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Variações sobre a desgraça

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Ter, 16/07/2019 - 01:13


Nem os céus se compadecem de nós, como se os deuses tivessem resolvido abandonar-nos à sorte que as entidades diabólicas nos quiseram impor como este verão falseiro.

Quando a água, suave e refrescante, se precipita sobre as nossas cabeças em forma de pedra dura, percebemos que a desgraça não chega sempre a grunhir. Pelo contrário, pode surgir com pezinhos de lã fofa, para nos deixar espantados, míseros, soluçantes, enquanto num qualquer Olimpo se faz a festa cruel do riso desbragado.

De terras de Miranda chegou noticia, há mais de uma semana, de pedras de granizo que até furaram tampos de mesas numa esplanada. Então não houve razão para inquietações, porque nos habituámos a respeitar a natureza.

Também não subiu às manchetes a trovoada de fim de tarde de verão, na segunda-feira, dia 9 de Julho, que deixou marca nordeste fora, nomeadamente em redes de telefones que ficaram desactivadas. Passou o resto da semana, até sexta-feira, e uma viúva de 90 anos, que insiste em viver na tranquilidade da sua casa, não tinha condições de contactar os familiares.

Com o fim-de-semana à porta alguém resolveu contactar a empresa que deveria garantir o serviço e um tratamento igual para todos os cidadãos deste país. Voz suave do outro lado, como compete aos vendedores de ilusões, reconheceu que sim, naquela aldeia do concelho de Vinhais, havia um problema nas ligações telefónicas, que seria observado pelos técnicos na segunda-feira, ou seja, ontem, sete dias depois da trovoada.

Fosse numa rua da capital e não faltariam directos até ao enjoo, que por lá os direitos fiam fino e ninguém arrisca confundir-se com lugares recônditos de um qualquer terceiro mundo. Por falar de direitos, a senhora de 90 anos é viúva há um ano e meio e ainda não recebeu o subsídio do funeral nem a meia pensão que lhe cabe por lei, mas pode orgulhar-se de viver num país em que os preços dos transportes públicos nas áreas metropolitanas baixaram significativamente, com promessa de se tornarem gratuitos a breve prazo. Só que ela não tem carreira à porta, nem carro, nem carta, telefone tem quando calha, redes de telemóvel nem todas lá chegam e, portanto, que se amanhe, chore se quiser, que já haverá pouco quem ouça.

Entretanto, no sábado, a artilharia celeste carregou sobre Mogadouro, deixando novo rasto de destruição e tristeza, pedras do tamanho de ovos de pita, que arrasaram olivais, vinhas, soutos e amendoais.

A viver variações da desgraça, não nos damos conta que todos, neste mundo, corremos o risco de tragédia maior que nenhuma saraivada faria acontecer. Caminhamos para um novo período de confrontação de potências agressivas, armadas até aos dentes, próximas de uma guerra verdadeiramente quente.

Não faltam feras assanhadas, imprevisíveis. Além do ambiente de taberna rasca que se vive entre os membros da União Europeia, está na ombreira da porta uma dupla que não esconde a vontade de ver tudo em cacos, os novos senhores dos impérios a oriente, o russo e o otomano, aproveitando as fragilidades da palhaçada que se vive nos Estados Unidos da América.

Perante isso as pedras de granizo, por maiores que sejam, não passam de cócegas sem importância.

 

Teófilo Vaz