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Lentidão corrói confiança

Ter, 27/01/2026 - 09:11


A deslocação do ministro da Agricultura a Bragança, no passado sábado, ficou marcada por um anúncio de peso político e financeiro, um programa de 30 milhões de euros destinado ao apoio à pastorícia extensiva. Num território onde o pastoreio é, simultaneamente, economia e cultura, a medida foi recebida com esperança. Ainda assim, o anúncio acabou, inevitavelmente, ofuscado por um problema antigo, os atrasos no pagamento das indemnizações aos pastores pelos prejuízos causados por ataques de lobos.
O testemunho de Alcina Afonso, pastora há quatro décadas, é revelador de uma realidade que se repete por toda a região. As perdas sucessivas de ovelhas não se resumem a números contabilísticos. Representam sofrimento e desgaste emocional, que se agrava quando as compensações, além de insuficientes, demoram muito a chegar, quando chegam. Há prejuízos que o dinheiro não cobre, mas há atrasos que o Estado não pode justificar.
É neste contexto que ganha particular relevância a polémica gerada em torno do vídeo que o ministro enviou a técnicos do ICNF, no qual apelava a uma atuação mais célere e proativa. O conteúdo e o tom da mensagem suscitaram críticas e levaram o Partido Socialista a pedir uma audição parlamentar ao governante. Confrontado com a controvérsia, José Manuel Fernandes rejeitou qualquer intenção de desrespeitar a lei, sublinhando que o seu apelo se limitava à necessidade de decidir mais depressa processos que se arrastam injustificadamente no tempo.
Independentemente da forma, o essencial da mensagem merece reflexão. Quando o próprio ministro reconhece “excesso de atraso” nos pagamentos, por exemplo, das compensações por ataques de lobos, está a dar voz a uma queixa antiga dos pastores. A lentidão administrativa corrói a confiança nas instituições e transforma políticas de proteção ambiental, legítimas e necessárias, em fatores de conflito social.
A coexistência entre a preservação do lobo-ibérico e a atividade pecuária exige equilíbrio, diálogo e, sobretudo, eficácia. O Programa Alcateia 2025-2035, aprovado em dezembro, representa um avanço significativo ao atualizar, pela primeira vez desde 2017, os valores das indemnizações e ao prever a simplificação e aceleração dos procedimentos. Os aumentos definidos são justos e respondem a uma reivindicação antiga do setor.
No entanto, nenhuma atualização de valores terá impacto real se os mecanismos continuarem bloqueados na prática. A credibilidade das políticas públicas mede-se menos pelos anúncios e mais pela capacidade de execução. Um pastor que espera anos por uma indemnização não vê o Estado como aliado, mas como mais um obstáculo à sua sobrevivência.
O programa anunciado pode ser uma oportunidade para valorizar a pastorícia, mas só produzirá efeitos se for acompanhado por uma administração pública eficiente, capaz de responder em tempo útil. Porque proteger o lobo é um desígnio nacional, mas proteger quem cuida do território é uma obrigação. Sem celeridade, não há justiça e sem pastores, o interior fica mais pobre e mais vazio.
 
Carina Alves, Diretora de Informação.