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NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Henrique Rodrigues Gabriel (c. 1671 – antes de 1740)

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A família Gabriel, de Bragança, começa com o curtidor Henrique Rodrigues e sua mulher Brites Fernandes. (1) Tiveram 3 filhos, mercadores de profissão e 2 filhas, ambas casadas com curtidores. Entre os netos (e foram muitos) predominavam os fabricantes de seda, letrados e rendeiros e também um padre. (2) E esta é a norma entre os marranos de Trás-os-Montes, já que os pais sempre procuram para os filhos uma profissão mais digna, do ponto de vista social.
Um dos filhos foi batizado com o nome de António Rodrigues Gabriel mas ficou mais conhecido pela alcunha de Cachicão. Casou em primeiras núpcias, com Luísa Nunes que lhe deu dois filhos e faleceu nova. Da segunda mulher, Isabel Rodrigues, (3) teria o Cachicão prole mais numerosa.
Um dos filhos de António Cachicão e Luísa Nunes chamou-se Henrique Rodrigues Gabriel e é o nosso biografado de hoje. Nasceu em Bragança, por 1671 e nesta cidade viveu, com exceção de um curto período em que foi para Madrid em viagem de negócios de seu pai e antes de casar com Beatriz Nunes de Castro. (4)
Definir a sua profissão é mais complicado, pois “pegava a tudo”. Assim o encontramos como rendeiro da comenda de Santiago de Coelhoso. Interessante: para a cobrança das rendas da comenda estabeleceu uma parceria com Henrique Novais da Costa que era rendeiro da comenda de S. Pedro dos Sarracenos. Os mesmos homens faziam o trabalho conjunto, certamente com menos despesa e mais lucro.
Pelo ano de 1708 tinha o réu uns 500 alqueires de cereal na tulha. E sendo assentistas na província de Trás-os-Montes os irmãos José e Manuel da Costa Vila Real, estes lhe tomaram o dito cereal para alimento das tropas. E correndo nesse ano o alqueire a 400 réis, eles só lho pagaram no ano seguinte e a um preço muito inferior.
Encontramo-lo também como mercador e de produtos os mais diversos. Em certa ocasião, um tal Jorge Pessanha, morador na cidade do Porto, ter-lhe-á encomendado uma parelha de mulas. E, uma vez que ele ia ao Porto levar as mulas, combinou com um tio paterno que ali morava e “comerciava por grosso” que lhe arranjasse umas caixas de açúcar para vender em Bragança. Pensava pagar o açúcar com o dinheiro das mulas. Porém, o dito comprador não gostou das mulas (ou do preço) e não ficou com elas. Como não tinha dinheiro para pagar o açúcar... voltou de mãos a abanar pois o tio José Rodrigues Gabriel não lho deu fiado... (5)
Porém, o tio não seria o único fornecedor de açúcar, pois que, na sua relação de bens, ficou registada uma dívida de 200 mil réis ao mercador portuense Manuel Álvares Fernandes, procedida de fornecimentos daquele produto. Tal como ficou registada a dívida de 82 mil 320 réis a Belchior Rios, da cidade de Guimarães que lhe forneceu “caixas de doce para vender”.
Mas a profissão de que ele se orgulhava era a de alferes da companhia de ordenanças da cidade de Bragança. E deste ponto de vista, pensamos que o seu processo é deveras importante e deve ser tido em conta pelos estudiosos da sociedade brigantina daqueles anos e da vida “policial” da cidade. É que, sendo o policiamento feito por “quadrilheiros” das “ordenanças”, uma das responsabilidades do alferes Gabriel era assegurar a manutenção de um posto de sentinela no “Principal”. E tanto quanto parece, as guardas eram feitas por gente da nação.
Deveremos concluir que, sendo a rua Direita maioritariamente habitada por hebreus, também a estes competia estar de sentinela nesta parte da cidade, enquanto a tropa regular vigiava a “vila” e o castelo?
Certamente que o posto de alferes lhe dava autoridade e prestígio social, a ponto de ele ter mandado fazer uma pera de prata para encimar a haste da “bandeira de alferes” ao ourives António Mendes. (6) Mas também lhe trazia aborrecimentos e desavenças. Como foi o caso de José Henriques Mendes, aliás, Moisés Mendes Pereira (7) que “fugia e largava o posto de vigia e ele o foi buscar a casa, de onde fugiu e se acoitou no hospital real”.
