Nós trasmontanos, sefarditas e marranos- OS LEDESMA - Família e Mobilidade: o Patriarca António Ledesma

Quando casou com Catarina da Silva, António Ledesma era já viúvo de Antónia Rodrigues, que lhe dera uma filha, chamada Jerónima Ledesma. Esta terá nascido em Bragança por 1572 e, em Setembro de 1600, na sequência de uma enorme vaga de prisões levada a efeito pela inquisição em Bragança, ela apresentou-se voluntariamente em Coimbra a confessar que andara errada na fé e pedir perdão.  Estava ainda solteira, mas não demorou a casar, com Gaspar Rodrigues, o Pardal, de alcunha, sapateiro. O casal viveu em Bragança, onde lhe nasceram e se criaram dois filhos e uma filha. Um dos filhos chamou-se António Ledesma, como o avô. Nascido por 1604, António Ledesma fez-se mercador e casou em Bragança, com Beatriz Nunes, que lhe deu uma filha, chamada Maria Nunes que casou em Bragança, com Manuel Franco, rendeiro do real d´água. Todos foram presos pela inquisição e deles haveremos de falar, em próximo capítulo. Não sabemos se foi antes ou depois da morte de sua mulher, que António Ledesma rumou ao Porto e ali casou segunda vez com Maria Ferreira de Carvalho, natural de Coimbra e da qual voltaremos a falar. O casal estabeleceu morada em “umas casas sobradadas, ao Postigo das Virtudes, da banda de dentro, que partem com as casas de um homem que ficou em Castela no tempo da Aclamação e da banda de baixo com as casas de António Mendes Carvalho, homem de negócios do Porto, as quais casas comprou na praça pública, por 95 mil réis”.  Mercador judeu que se preza não se limita a um ramo de negócio, antes compra e vende o que aparece. António Ledesma não fugia à regra e apresentava-se como uma espécie de “gestor de negócios” a quem muitas pessoas entregavam “dinheiro ao ganho”, que ele investia em negócios tão diversos como na compra de partidas de bacalhau, caixas de açúcar, rolos de tabaco... e também cordões e cadeias de ouro ou saleiros e jarros de prata. No entanto, a sua atividade principal era a de tendeiro, com uma loja de fazendas situada debaixo do hospital de S. Crispim, à Ponte de S. Domingos, que na altura da sua prisão, estava abastecida com uns “180 côvados de baetas, 15 ou 16 peças de bombazina, 16 ou 17 peças de fustão, 10 arráteis de retrós preto, 3 ou 4 de retrós de cores, uma peça de sutache preto, que terá 35 ou 36 côvados e outras miudezas”. Naturalmente que a loja de António Ledesma era local de encontro de mercadores cristãos-novos estabelecidos no Porto. Mais procurada, no entanto, seria a sua casa de morada pois nela tinha instalado uma “casa de jogo”, de acordo com o testemunho de Vasco Fernandes Campos: - Haverá 3 ou 4 anos, pouco mais ou menos, se achou em casa de António Ledesma, cristão-novo, viúvo não sabe de quem, que dava casa de jogo, com o mesmo, ambos sós, e vendo ele confitente na dita casa uma posta de congro, reparou nisso, dizendo ao dito António Ledesma como comia aquele peixe que era de pele? E ele lhe respondeu que o tinha para mandar de presente, e com estas cenas se declararam como criam na lei de Moisés...  Como se vê, não seria apenas para jogar que ali se reuniam, por vezes em grupo. Veja-se, a propósito, a confissão feita por António Ledesma perante os inquisidores de Coimbra, em 29.8.1658: - Disse que haverá 5 anos, em sua casa, na cidade do Porto, com Vasco Fernandes Campos, cristão-novo, mercador (…) casado em Castela, donde trouxe a mulher haverá ano e meio para Sendim e dali haverá um ano para o Porto, onde são moradores, na rua de Belmonte, e com António Lopes Bacelar, cristão-novo, já defunto, mercador, casado com Grácia Lopes, e com António Carvalho, morador na mesma cidade, natural da Guarda, casado com uma filha de Francisco da Paz e, estando todos 4, se declararam e disseram que viviam na lei de Moisés e por sua guarda faziam o jejum do dia grande… Como se vê, António Ledesma era já viúvo, pela segunda vez. O trato da casa estaria então a cargo de sua irmã, Maria de Ledesma, 