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Visitas pastorais e vida do Clero na aldeia dos Vales em Alfândega da Fé expressa em livro

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Ter, 07/09/2021 - 11:19


Natural de Sambade, em Alfândega da Fé, Lourdes Graça é licenciada em História e depois de reformada dedicou-se à investigação. A viver no Porto e durante as férias no Nordeste Transmontano, quis o destino que um manuscrito lhe viesse ter às mãos e foi o que precisava para se dedicar a um novo projecto. Depois de seis anos de investigação lançou o livro “Santa Cruz dos Vales à luz das Visitas Pastorais 1760-1829”, com o apoio da Câmara Municipal

Que livro é este?

Este livro é dos Vales, uma freguesia do concelho de Alfândega da Fé, mas que esteve sempre ligada a Sambade. Numa das vezes que estive em Sambade a passar férias o senhor presidente da Junta de Freguesia pediu-me para eu ver uns livros que ele tinha lá, uns manuscritos, e é dentro desse contexto que eu encontro um manuscrito que faz parte do património da igreja dos Vales, mas que aparece em Sambade, porque na altura a freguesia tinha deixado de existir, e penso que terá chegado à Casa do Povo, onde eu o encontrei no chão, aquando da construção da nova residência que há em Sambade. É um documento importante, porque durante 100 anos os visitadores da localidade dos Vales escreveram este manuscrito e foi a partir desse manuscrito que eu transliterei para o Word e fiz a investigação. Este é um livro mais para investigadores investigarem mais sobre a história da igreja e também investigar a história política que estava sempre subjacente.

É então uma obra científica?

É uma obra científica, faz parte do património mundial e muito do património da Diocese de Braga, à qual pertencia os Vales.

Mas o que pode ser encontrado neste livro?

Este livro é composto por sínteses, resumos, registos das pastorais. As pastorais eram visitas que os visitadores, mandados pelo arcebispo, faziam, neste caso, aos Vales e faziam todo um trabalho de inspecção e organização do culto. Fundamentalmente os visitadores tratavam da formação teológica do Clero. Não havia seminários e a formação teológico do Clero era feita nas freguesias mais importantes, neste dos Vales, era na freguesia de Sambade, até se dizia que havia lá uma escola. Outra coisa que podemos ler no livro é, por exemplo, a preocupação que a igreja tinha na conservação do culto. Em quase todas as pastorais eles dizem que a igreja deve ser conservada. Uma coisa curiosa, quando os visitadores chegavam faziam as visitas ao adro, porque era um sítio de enterro, então eles visitavam esse espaço, o sacrário e a pia baptismal.

O livro refere-se à história entre 1760-1829…

Sim. O que é que acontece? O aspecto político vai influenciar as coisas e o manuscrito está pintado na parte final, para acautelar as situações dos liberais, que eram pessoas que tinham objectivos diferentes das pessoas de lá. A partir de uma parte o manuscrito não se lê e por isso o livro também termina aí. As visitações eram feitas de dois em dois anos e os visitadores, normalmente, mudavam. Neste livro está ainda a informação de que a capela de São Gonçalo não tem paramentos.

Disse que é preciso ter outro cuidado a ler esta obra. Porquê?

Porque isto faz parte de um património cultural. Nós seleccionamos os temas que queríamos tratar ou que achámos por bem tratar, como por exemplo a maneira como os padres deviam andar vestidos naquela altura. Quem quiser investigar sobre a maneira de vestir do Clero na altura, também pode procurar dados no manuscrito. Porque o manuscrito, embora seja repetitivo, tem elementos muito importantes que já foram trabalhados.

Quanto tempo demorou a investigação?

Foram seis anos. Não estivemos seis anos sempre a investigar, porque cada visitador tem letra diferente e muitas vezes para nos habituarmos ao tipo de letra de um novo visitador era difícil e havia palavras muito difíceis de ler. Às vezes andávamos semanas e até meses atrás de uma palavra quando a descobríamos era quase uma festa. Também neste campo foi dignificante ter feito este trabalho.

Onde está o manuscrito?

Eu preenchi um papel e trouxe-o para a Maia, porque na Maia tinha outras possibilidades de fazer uma transcrição do documento. Agora penso que está a cargo de alguma autoridade política, mas não sei onde. De qualquer maneira, um documento daquelas não pode estar em parte incerta. Tem que estar no sítio certo, onde todos possam ter acesso a ele. Além disso, eu mandei logo na altura um CD para o arquivo de Bragança e para a autarquia, portanto o manuscrito não está perdido. Mas fisicamente tem que estar salvaguardado.

O que foi mais desafiante?

O que foi mais desafiante foi uma coisa engraçada, o sacrário. A igreja não tinha sacrário, porque a colocação do sacrário exigia determinadas clausulas que nos Vales não existiam, uma delas era a população e eles estiveram muito tempo a pedir a autorização para ter sacrário. E essa falta de sacrário prende-se com as reservas eucarísticas, prende-se com a salvação das almas, prende-se com os defuntos, e o sacrário mais perto era em Sambade. Depois de muitos pedidos, a 23 de Setembro de 1783 o desembargador autoriza que se coloque o sacrário. Este documento também está no livro.

Onde é que as pessoas podem encontrar o livro?

O livro está em Alfândega da Fé. Foi publicado e custeado pela Câmara de Alfândega da Fé.

 

João Maravilhas

Ilustrador

Como foi fazer parte deste projecto?

No fundo a nossa intenção foi dar uma outra luz à mensagem que se queria transmitir. Ser mais atractivo para quem pega numa obra destas. Há imagens que foram mesmo feitas por nós directamente da Igreja dos Vales e houve outras imagens que foram fornecidas e que depois tive que tratar. A linha gráfica, a paginação, os separadores que vai dividir os diferentes assuntos, tudo isso foi criado por nós, procurando interpretar aquilo que se queria transmitir.

Tratando-se de uma obra científica, há uma responsabilidade acrescida na reprodução das imagens?

Há. Houve também a necessidade de reconstruir algumas coisas. De num caso ou outro ter que se tirar um elemento. Por exemplo, o que importava era mostrar o altar e tirar a lâmpada florescente que tinha, por isso nós retocamos no sentido de dar maior visibilidade ao altar e não ter aquele ruido. Mas tivemos que respeitar toda a situação.

O que foi mais desafiante neste processo?

O desafiante foi criar uma obra que qualquer pessoa que a abra possa facilmente ler o que lá está, perceber o que se pretendia com isto. Foi também trabalhar muito com o preto e branco. A capa do livro é colorida, mas todo o interior está a preto e branco. O desafiante nisto é ter que pegar em várias coisas, em vários elementos que nos são fornecidos e tentar interpretar o que os autores querem e ao mesmo tempo dar-lhe uma visibilidade mais atraente e ser mais legível.

Jornalista: 
Ângela Pais