquista Pousada de S. Bartolomeu, foi espaço qual partilhámos conversas bojudas de alacridade, de humor ferino, de non-sense, com a estimada Margarida Cepeda, o José Bouça, às vezes um incauto fariseu ou descuidada zelota entravam na roda à volta da mesa, não tardavam a levantar ferro ou a não repetirem a experiência pois a acutilância no zurzir os pregoeiros das falsas virtudes e vícios privados não suportavam as nossas ironias suportadas por exemplos de vária ordem.

A roda da vida levou-o a exercer funções profissionais em Moçambique e Angola, não modificou a visão acerca do mundo dual – diurno e nocturno –, várias pessoas a dirigirem projectos e investimentos nas antigas colónias sempre me assinalaram as suas virtudes, o acendrado sentido de fazer bem, o apuro nas relações naquelas nações emergentes tão susceptíveis, estabelecendo um amplo leque de relações capaz de varrer ressentimentos e reforçar e refrescar amizades a todo o tempo e em circunstâncias buliçosas.

O Fernando Tozé, sem cedências de nenhum género conseguiu ser amado e bem-amado capaz de atravessar um campo minado de hipocrisias, bajulações interesseiras e babas rançosas de mediocridade e inveja.

Acerado de entendimento detestava a dita mediocridade, a todos quantos lhe mordiam a não, e foram muitos, deixava-os entregues à sua mesquinhez porque no seu modo de ver as coisas a baixeza humana era bem real, não só elemento vital em inúmeros romances e poesias, também fonte invernal a jorrar sofrimento.

No momento de o Alberto ter-me informado da moléstia maléfica prometi telefonar-lhe já que não detenho possibilidades expeditas para fazer grandes viagens em curto espaço de tempo dizem-me os facultativos. Não lhe telefonei. Dizer-lhe o quê? Aumentar a sua dor no reavivar os bons anos passados? Tudo quanto ousámos projectar – a ida às Maurícias, a Madagáscar? Fiquei mudo, suspenso de fala.

Um homem não chora regougam os zorros na serra da estupidez, Sttau Monteiro escreveu Um Homem Não Chora, a zurzir esses zorros.

Vou voltar a chorar tristeza e saudades pelo Fernando. À Mãe dos seus filhos a expressão do meu pesar.

 

PS. Soube que a Tia Mariazinha já faleceu. O seu amor pelo Nando justifica plenamente trazê-la à colação neste triste momento.

A penúltima estadia

Não se trata duma questão de créditos públicos ou de meios privados: nunca será agradável dizer-se, quando entrarmos para ali, voluntariamente ou forçados, num lar de terceira idade onde será o nosso último alojamento enquanto vivos, a nossa penúltima morada. Qualquer que seja o nosso estado físico ou mental, qualquer um compreenderá muito bem a mensagem e quando nos “depositarem” provisoriamente, é bem claro que é para passar entre essas paredes novas o resto dos nossos dias.

Que lhe chamemos Ehpad, lar de terceira idade, residência sénior ou Residência dos sonhos o resultado dum internamento desses é sempre o mesmo aos olhos dos visitantes. Se os houver. Estacionam o carro no parque, com a maior das delicadezas. Através das enormes portas de vidro, entreveem as cabecinhas branquinhas em cadeiras rolantes ou fixas, cabeças inclinadas para o chão ou, quando dormem, para o lado.

Depois de se atravessar a porta é possível saudar a companhia toda. Ninguém liga nem responde aos “bom dia minhas senhoras e senhores”. Na receção não está ninguém. Fugindo pela esquerda, vai-se por corredores onde outros pensionários se encontram estacionados num silêncio pesado. Parecem estar mais ou menos bem. Cruzam-se olhares cansados, esboços de sorriso, gestos com a mão, desajeitados e pouco naturais. Por fim vê-se chegar uma blusa duma ou doutra cor. “Venho visitar a Sr.ª Tal.” “Quarto 22, primeiro andar”. Deve estar a terminar a sua sestazita de certeza.” Com um gesto, indica o elevador. Será, nesta fase, o único contacto com a administração da instituição a quem foi confiado, um dia de extremo cansaço e de péssima consciência, o cuidado de guardar o vosso ente querido, aquela senhora idosa algo desorientada que andava meio perdida na rua ou se enganava à procura do seu próprio quarto.