A outros que abandonavam o posto, ele os mandava prender e com Afonso de Valença, o caso foi mais sério. Este era sargento da mesma companhia e, possivelmente, aspirava subir ao posto de alferes, ocupado por aquele. Para o conseguir, precisava que fosse demitido, o que apenas estaria nas mãos do Governador militar. Assim, o Valença terá ido meter intrigas e empenhos ao Governador dizendo que o alferes Gabriel não conseguia gente para assegurar o serviço de sentinela da praça, que muitas vezes ficava abandonado. Resultou daí que os dois andaram às cutiladas e Afonso de Valença foi parar à prisão.
Porém, o dever das ordenanças não se limitava à ocupação do posto de vigia e guarda da cidade. Eles eram também soldados e tinham de estar preparados. Até por que as invasões castelhanas de 1710 estavam ainda bem vivas na memória de todos. Daí que o principal trabalho do alferes de ordenanças seria o recrutamento e treino dos ordenanças que, embora voluntários (à força), não deixavam de ser soldados. E muitos se queixavam que Gabriel os metia de soldados para se vingar. Por vezes, os mancebos escapavam ao recrutamento oferecendo cavalos para o serviço da tropa.
A fama das sedas de Bragança corria mundo e o mercador Gabriel não podia alhear-se de negócio tão rentável. Não sabemos se tinha produção própria de sirgo ou se compraria a seda em bruto. Sabemos é que ele a mandava tecer e debanar e muitas vezes se queixava que lhe roubavam nas teias de seda ou lhas deixavam “sujas de goma” ou “cheias de azeite” o que gerava frequentes queixas e inimizades. A dois desses tecelões lançaria em cara o argumento final: - Se queriam mais roubar que fossem à serra Morena!
Obviamente que todas estas e outras muitas inimizades surgidas com os seus correligionários (todos eles igualmente presos pela inquisição e seus denunciantes prováveis) foram bem aproveitadas por Henrique Gabriel para se defender das culpas de judaísmo que lhe imputavam as quase 3 dezenas de testemunhas, quando se viu encarcerado nas masmorras da inquisição de Coimbra onde deu entrada em 19 de Novembro de 1714 e onde permaneceu quase 4 anos.
Tal como aproveitou o facto de Pedro Rodrigues Carvalho, seu companheiro de cárcere, lhe ter partido o cântaro da água, para o nomear como inimigo capital e desvalorizar o seu testemunho. E a inimizade ter-se-á agravado quando o mesmo companheiro lhe deu com “uma ratoeira de cepo” na testa “e sem dúvida o matava se a ratoeira não quebrara”.
Para além da desvalorização das culpas que lhe imputavam, mostrando que elas eram fruto de vinganças mesquinhas e não do amor à verdade e à religião católica, Henrique Rodrigues Gabriel conseguiu que 4 padres de Bragança, entre eles o rev. António de Távora, prestassem testemunhos muito abonatórios da sua cristandade, perante o comissário Dr. Manuel Camelo de Morais. Acabou, assim, por ser condenado em pena relativamente leve: cárcere e hábito a arbítrio dos inquisidores.

NOTAS E BIBLIOGRAFIA:
1-ANTT, inq. Coimbra, pº 4902, de Brites Fernandes.
2-IDEM, inq. Lisboa, pº 2894, pe Francisco Mendes Gabriel.
3-Ficando viúva, Isabel Rodrigues entrou para o convento de Santa Clara em 1699.
4-IDEM, inq. Coimbra, pº 10487, de Henrique Rodrigues Gabriel; pº 7832, Beatriz Nunes de Castro.
5-IDEM, inq. Lisboa, pº 11679, de José Rodrigues Gabriel. Vivendo no Porto, foi apresentar-se voluntariamente na inquisição de Lisboa onde contou que, quando foi a Roma buscar a bula papal para poder casar com uma prima carnal, passou por Livorno onde permaneceu algum tempo. Ali, em casa de Gabriel de Medina, fez-se circuncidar, pois aquele lhe disse que “para viver com perfeição na lei de Moisés” deveria circuncidar-se. Sobre Gabriel de Medina, ver: ANDRADE e GUIMARÃES – A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, ed. Vega, Lisboa, 2009.
6-IDEM, inq. Coimbra, pº 180, de António Mendes.
7-IDEM, inq. Lisboa, pº 4939, de Moisés Mendes Pereira.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães