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Podemos limpar as mãos à parede

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Ter, 28/05/2019 - 09:33


Nesta nossa terra, quando alguém age de forma irracional, torpe ou mal intencionada, é costume ouvir, num tom reprovador, “bem podes limpar as mãos à parede”, expressando a convicção de que as mãos de tal sujeito terão mergulhado num verdadeiro monte de esterco moral ou ético, ao arrepio dos valores da dignidade e da cidadania.

A habitual lengalenga recitada contra os políticos assemelha-se a outra ladainha negativa em que se renuncia a todos os demónios e suas obras, complementada por apelos desesperados a todos os anjos e santos, para que nos salvem, como se não tivéssemos responsabilidade no curso das nossas vidas. Na verdade, o que geralmente pretendemos é safar-nos, sem considerações de solidariedade, justiça e equidade, muito menos de dádiva a causas comuns, que são os esteios de uma sociedade para o futuro.

Preferimos a festa do egoísmo sem limites, até porque a vida é curta e enquanto não nos faltar pão, chicha e as comodidades de cada dia, os outros que se amanhem, que o mundo não está para burros, faltosos de olho vivo e pé ligeiro.

As responsabilidades cívicas são inquietação de tolos, que perdem tempo a pensar no legado que querem deixar às gerações futuras, almas piedosas, condenadas a ver a ruína de todas as utopias.

É bom esclarecer, no entanto, que a demissão cívica de Domingo passado, não atingiu os níveis ridículos que se propalaram. De facto, os votantes nas eleições europeias até terão aumentado, apesar do índice de abstenção ter subido, no que nos confrontamos com um paradoxo aberrante. Aconteceu que vimos aumentado o universo eleitoral em centenas de milhares de eleitores, portugueses e descendentes, espalhados pelo mundo, o que fez subir a abstenção, porque se trata de cidadãos que provavelmente nunca votaram em eleições nacionais e nem sequer estavam recenseados.

Assim se contribuiu para agravar a sensação de desleixo cívico. De qualquer modo, a abstenção, mesmo de 60%, não deixa dúvidas quanto à displicência, que não nos dá o direito de passarmos o tempo a insultar os políticos e a política, pretendendo arredar-nos das responsabilidades. Por acção ou omissão, os últimos responsáveis pela situação do país somos todos e os políticos, bons ou maus, só lá chegam porque nós queremos, enquanto vivermos num estado de direito democrático.

Pode acontecer que a alienação dos deveres conduza à perda progressiva de direitos e voltemos à condição de súbditos de poderes instalados por minorias, pretensamente iluminadas, intolerantes, fanatizadas, que não terão pejo em reinstalar regimes repressivos, em nome de desígnios do espectro da irracionalidade, como a humanidade conheceu até há bem pouco tempo, mesmo nesta Europa, que reclamamos com um papel marcante na civilização.

O direito de voto universal é uma conquista muito recente e há milhares de milhões de habitantes do planeta que ainda não lograram exercê-lo em condições de verdadeira liberdade. Desperdiçá-lo alegremente é uma parvoíce, porque o efeito prático é abrir alas aos novos aspirantes a reis da selva, onde predadores ferozes e sanguinários disputarão os despojos da humanidade.

 

Teófilo Vaz