Não o reconheci!

“Este rosto éme completamente desconhecido.” Eis a fórmula, que agora pode substitui a inversa, a de antigamente quando encontrávamos uma pessoa raramente vista mas algo familiar, arriscamos a fórmula que funciona sempre, hoje inusitada desde que o Covid a impediu, e aboliu mesmo as nossas capacidades de visão e reconhecimento facial: “Esta cara não me é desconhecida”. Por pouco que os fulanos encontrados na rua consintam em equipar a parte inferior do rosto com a famosa “máscara” que se tornou o tema central das nossas conversas e o centro das nossas preocupações, ninguém vê ninguém quando nos cruzamos. Não passam de testas mais ou menos cheias, rugas sem significado, têmporas estriadas pelos elásticos de diversas cores, orelhas contidas, óculos embaciados que deslizam pelo nariz. Bochechas ausentes, nem cheias, nem magras. Cabelos ao vento como se procurassem o caminho. Por conseguinte, os nossos contemporâneos, através do rosto, perderam uma grande parte da sua personalidade e, poder-se-ia dizer, o essencial do envelope corporal. Diógenes que procurava um homem ter-se-ia talvez perdido completamente no meio da multidão e só teria encontrado silhuetas sem asperezas. Com a dissimulação dos traços que nos destinguem, só vemos zombis similares. Nos tempos felizes anteriores ao Covid e da invenção dos “ gestos -barreiras”, cada encontro era a ocasião duma nova descoberta dos nossos semelhantes através do olhar. Parecia-nos ter a ilusão de ver desde logo de quem se tratava. Rostos abertos joviais e simpáticos, semblantes fechados, caras bonitas, boa pinta, rostos bondosos, caras lisas, peles de pêssego, marcas de antigas borbulhas, artifícios à base de UV, peles envelhecidas, tudo era rosto. Os rostos tinham um carisma; e que belos rostos por vezes! Assim, sem forçosamente gostarmos de toda a gente gostávamos de nos ver uns aos outros, nas nossas semelhanças. Hoje escondemo-nos uns dos outros como ladrões que procuravam fazer-se perdoar pelos delitos cometidos. O que procuramos dissimular com esta invisibilidade organizada e universal dos nossos rostos? Restam os olhares alcançados pelos únicos sobreviventes deste imenso jogo nacional de esconde-esconde. Confirmam ao mesmo tempo a sua utilidade, por vezes o factício do que aparentam revelar. Cruzam-se todo o tipo de olhares. Os das crianças, estupefactas, nos seus carrinhos, por cima do tecido, qualquer coisa de humano. Há olhares acolhedores e amáveis, encorajadores nos piscares da pálpebra em forma de convidados. Outros completamente bloqueados, como se proibissem a passagem a uma qualquer intimidade. Há olhares duma indiferença granítica e duma frieza de ciclope. Estes olhos, única parte visível do iceberg dos rostos, transportam todos os sentimentos de que ainda somos capazes. Por vezes distinguimo-los húmidos ou orvalhados, marcas do drama duma vida. Cruzamos olhares brilhantes, traços de intensos momentos de felicidade. A verdade da observação é que a maior parte parecem apagados duravelmente, como desligados. Nem nos fixam um momento que seja. Deslizam como a água nas penas dum pato e passam a outra coisa. Já não se troca qualquer tipo de amabilidade através dos olhos, apenas sentimentos pesados que traduzem mais o desespero do que a alegria do encontro. Olhares mauzinhos abatem-se sobre os que não trazem máscara. Olhares enfurecidos quando por inadvertência uma pequena falha lhes molha o vestido ou o casaco. Contudo sejamos objetivos e não tenhamos um olhar unicamente negativo sobre as pessoas que cruzamos nestes tempos de pandemia. Vemos também muitos olhares simpáticos e mesmo divertidos, alguns que só esperam a possibilidade duma pequena conversa como no balcão dum bar. Não, o que mais falta faz ainda, na impossibilidade de mostrar o rosto completo, são sobretudo os sorrisos. A qualidade do olhar nunca poderia compensar a força e pertinência dum sorriso acompanhando os lábios na sua manifestação de contentamento. O sorriso é o que mais falta faz à nossa sociedade, aos nossos contemporâneos mascarados, fantasmáticos. Poder-se- -ia imaginar um mundo privado do sorriso até ao fim dos tempos? Seria um inferno de glaciação relacional. Uma ausência total de intercâmbio de sentimentos positivos nas relações interpessoais. O universo sem sorriso seria inabitável, mal-humorado. Sufocante. Como é que as crianças poderiam adivinhar que a vida tem o seu peso grande de alegria quando não poderiam nunca mais ver desenhados os sorrisos dos pais?

Adriano Valadar