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NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Jacob Abraham Camille Pissarro (1830 - 15.12.1903)

A obra de Camille Pissarro é por demais conhecida, sendo ele considerado um dos fundadores do impressionismo. O próprio Henry Matisse lhe chamaria o Moisés da pintura contemporânea e Paul Cézame afirmava: - Todos descendemos de Pissarro.
De sua biografia diremos que ele nasceu na ilha de Saint Tomas, uma das Ilhas Virgens Americanas, em 10 de Julho de 1830. Aos 11 anos foi mandado a estudar num colégio em Paris. Concluídos os estudos, regressou à ilha onde se cruzou com um pintor dinamarquês chamado Fritz Malbye. Em 1852 acompanhou-o à Venezuela, em missão do governo das Ilhas Virgens, a estudar a fauna e a flora. Três anos depois, Camille Pissarro troca a Ilha pela Europa. Na companhia de Malbye, dirige-se a Paris onde trava conhecimento com Paul Cézanne, Claude Monet e outros que, com ele, foram os pais do impressionismo. Em 1861 casou com Julie Vellay que lhe deu 8 filhos. Nos anos da guerra franco-prussiana viu a “fúria militar” destruir muitos dos seus quadros, tendo ele ido viver para Inglaterra. Faleceu em Paris a 13 de Novembro de 1903.
Vamos então para a cidade de Bragança, à procura de seus ascendentes. Situemo-nos em meados do século XVIII, na Rua Direita, toda ela cheia de teares e oficinas de seda. Várias dessas casas são habitadas por gente da família Pissarro. No Arquivo Distrital de Bragança guarda-se um “Livro em que se achão descriptas as Fazendas que possue a Caza de João da Costa Pissarro, e Rafael José da Costa Pissarro”. Nele se contam dezenas de moradias, com respetivos custos e processos de aquisição, por eles ou por seu pai, Henrique José Gabriel Pissarro.
Porém, o ramo da família que procuramos é um outro, o dos filhos de Pedro Rodrigues Álvares Pissarro e Luísa Maria Nunes, que eram 4 rapazes e 3 raparigas. Em 1747 estavam todos solteiros e moravam juntos, em uma casa, a meio da Rua Direita, emprazada a Francisco de Morais Pimentel de que pagavam foro anual de 14.400 reis. Na falta dos pais, então já defuntos, o “chefe da família” era António Gabriel Pissarro, o mais velho, advogado. Lourenço e Alonso eram tecelões de seda, com uma “fabrica” no rés/chão da casa.  O mais novo dos rapazes chamava-se Francisco José Gabriel e contava 13 anos de idade. Andaria estudando gramática e latim no colégio dos Jesuítas, sito nas proximidades.
Em Abril de 1747, António Pissarro foi preso pela inquisição, juntamento com duas dezenas de outros marranos de Bragança. Foi acusado de ser o oficiante  (rabi) na “sinagoga” que regularmente faziam em casa de António Rodrigues Fallo, seu parente. Significativa neste processo foi a denúncia feita por António Manuel Figueiredo Sarmento que propositadamente andou a ver se os “judeus“ da Rua Direita guardavam o Kipur de 1746 e disse que “observou curiosamente que no dito dia estavam às portas uns dos outros sem trabalharem e com camisas lavadas e especialmente fez reflexão e reparo por serem pessoas com quem ele testemunha tem mais conhecimento e foram o licenciado Francisco Furtado Mendonça, médico, Manuel Mendes, castanhola, e o licenciado António Gabriel Pissarro que todos estavam em casa deste, com outros mais. O que ele individualmente viu de sua casa, por estar defronte do dito António Gabriel Pissarro, e este no mesmo dia mostrou a um irmão dele testemunha chamado Francisco Bernardo umas meias lavadas que tinha nas pernas, como também colete de linho lavado e camisa lavada”.
Muito curiosa foi a descrição feita pelo padre Bento Rodrigues da sepultura aberta em terra virgem na igreja de S. Vicente para enterrar o pai do Dr. Pissarro. Os “coveiros”, para mostrar ao padre que não era terra virgem, foram buscar uns ossos ao adro de S. João e “tendo-os metido na água benta da pia, os incodrigaram na terra para que se entendesse que da dita cova os tinham tirado”.
Não cabe aqui dar conta do processo do nosso advogado, cheio de notas interessantes para o estudo da sociedade brigantina da época. Diremos tão só que ele saiu penitenciado em cárcere e hábito perpétuo no auto da fé de 16.11.1749.
Certamente que sendo grande humilhação viver em Bragança com a fama de judeu e obrigado a ir à missa vestindo um saco amarelo por cima da roupa, logo que lhe foi possível, Gabriel Pissarro abandonou a terra.
Obviamente que os irmãos receavam também ser presos e, antes que isso acontecesse, resolveram apresentar-se e confessar que também haviam judaizado. Foi o que fez Francisco José Gabriel, o mais novo, que se apresentou na inquisição de Coimbra em Janeiro de 1753. De suas confissões ficamos sabendo que ele frequentava o 2º ano de cânones na universidade de Coimbra e que o irmão António já morava em Lisboa, enquanto os outros moravam em Bragança. Depois de apresentado pediu licença para ir de férias para Lisboa e para ali acabaria também por transitar o seu processo.
Em Fevereiro de 1754, o irmão Lourenço morava em Vila Real e os outros em Lisboa, como disse a irmã Isabel Brites Rosa que igualmente se apresentou na inquisição de Lisboa.
Não sabemos se Francisco acabou o curso em Coimbra, mas sabemos que casou com Rebeca Rodrigues Álvares (1752-1783) e que estes foram os pais de José Gabriel Pissarro, nascido em 1777, avô paterno de Camille Pissarro. Este seria muito pequeno quando os pais foram de Portugal para Bordéus, em França. Ali, em Janeiro de 1782, foi feita uma subscrição entre os membros da comunidade espanhola e portuguesa da mesma cidade para oferecer ao rei de França um barco para a marinha mercante, tendo “les frères Pissarro” contribuído com 500 libras. Serão eles? E também para ali terá ido na frente o advogado António Gabriel? Será ele o Mr. Jacob Pissarro que em 29.3.1778 foi eleito para o cargo de “gabay” da “nação judaica portuguesa” de Bordéus?

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:
1- RODRIGUES, Luís Alexandre – Bragança no século XVIII. Urbanismo. Arquitectura. Dissertação de mestrado, universidade do Porto, ed. Câmara municipal de Bragança, 1995.
2-ANTT, inquisição de Coimbra, pº 6269, de António Gabriel Pissarro, fl. 23v: - Também em casa do licenciado António Gabriel Pissarro há teares, em que trabalha um seu irmão chamado Lourenço.
3- Pº 6269, fl 16.v: - O padre António Carlos Vilas Boas disse que ouviu dizer a pessoas que lhe não lembra que o pai do licenciado António Gabriel Pissarro era quem explicava a lei mosaica aos mais cristãos-novos e que no mesmo exercício se presumia ficar o dito licenciado seu filho.
4- Pº 6269, fl. 104v.
5- ANTT, inquisição de Lisboa, pº 6954, de Francisco José Gabriel. IDEM, pº 517, de Isabel Brites Rosa.
6- SCHWARZFUCHS, Simon - Le Registre dês Deliberations de la Nation Juive Portugaise de Bordeaux (1711 – 1787), p. 533, Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1981.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães