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SPZN – lado a lado com a Educação

Há 45 anos nasceu o SPZN, Sindicato dos Professores da Zona Norte. Cinco dias após o 25 de Abril, nasce o primeiro Sindicato de Professores em Portugal.

Um estrutura sindical que não obstante a sua missão de defesa dos direitos dos seus associados, Professores e Educadores, nunca adoptou um comportamento corporativo.

Não o fez, nunca o procurou e, garantidamente, nunca o executará.

A razão é elementar mas substantiva: a defesa do Ensino passa inevitavelmente pela salvaguarda de todo o edifício humano da Educação, enquanto estratégia valorativa de um País.

Obviamente que no cume da defesa dos direitos está o grupo que se lhe associa, mas com ele está, também, uma sociedade que beneficia com uma classe docente com mecanismos mais “decentes” que permitam o exercício da actividade sem que o esmero seja beliscado, a responsabilidade adulterada e as condições de trabalho marginalizadas.

A História recente ilustra bem o perigo que decorre da subtração de direitos e dignidade de uma classe profissional que lida e educa gerações.

Tem-se assistido, principalmente desde o tempo de má memória da ministra Maria de Lurdes, a uma tentativa de descapitalizar uma classe profissional que, noutras geografias, não apenas europeias, é valorizada pelos respectivos governos nacionais, independentemente da matriz ideológica que os fermenta.

Em Portugal, o SPZN tem estado, incessantemente, lado a lado com os Professores e Educadores, para que as Escolas, as Famílias e o País, no seu todo, possam usufruir de um Ensino que pugne pela excelência. Valha a verdade que nem sempre tem sido fácil!

Mas os Professores e Educadores, eternos obreiros de futuros, têm resistido com afinco, pese o desgaste e oposição concertada, de certo ingenuamente, manifestada entre alguns governos, fazedores de opinião, jornalistas e pseudo-pedagogos, que, todos juntos, não sabem o que é lecionar turmas excessivamente grandes, onde impera a indisciplina quase que outorgada em oposição à autoridade do Professor, convenientemente esquecida.

Nestes 45 anos, o SPZN e a FNE (Federação Nacional de Educação) lutaram e defenderam uma educação valorizada na profissão e presente na sociedade, alcançando importantes conquistas que não podemos esquecer. Foi assim com o pagamento aos professores não efetivos dos meses de Julho, Agosto e Setembro; com a aplicação aos professores não efetivos dos benefícios da ADSE; com o direito ao vencimento dos professores durante o período de estágio; com a contagem de todo o tempo de serviço, antes e após profissionalização, para efeitos de progressão na carreia; com a consagração da progressão em carreira dos educadores e professores dos Quadros de Vinculação Distrital e dos Professores com Nomeação Definitiva sem lugar de quadro; com a reestruturação e revalorização da carreira docente do ensino superior; com a consagração do 1º Estatuto da Carreira Docente em 1990 e 1998; com a criação do regime excepcional de aposentação aos 30 anos de serviço para os docentes em regime de monodocência; com a concretização da Carreira Única; com a consagração em 1991 de um novo modelo de gestão e administração dos estabelecimentos de ensino público; com a criação em 1994 dos Quadros de Zona Pedagógica; com a criação de 15.000 novas vagas para os docentes da Educação Pré-escolar, Ensino Básico e Secundário em 1998; com a contagem do tempo de serviço prestado no ensino particular para efeitos de ingresso no ensino público; com a consagração do Contrato Colectivo de Trabalho para o Ensino Particular e Cooperativo; com o acordo com o Ministério para atribuição do subsídio de desemprego para professores em 2000; com a revisão da legislação de concursos e melhoria no seu mecanismo; a libertação para mais de 25000 docentes da exigência de realização da PACC; a existência de 6 horas de componente letiva que fosse considerada suficiente para efeitos de atribuição de horário, entre muitas e muitas outras CONQUISTAS! Ou, mais recentemente, a luta contra a vergonha da expropriação de 9 anos, 4 meses e 2 dias de exercício profissional e respectivo salário, ao pretenderem que todos estes anos de trabalho, descontos e pagamento de impostos, nada contem e sejam esquecidos por mero capricho político.

A este esbulho dizemos Não!

Atraiçoar os direitos de quem ensina, forma e educa, é atraiçoar Portugal, enquanto País que se quer desenvolvido e preparado para os desafios presentes e futuros.

