Vacinação contra a Covid-19 levanta polémica em Bragança

Ter, 09/02/2021 - 10:25


Apesar de os 40 utentes e 50 colaboradores da Associação Sócio-Cultural dos Deficientes de Trás-os-Montes, em Bragança, estarem incluídos na primeira fase do Plano de Vacinação Nacional contra a Covid-19, a vacina ainda não chegou.

Na ASCUDT, a espera dura há mais de um mês. Segundo avançou a directora de serviços da associação, a listagem de pessoas a vacinar foi enviada no dia 30 de Dezembro, a pedido da Unidade Local de Saúde (ULS) do Nordeste, contudo, um caso positivo entre os trabalhadores fez atrasar o processo, mas Manuela Miranda não compreende o porquê. Em comunicado, a ULS do Nordeste, além de explicar que já foram vacinados os utentes e os colaboradores de todas as IPSS do distrito, enquadradas na primeira fase do Plano Nacional de Vacinação, esclareceu que a vacina apenas não chegou onde se verificaram surtos na data prevista para a administração, seguindo assim as orientações da Direcção GeCarina Alves ral da Saúde. Ao Jornal Nordeste, acrescentou ainda que é este o caso da ASCUDT e que, quando assim acontece, as vacinas são recebidas logo que o surto é declarado como extinto e quando se encontrem disponíveis. Manuela Miranda não aceita as justificações. “Tivemos, dia 17 de Janeiro, uma técnica, que não estava na instituição, que testou positivo. Automaticamente ficou em isolamento e, no dia seguinte, toda a instituição foi testada. Foram 88 testes e todos deram negativo. O resultados foram conhecidos no dia 19 de Janeiro e, desde aí, todas as semanas contacto a responsável pela vacinação da ULS do Nordeste e, segundo ela, não há vacinas”, esclareceu a directora de serviços da ASCUDT, vincando que “um caso isolado não é um surto”. Além de se dizer indignada com a demora, Manuela Miranda lamentou que haja vacinas a ser administradas sem que, quem a toma conste da primeira fase, ao passo que se deixa para trás “as pessoas mais vulneráveis”. “Mais de 40 administrativos do hospital de Bragança foram vacinados. Essas 40 vacinas podiam ter sido entregues à instituição, eram precisamente 40 utentes a precisá-la”, lamentou, lembrando ainda que se trata de pessoas que “têm diversas patologias associadas à própria deficiência, nomeadamente diabetes, hipertensão, problemas respiratórios e apneia”. Até agora, Manuela Miranda não sabe quando a vacina chegará à instituição.

Vacina não chegou às brigadas de intervenção rápida

A vacina contra a Covid-19 também ainda não chegou, pelo menos, aos enfermeiros que integram as Brigadas de Intervenção Rápida do distrito. “Recebemos uma exposição por parte de uma enfermeira que integra uma destas brigadas, reportando que, até ao momento, ainda não foram convocadas para fazer a vacina, nem tão pouco têm qualquer indicação de quando a vão fazer”, avançou o vice-presidente do Conselho Directivo da Ordem dos Enfermeiros, Luís Barreira. Criadas pelo Governo, há quatro meses, a nível nacional, as brigadas são uma resposta concertada entre a Cruz Vermelha Portuguesa e o Instituto de Segurança Social, de forma a criar uma intervenção eficaz quando os lares de idosos ficam sem pessoal técnico devido a surtos graves de Covid-19. 

Carlos Vaz diz ter seguido “orientações ministeriais”

O presidente da administração da ULS do Nordeste já confirmou que recebeu a vacina contra a Covid-19. Na edição passada, o Jornal Nordeste avançou que mais de 40 profissionais daquela entidade, que não constariam da primeira fase, teriam sido vacinados. Apesar de os administradores hospitalares não constarem no primeiro grupo de prioritários, Carlos Vaz, já recebeu as duas doses da vacina. “Não houve nenhuma acção indevida, nós seguimos rigorosamente as indicações, os prioritários foram todos vacinados primeiro e depois foram vacinados outros funcionários, com as orientações ministeriais que tínhamos. A administração também são funcionários e não foi em primeira linha, foi depois de todos os prioritários terem sido vacinados”, explicou Carlos Vaz, confirmando que tanto o próprio como os restantes membros do conselho de administração e funcionários foram vacinados.

Misericórdia de Bragança e de Mirandela entre a polémica

Na Santa Casa da Misericórdia de Bragança também há suspeitas de irregularidades no processo de vacinação. Segundo o jornal Público, os sete membros da direcção da instituição terão sido todos vacinados contra a Covid-19. Contactada, a Misericórdia de Bragança apenas alegou que “todo o processo decorreu dentro da normalidade e legalidade”. Na Misericórdia de Mirandela também há registo de cinco membros efectivos da mesa administrativa que já receberam a primeira dose da vacina. A informação foi confirmada pelo próprio provedor. Ainda assim, Adérito Gomes justificou-se com o facto de que, recentemente, os representantes da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade e os representantes da União das Misericórdias Portuguesas disseram que os lares terão recebido indicações do Governo para incluir nas listas de vacinação os utentes, funcionários e dirigentes activos. Entretanto, a Procuradoria-Geral da República confirmou que foram instaurados nove inquéritos para apurar se houve vacinação indevida, sendo um deles referente a factos ocorridos numa instituição de Bragança, não avançando qual.

Foto: ASCUDT

Jornalista: 
Carina Alves