Aqui, toda a gente sabe, toda a gente adivinha e é perfeitamente claro. Não se está ali para brincadeiras mas sim para esperar a morte, o mais calmamente possível, sem desarranjar a vida dos ativos. Para entreter algumas ilusões, deixam levar um móvel ou outro bem encerado com gavetas onde estão conservados os tesouros dos tempos de glória; fotografias dos netos, folhetos sobre o Lar, imagens da virgem Maria ou de S. António, fotos de Fátima, um bloco de notas onde já não há força para escrever seja o que for. Uma agenda vazia. Rebuçados para a tosse. Um fio de cor sem qualquer significado. Uns postais de boas festas. Um livro talvez.

Com efeito, o que significa “esperar a morte”? Estar mergulhados numa meditação profunda, estruturada, com entrada, desenvolvimento e conclusão? Não, será mais uma lenta cascada de pensamentos sem ordem nem estrutura. Sonhos lânguidos, imagens moles que circulam no que resta de sensações e de cérebro vivo. Espera-se pela hora do almoço anunciada pelo remoinho ruidoso dos carrinhos para o lado do refeitório. Blusas coloridas dançam à volta, uma delas compõe a manta mal posta no colo dum senhor, endireita umas pobres costas meio inclinadas.

Durante a tarde, simpaticamente, são propostas “actividades” ou “animações” que agradam muito a alguns e muito pouco a outros. Porque mesmo aqui há espíritos mais fortes, geralmente os homens, que guardaram a força de desprezar tudo o que está ao seu alcance, homens que, toda a vida, se mostraram esquisitos perante o colectivo sobre o tema do “muito pouco para mim isso”. Envelhecemos tal como fomos. A senhora trémula treme com todos os membros enfraquecidos, a medrosa tem medo até da sua sombra e sobressalta ao mínimo ruído, o amuado melindra-se incessantemente.

Todas estas descrições serão excessivas? Na ótica de muitos, parecerão mesmo desesperantes, caricaturais e demasiado negras. Contudo são imagens que nos vêm espontaneamente ao espírito quando ouvimos, episodicamente, que o debate público versa sobre o tema dos lares de terceira idade insuficientemente dotados em créditos, em lugares, em pessoal, em conforto e em número.

Pode acontecer que algumas recordações de felicidade fugitiva saiam do cérebro quando se pensa num aniversário organizado com os filhos para os 95 anos da tia Maria ou quando a avó perto dos 100 anos que adorava Jesus e o vinho do porto mostrava um pequeno sorriso quando bebia um copinho. Mas estes momentos de alegria cheios de sorrisos e de recordação dos tempos passados seriam de alegria aos olhos dos pensionários eles-mesmos? Ficávamos contentes do efeito aparente das nossas visitas pouco frequentes. Aliviávamos as nossas consciências. Sabíamos que repartiríamos para a “verdadeira vida”, fora, com o ruído dos carros, das motas que atravessam a cidade como foguetões estridentes. À noite, projetávamos os nossos próprios futuros. Como é que serei eu com essa idade? Qual o melhor lugar para se preparar para morrer? Num hotel cheio de sol no Algarve, numa casa na aldeia? No hospital onde nos conduziria talvez a doença que não esperávamos ter? Em casa, claro, sonhávamos com isso: onde a dignidade dos humanos passa por uma autonomia continuada e com referências estáveis. A nação não sabe o que fazer com os seus mais velhinhos, estes além de seniores, aqueles para além da terceira idade, estas pessoas da última idade, impotentes muitas vezes, esgotados e desfeitos quase sempre, perdidos, e que ficam muito caros à comunidade. Os profissionais que os acompanham para as últimas circunstâncias das suas existências são duma entrega sem limites: faríamos nós a metade do que eles (sobretudo elas) fazem por esses campesinos? O seu tratamento é um dos maiores escândalos da nossa República. Antes de nos lamentarmos sobre a nossa sorte de vivos provisórios pensemos nesta parcela de humanidade que amontoamos nestas penúltimas estações antes da auto-estrada da vida eterna e que tenta conjurar o medo ancestral perante a morte e resistir à angústia da nossa finitude.

Na sabedoria da noite, deve haver lugar para a serenidade e o abandono. Temos a vida toda para nos prepararmos. Agradeçamos desde já aos que nos poderão ajudar, perto do fim.