 

Manuel Pereira

* Coordenador do SPZN-Bragança

Vendavais - A palhaçada

Embora todos gostemos de nos rir com boas anedotas e piadas jocosas, não é nada fácil ser palhaço. Contudo, algumas pessoas sem qualquer propensão para serem palhaços, comportam-se como tais e não fazem rir ninguém. E desta feita, o ser palhaço é sinónimo de ser tonto e não saber bem o que anda a fazer. Autênticas baratas tontas. Correm de um lado para o outro afirmando aqui uma coisa e ali outra, numa incoerência absurda.

Quando há alguns meses atrás o governo concordou em descongelar as carreiras dos professores e retribuir todo o tempo de serviço que lhes tinha sido congelado, tudo parecia claro. Os sindicatos acalmaram, os professores também e tudo parecia caminhar na direção certa. Os professores iriam recuperar o tempo que lhes tinha sido roubado. Quase dez anos!

Depois de uma série de reuniões com os sindicatos completamente falhadas, começou a ficar cada vez mais distante a concretização de tudo o que se acordara. Os sindicatos movimentaram-se e deu-se início a uma série de manifestações e greves tendentes a levar o governo a retomar o diálogo e a ceder no que tinha acordado. O Ministro da Educação parecia um palhaço, pois dava o dito por não dito, adiantava promessas e recusava entendimentos, marcava reuniões e não aparecia. Uma palhaçada sem sentido algum.

Estava na hora de comprometer os partidos políticos e levá-los a pronunciarem-se sobre o assunto. E foi o que fizeram, com a dignidade que o assunto merecia, diga-se. Analisada a situação, concordaram em obrigar o governo a cumprir o que estava aprovado e orçamentado. Mas o governo recuou e secundado pelo Ministro das Finanças, veio a terreiro dizer que era impossível despender tantos milhões, mesmo sabendo que essa verba estava aprovada em sede de orçamento.

Se conseguíssemos todos saber as voltas que o dinheiro dá nas mãos dos ministérios e dos ministros, veríamos que ele anda numa roda-viva, e vai parar sempre onde menos se espera e para tapar os buracos que nós desconhecemos. Mas ninguém referiu que os milhões que foram roubados aos professores durante quase dez anos, foram para tapar os buracos dos bancos que foram à falência. Isto para não falar em muitos outros milhões que o governo enterrou nos bancos e que todos estamos a pagar. Outra palhaçada enorme.

Perante toda esta sarabanda, os sindicatos resolveram apoiar-se na Assembleia da República e nos partidos que apoiavam, não só o descongelamento das carreiras, como também a contagem imediata do tempo de serviço e o natural posicionamento nos escalões respetivos. E aqui enfrentaram, de algum modo, outra palhaçada, já que alguns partidos começaram a titubear na sua posição, entre eles o PSD. Rui Rio não se conseguiu assumir como um defensor e apoiante do que estava aprovado anteriormente. Colocou-se praticamente ao lado do Ministro das Finanças ao dizer que era necessário avaliar a possibilidade do cumprimento do orçamento, já que eram muitos milhões que o governo teria de pagar e causava problemas de solvência, entre outras desculpas. Não se queria comprometer. O líder do maior partido da oposição não se quis comprometer! Mas deve querer votos nas eleições ou será que os portugueses também não se vão querer comprometer?

De louvar a posição do BE e do PCP, que não tendo nada a perder, se afirmaram peremptoriamente pela positiva, encurralando o governo e a Assembleia. E a Assembleia da República aprovou, com os votos de todos os partidos, menos o PS, sobre a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores e não só dos quase três anos que estavam já aprovados.

Perante tal situação, Costa resolveu lançar uma bomba atómica e, depois de reunir com Marcelo, veio dizer que se fosse definitivamente aprovado este processo, o governo se demitiria. Chantagem? Desistência? Só os cobardes é que desistem. Que palhaçada é esta?

Apesar de tudo, parece que não contava com a posição firme dos parceiros de coligação e ficou sozinho e pendurado com a bomba na mão. Mas atenção. O Rui Rio ainda não se pronunciou depois de lançada a bomba de Costa. Vai recuar novamente? Terá medo de se assumir uma vez mais? Outra palhaçada. Que tristeza! Como é possível assistirmos a toda esta encenação, repleta de falsidades, pensando que enganam o povo português? Agora jogam-se os votos das eleições legislativas. A campanha já começou e Rui Rio está a tentar contabilizar as perdas e os ganhos da sua posição face a este problema. É bom que tome uma posição séria sobre o assunto e não fuja com o rabo à seringa. Seja digno como os restantes partidos se quer que o levem em conta no futuro. E Costa também. É tempo de acabarem com as palhaçadas.