4 anos mais nova que ele e que nunca casou. Investida no papel de donade casa e educadora dos sobrinhos, Maria de Ledesma seria uma “doutrinadora” da lei de Moisés. A este respeito, Gaspar Pereira de Carvalho, filho de Catarina Ferreira Ledesma, neto de António Ledesma e Maria Ferreira de Carvalho, secretário do visconde de Ponte de Lima, diria o seguinte: - Haverá 13 anos, foi ele confitente a casa de Maria Ledesma (…) da qual tinha algumas razões de parentesco por afinidade com parentes dele confitente, e por esta razão, tinha ele confitente familiaridade com a dita Maria de Ledesma (…) que o persuadiu a que tomasse a crença na lei de Moisés.  De seguida, Gaspar falou das orações e ensinamentos de Maria Ledesma. Uma dessas orações devia ser repetida 70 vezes, passando em simultâneo as contas, tal como os cristãos repetiam a Ave-Maria, rezando o terço, e era a seguinte: Tantas graças e louvores Vos sejam dadas, Senhor, Como estrelas há no céu, areias no mar, Telhas nos telhados, águas que correm, aves que voam, Pedras compostas, pedras por compor, Louvado e engrandecido seja o nome do Senhor.  E depois de terminar as contas, devia esta reza ser oferecida, olhando-se para o nascente e falando para o céu, dizendo a oração seguinte: Divino Adonay! Recebe a minha oração, Minha rogativa, minha petição, recebe Senhor! Pouco por muito, sucio por limpo, torto por direito, Leva-me Senhor à terra onde não tenha de temer meus inimigos!  Gaspar contou que Maria Ledesma lhe fazia escrever as orações num papel para as estudar e aprender. Esse papel deu-o, 4 anos depois, à sua doutrinadora, quando já dele não precisava e deixou o Porto mudando-se para Lisboa. Registemos uma última oração, que, segundo o ensino de Maria Ledesma, devia ser rezada quando se fosse deitar: Bendito Adonay, nuestro Diós, rey del mundo! El hace cahir suhertes de sueños sobre mis ojos y alumbrame de atroceder encuentros malos y no me conturben sueños malos e tentaciones malas! Bendito Adonay, que alumbra al mundo todo con su honor!  Para além da irmã e dos filhos, em casa de António Ledesma vivia e com ele trabalhava Gaspar Rodrigues Nunes, seu primo direito, originário de Bragança e “contratado” para casar com a sua filha Catarina Ferreira Ledesma, atrás citada. Por agora, resta dizer que António Ledesma foi preso ao início de Abril de 1658, quando um verdadeiro furação arrasou a gente da nação Portuense. Na verdade, só no ano de 1658, foram arrastadas para as cadeias da inquisição mais de 70 cristãos-novos, mercadores na quase totalidade, uma boa parte deles originários da terra Trasmontana: Vila Flor, Torre de Moncorvo, Bragança, Mirandela e Vimioso. A título de exemplo das cumplicidades existentes, veja-se a seguinte declaração feita em 29.8.1658, por António Ledesma: – Disse que haverá 14 anos, na cidade do Porto, em casa de André Lopes Isidro, xn, mercador, defunto, natural de TMoncorvo, se achou com ele e com Manuel Rodrigues Isidro, que será de 36 anos e que agora vive em Lisboa e com Jerónimo Rodrigues, xn, solteiro, mercador, natural de Bayonne e com Policarpo de Oliveira, filho de Luís António de Morais, natural de Madrid e morador no Porto e estando os 5, por ocasião da Páscoa do pão ázimo, convidou o dito André Lopes Isidro a ele e aos outros com umas alfaces e bolos de pão ázimo, por guarda da lei de Moisés comeram as ditas alfaces e os bolos de pão ázimo.  No que respeita a António Ledesma, diremos que saiu no auto- -da-fé realizado em Coimbra em 23.5.1660, condenado em confisco de bens e 4 anos a remar nas galés d´el-rei. Esta parte da pena não a pôde cumprir porque saiu das masmorras da inquisição “quebrado de uma virilha e aleijado de uma mão”. Foi-lhe então comutada a pena para 4 anos de degredo em uma das terras de fronteira da província da Beira. Mais drástica foi a pena aplicada a sua irmã Maria Ledesma, cuja sentença foi lida no mesmo auto: relaxada à justiça secular. 

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães