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Mais tempestade do que bonança

Ter, 02/10/2018 - 12:03


Na procura de alívio para as tragédias que marcam a história do mundo gostamos de vestir a capa do optimismo, a tapar tremuras indisfarçáveis, quando soluçamos que depois da tempestade vem sempre a bonança.

Esquecemos, para ilusório conforto, que a relação inversa é mais característica do percurso da humanidade e de cada um de nós. Se olharmos com olhos de ver para o passado, havemos de reconhecer que a tranquilidade, a paz, a prosperidade ou a liberdade foram excepções diluídas numa regra milenar de guerras, miséria, injustiça e iniquidade, condições normais num mundo que nos habituámos a considerar um vale de lágrimas, necessário para expurgar a marca infernal que nos terá selado as origens.

Há um século estávamos a arfar, estarrecidos com o resultado da guerra que dissemos grande e mundial, milhões de mortos como nunca se vira, técnicas sofisticadamente cobardes, mas eficazes se quisermos esquecer o reverso escaldante da moeda.

As proclamações de que nunca mais os homens seriam capazes de tais atrocidades cedo foram negadas pela soberba, de mão dada com a avareza, resultando na criação de condições para formação de nova tempestade histórica, com o fascismo a chegar ao poder na Itália, o capitalismo sem freio a rebentar a economia em 1929, o comunismo a encontrar justificação para o estado concentracionário e, olho do furação, a chegada ao poder do nazismo que, numa dúzia de anos, escaqueirou um legado civilizacional de milénios.

Paradoxalmente, o tempo seguinte de bonança terá sido garantido por um “upgrade” na capacidade de matar, as armas nucleares. A nova guerra, também grande e mundial, matou muito mais que a anterior. Pareceu deixar consciências abaladas e o mundo foi vivendo com guerras localizadas, tiranetes olhados com reprovação e estados de direito a retomar o caminho difícil da humanização.

Mas, desde há 30 anos, vão-se multiplicando focos de agitação, que já se constituíram em potenciais origens da nova tragédia, talvez mais arrasadora, porque do que se trata é de uma tempestade com vários olhos de furacão, capaz de impor à humanidade o retorno ao caos.

O grau zero da dignidade foi atingido em 2001, com o ataque ao símbolo das democracias modernas. Depois, em 2008, a cupidez insana mergulhou-nos no caldo podre que sobrou de 1929, destapando os lixos do populismo, da ignorância roncante, da sordidez, que transforma rapidamente um cidadão numa besta cruel. Entretanto, a Síria mostrou-nos a verdadeira cor do inferno e do medo, que se não for encarado com racionalidade pode ser a verdadeira desgraça.

Afinal, cem anos depois, as democracias não parecem ser mais que miragens, fantasias empolgantes de almas generosas, sempre ridicularizadas pela vida real. Outra coisa não são as legitimações ditas democráticas do histriónico Trump, do boçal Maduro, do pró-califa de Ancara, dos clérigos de Teerão, dos títeres da Hungria e da Polónia, dos pacóvios que garantiram o Brexit, do Playmobil de Barcelona e, para vergonha do legado português ao mundo, da esperada ascensão ao pódio das eleições brasileiras de Bolsonaro, expressão última da insânia política e humana.

Cuidado, pois, com os enganos de alma ledos e cegos.

 

Teófilo Vaz