 

Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Francisco Henriques (Miranda do Douro, c. 1583-Castela, c. 1646)

Filho de Manuel Pires e Isabel Fernandes, Francisco Henriques nasceu em Miranda do Douro, pelo ano de 1583. Casou com Ana Rodrigues, da conhecida família dos Mogadouro. A sua casa, de dois pisos, avaliada em 60 mil réis, situava-se a meio da Rua da Costanilha, confrontando da parte de baixo com a de Isabel Henriques.(1) No r/chão funcionava a sua loja de mercador e seria a mais forte da cidade, a avaliar pela mercadoria arrolada. Assim, no que respeita a tecidos, havia-os de variada espécie: estopa (pano grosso de linho), canequim, bombazine, beirame (tecido da Índia), lenço de Arouca, cassa, beatilha, rengo, panos de Colónia… bem como retrós e botões. De especiarias, ali se vendia canela, incenso, pimenta, cravo, açúcar, tabaco… ao lado do azeite, da cera ou das cordas… E também confeitos, sidra ou caixas de marmelada, tal como sacos de farinha, de trigo ou centeio.(2)

Escusado será dizer que o abastecimento da loja, em produtos importados, era essencialmente feito a partir de Lisboa, pelas empresas do cunhado, António Rodrigues Mogadouro, com o qual tinha largas contas.

Para além disso, Francisco Rodrigues também era rendeiro, trazendo arrendada, ao “contador de Tomar” a comenda de S. Cipriano de Angueira, que era da Ordem de Cristo. E emprestava dinheiro, como se depreende dos objetos de ouro e prata que tinha em seu poder, empenhados.

Dois acontecimentos marcaram a vida deste homem e da sua família. Um deles aconteceu no verão de 1638. Subia Francisco a Rua da Costanilha e, à porta da sua vizinha, Isabel Henriques, estavam estacionadas 3 juntas de bois, jungidas e com os respetivos carros atrelados. Perguntou se era seguro passar. Responderam-lhe que sim, que os animais não atiravam. Porém, aconteceu o contrário e um dos animais acertou um coice na perna de Francisco Henriques e partiu-lha, ficando meio ano em casa a curar e manco para o resto da vida. E com isso ganhou mesmo a alcunha de “Manco”.

O outro acontecimento foi em 1640, em um dos últimos dias do mês de setembro, dia em que calhou o Kipur e coincidiu com o primeiro dia de uma novena que faziam a Nossa Senhora do Rosário, cuja festa se celebrava em Miranda no primeiro domingo de outubro. Ao sair da novena, rezada na Sé, um grupo de rapazes chefiados por dois padres, dirigiram-se para a Rua da Costanilha e foram à porta de Francisco Henriques e “lhe deram grandes matracas” e o grito de ordem era:

— Viva a Nossa Senhora do Rosário e morra a Rainha Ester!

Referiam-se ao facto de os moradores da Costanilha terem celebrado nesse dia o Kipur vestindo fatos “domingueiros”, jejuando e deixando de trabalhar. E especialmente, a uma das 4 filhas de Francisco, chamada Ângela Henriques, acerca do que, um tal João Pires, o Patudo, de alcunha, cristão-velho, diria o seguinte:

— Reparou que (…) no tal dia andavam vestidos de festa, que não trabalhavam e que Francisco Henriques e sua mulher tinham muito enfeitada a sua filha solteira maior, com as melhores joias que tinham, e que a faziam de Rainha Ester, dia que eles festejavam em sua honra e jejuavam, esperando por sua estrela…(3)

Este acontecimento iria provocar um verdadeiro furacão que se abateu sobre a Rua da Costanilha: 40 moradores foram levados para as masmorras da inquisição e muitos deles ali encontraram a morte. Foi o caso da mulher de Francisco, sentenciada no auto-da-fé de 15.11.1643 e nesse dia assada na fogueira do santo ofício.(4)

A prisão de Francisco Henriques e de sua filha, a “rainha Ester” foi decretada em 22.12.1642,(5) sendo entregues em Coimbra em 9 de janeiro seguinte, por Lucas Freire de Andrade, irmão do inquisidor Cristóvão de Andrade Freire.

Um dos companheiros de cela chamava-se Francisco Nunes. Dizia-se judeu mas na verdade era padre, estava preso por sodomia e tornou-se delator. O seu testemunho mostra-nos o estado de espírito de Francisco:

— Disse que Francisco Henriques, em algumas práticas que teve com ele lhe disse que todos os cristãos-novos de Miranda lhe haviam de ter grande respeito, que ainda que viessem presos, o não haviam de culpar (…) e os mais cristãos-novos esperavam o perdão geral (…) e que sua mulher lhe dissera que tivesse bom ânimo, e que se boa fazenda tinha, que a acrescentasse e fizesse melhor porque, ainda que a queimassem e fizessem em carvão, não o havia de descobrir nem culpar; e os outros cristãos-novos daquela terra o mesmo haviam de fazer porque bastava ser um homem velho e manco a quem teriam respeito.(6)

Na verdade, ao cabo de um ano de prisão, o ânimo faltou-lhe e ele próprio confessou suas culpas, dizendo que fora levado para a lei de Moisés por sua irmã. Vejam:

— Disse que haverá 10 anos, em Miranda, se achou com Catarina Vaz, sua irmã, já defunta, casada com Belchior Pires; e estando ambos sós, lhe disse a dita Catarina Vaz que seu marido viera de Roma e estivera na Judiaria e lhe parecera melhor a lei de Moisés que a fé de Cristo e que se passasse ele confitente à crença da dita lei, porque era boa para salvar a alma; e parecendo bem o que lhe ensinava a dita sua irmã, se passou (…) e em casa da dita Catarina Vaz sua irmã se achou com ela e com sua mulher Ana Rodrigues e com Ângela Henriques sua filha e com Isabel Henriques também sua filha casada com Tomás Henriques,

moradores em Alcanices…(7)

Deve acrescentar-se que a casa e quintal de Catarina Vaz era local privilegiado de reunião em sinagoga dos marranos da rua da Costanilha. Sobre o assunto, apresentamos a seguinte confissão de Joana Fernandes:

— Disse que sabe que as pessoas que abaixo nomeará guardam o sábado porque de 5 a 6 anos a esta parte via ela confitente Catarina Vaz (…) vizinha dela (…) e nos sábados de trabalho se punham no seu quintal, vestindo os melhores vestidos… e todas as ditas pessoas, de 5 anos a esta parte vira ela confitente ora umas pessoas ora outras entrar na casa e quintal da dita Catarina Vaz…(8)

Resta dizer que, Francisco Henriques foi condenado em cárcere e hábito, regressando a Trás-os-Montes em dezembro de 1643. Não voltaria, porém, à sua morada, na rua da Costanilha. Antes se foi viver para Mogadouro, conforme informação, de 1654, de António Henriques, membro de uma rede de passadores de judeus, estabelecida em Vimioso:

— Haverá 8 anos se achou ele confitente no Mogadouro, em companhia dos ditos Lucas Ferreira, Pedro Álvares e Gaspar Mendes e ajudou a passar para Castela a Francisco Henriques, cristão-novo, tratante, viúvo, não sabe de quem, mas era natural de Miranda do Douro, morador no Mogadouro e levava consigo duas filhas solteiras, uma de 20 anos (Mariana) e outra de 15 anos (Micaela). E por esta passagem deram a ele confitente e aos companheiros 10 mil réis.(9)

 

Notas:

1 - Inq. Coimbra, pº 10350: – O rev. Manuel de Oliveira, cónego da sé, disse que (…) a dita Isabel Henriques vive na Rua da Costanilha; pela parte de cima, paredes meias, vivia Francisco Henriques e pela parte de baixo vivia a Cardosa.

2 - Idem, pº 4510, de Francisco Henriques, tif 92-95.

3 - Idem, tif 24.

4 - Idem, pº 4990, de Ana Rodrigues. Segundo a descrição de um padre capuchinho francês, em Coimbra, os condenados à morte eram levados à meia-noite, para o areal da ponte e ali metidos, cada um dentro de uma casota feita de madeira e gesso, à qual deitavam fogo. PEREIRA, Isaías da Rosa – Clio, Auto de fé de Coimbra de 14 de junho de 1699.

5 - Idem, tif 45. Juntamente com Francisco e Ângela foi decretada a prisão de Jerónimo Henriques, Manuel Henriques, André Ramires e Santiago Mendes.

6 - Idem, tif 48-49.

7 - Idem, tif 109-110.

8 - Idem, tif. 14.

9 - Idem, pº 5931, de António Henriques.

Imbecilidades

Um pensador espanhol disse há dias ao El Mundo que a “imbecilidade humana é mais perigosa do que a bomba nuclear”. Fiquei a matutar na afirmação, estriba-se nas vicissitudes grotescas da imbecilidade das multidões e nas atitudes individuais do ser humano que a torto e a direito se compraz em exercitar tal negatividade de modo regular indiferente às consequências.

Como é sabido, os anais registam imbecilidades de grande dimensão, as pequenas como a do juiz Sérgio Moro apenas suscitam comentários vaporosos, a burricada corrupta do Partido Popular pode originar graves transtornos em Espanha a salpicarem Portugal, ao modo do desastre José Sócrates rebentou no nosso bolso e na credibilidade de Passos por teimosamente conseguir ultrapassar em zelo visceral a troika dando vazão ao ressentimento originado pelo forçado retorno à então Metrópole no linguajar do colonialismo. E, não foi só ele a vomitar baba e bílis pense o leitor noutros nomes do executivo passista. Não sou psicanalista, nem de longe, nem de perto, no entanto, os factos falam por si, só um exemplo: “emigrem”, lá fora também se vive!

O grego Empédocles distinguia quatro símbolos, terra, água, ar, fogo, para a representação dos elementos da cosmologia, pois bem, a imbecilidade em curso representa-se na futebolização da sociedade portuguesa, no esquartejamento da nossa língua, no esboroamento das instituições e no atropelo às boas maneiras, e ausência de sentido de Estado por parte de muitos dos seus representantes. Há dias as imaginativas senhoras bloquistas no decurso do desfile comemorativo do 25 de Abril entoaram palavras de ordem a pedirem a ida do Presidente do Brasil para junto de Salazar, antes um assessor do Bloco de Esquerda comparou a nossa PSP a bosta (continua a bolsar abstrusas opiniões acerca do racismo esquecendo sempre o racismo ao contrário), sem esquecer o aumento da dependência do povo dos subsídios tornando-o refém dos detentores do poder estatal. A propósito da proliferação dos subsídios pessoa que muito estimo disse-me há dias estar preocupado com o mimetismo venezuelano ou seja: subtilmente o tal poder dono da caixinha dos fundos fomenta a inércia intelectual, o aumento do «direito» à preguiça que o genro de Marx teorizou e anomia, a crescer em inúmeras comunidades de jovens.

O esquartejamento da língua verifica-se a todos níveis, os vocabulários vão-se reduzindo, as palavras sofrem violenta tortura, as formas de tratamento estão reduzidas ao Você de estrebaria. Seria interessante sabermos com quantas palavras trabalha no dia-a-dia um docente do Instituto Politécnico de Bragança, fazer-se um estudo rigoroso desprovido de cosmética beneficiava a Instituição para lá de todos os criadores de programas educativos e culturais. O estudo das pragas dos castanheiros, do estancamento da produção de lúpulo e das aplicações tecnológicas são importantes, o estudo das matrizes linguísticas e sua utilização nas Escolas (professores e alunos) não o é menos.

Ler é conhecimento, estamos a sapejar neste segmento, o mesmo ocorre na frequência de outros equipamentos culturais no campo da fruição, logo no oposto da utilização forçada seja nos dias festivos, seja na burocracia da procissão do desfolhar do programa. Os museus nacionais no ano passado perderam mais de meio milhão de visitantes!

O futebol transformou-se numa indústria de entretenimento de biliões de euros. Vale tudo, mesmo tirar olhos, a indústria em todas as suas vertentes consegue monopolizar a televisão por cabo de sexta-feira a sexta-feira. Vai velando a RTP 2, pois a 3 também já está contaminada.

De quando em vez (durante meia hora) pratico salto de canais, os cómicos comentadores arranham-se e soltam dichotes abaixo de regateiras de línguas sujas de sarro obsceno. Os índices de audiências mandam na composição do altar das perorações, fazem-se transferências, passarões políticos na enjeitam comentar o impacto da bola disparada à queima-roupa.

A Europa vive entre o futebol as fobias e os escândalos financeiros.

O camarada Fé-fé (Ferro Rodrigues) insurgiu-se contra a política de casos, tem razão, todavia a Casa por ele presidida tem a faca legislativa capaz de fatiar e extirpar os nódulos negros da génese da referida imbecilidade. O discurso caiu bem, porém de discursos está o País de barriga cheia, de artigos deste género também, tal como outrora a Europa, nós fingimos não ver o óbvio por enquanto expresso nos populismos já ameaçadores, no futuro tudo pode acontecer. A História…

O famoso historiador e especialista em Literatura Comparada Paul Hazard escreveu a Crise da Consciência Europeia, o nazismo e o comunismo rugiam exibindo fauces medonhas, dentro de 19 dias realizam-se as eleições europeias, quem me lê caso tenha interesse ganha se ler o livro de Hazard editado pela Cosmos. Na Faculdade de Letras alguns professores concediam-lhe honras de bibliografia prioritária logo essencial. Bons tempos!

O espírito dos pássaros

Com a primavera volta o tempo dos pássaros. Desde a aurora, cantam, celebram alegremente o nascimento do dia, lançam-se em vocalizações de alegria, alertam os humanos de que um acontecimento considerável se está a produzir: a aurora dum novo dia, o nascer do sol, o regresso da luz. Fantásticos mensageiros, infelizmente em vias de extinção…

Tudo começa suavemente, de forma quase imperceptível, todos os dias por volta das 6 horas. Trata-se em primeiro lugar dum chilrear agudo, isolado, furtivo, de seguida acompanhado por um ou dois outros que são convocados, que se respondem, parecendo divertir-se nestas insólitas e cristalinas notas no silêncio das cidades adormecidas. Nem que não tenha o hábito de me levantar muito cedo, nada me é mais agradável do que que ter o privilégio de ser acordado desde a aurora para ouvir o canto destes pássaros misteriosos que posso adivinhar tratar-se de melros e pintassilgos.

Há já algum tempo que esta alegria se estriba também numa grande tristeza, porque me pergunto, como tantas outras pessoas, durante quanto tempo ainda poderemos ouvir essas risadas e esses trinados. Sabendo que na Europa se perderam 421 milhões de pássaros em três décadas, os efetivos de certas espécies aviárias declinam inexoravelmente, essencialmente nos nossos campos onde pesticidas e herbicidas se tornaram os dois mamilos do massacre. Adeus cotovias dos campos, pintassilgos melodiosos, canários negros e pombos-torcazes? Adeus passarinhos e perdizes? Como o desaparecimento anunciado de tudo o que era imemorável, estes anúncios fazem-nos tremer e apertam-nos o peito.

Metáfora das catástrofes que vamos vivendo, o fim das aves como o de tantas outras criaturas vivas remete-nos para a nossa indiferença, para a nossa surdez enraivecida, para o arsenal das nossas loucuras. Há certamente centenas de insectos que desaparecem também, mas os pássaros estão ligados a um simbolismo mais forte e mais significativo apontando para a elevação e para a liberdade. 

Pelo menos é o que nos ensinam as diversas tradições espirituais; a sufista, a Conferência dos pássaros de Farîd-Ud-Dîn’Attar (chantre do amor universal) ou a católica.

Religiões e mitologias sempre lhes reservaram um lugar simbólico de primeiro plano, reconhecendo-lhes uma importância capital a fim de abrir o caminho sombrio dos nossos destinos. A sua forma de estar no mundo, em harmonia com os ritmos naturais, designa-os como sendo “os mestres pensantes”, apesar do homem evitar converter-se à humildade e não se ver como um mero elemento entre outros no planeta Terra. Na religião católica os pássaros atravessam a caridade, a compaixão, o louvor de muitos santos como S. Isidoro ou S. Francisco cujos sermões às aves são habitados por uma poesia inesquecível: “Enquanto S. Francisco lhes dizia estas palavras, todas as aves começaram a abrir o bico, a alongar o pescoço, a esticar as asas e a inclinar respeitosamente as pequenas cabeças em direcção ao solo, e a mostrar através dos movimentos e dos seus cantos que as palavras do Pai Santo lhes causavam uma grande satisfação. E S. Francisco alegrava-se e deleitava-se com elas, e maravilhava-se ao ver uma tal multidão de aves, da sua tão bela variedade, e da sua atenção e familiaridade…”.

Os pássaros oferecem-nos também o espetáculo de muitos momentos de bem-estar, de diversão, de quietude, de despreocupação e serenidade.

Não precisamos de ir mais longe. Ver uma galinha tomar um banho de terra dá-nos uma ideia do que pode ser uma das maiores felicidades do mundo.

Acreditem ou não, mas quando terminei de escrever este texto, um belo melro com as suas penas negras brilhantes e um ar curioso fez-me uma visita durante alguns instantes no peitoril da janela. Alma dum poeta descontente? Poder tutelar ou um anjo da guarda? Ignoro completamente a razão, mas a sua presença muda e segura ainda me perturba agora, como a luz de cada manhã de maio.