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Cronicando - HÁ LÍDERES E ASSIM-ASSIM

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Nesta nova normalidade na qual tudo pode acontecer, não havendo lugar para desafios, há ainda a perplexidade face a uma nova ordem que vai fazendo o seu caminho. Sem tempo para refletir sobre o que se está a passar, dou por mim a pensar se tudo isto não será uma experiência pavloviana e as cobaias somos nós. Desejaria, acima de tudo, que isto terminasse e alguém analise os conceitos-chave com que a comunicação social nos bombardeou desde o dia treze de março e observasse a sua evolução nestes dois meses de confinamento, sobretudo, do discurso político do presidente da república e primeiro-ministro e a redundância que os mesmos apresentaram. 
As novas rotinas já se estão a instalar-se e, não fosse a necessidade das dinâmicas económicas seguirem o fluxo, continuaríamos confinados um pouco à semelhança dos habitantes da lendária aldeia retratada no livro das Aventuras de João Sem Medo. Esta situação não será de todo má desde que se continue a confiar nas lideranças e se considere o Estado paternalista e que estará sempre aí para ajudar. O problema é que governar uma nação não é governar uma casa e, qualquer primeiro-ministro necessita de delegar. Para isso é que há a figura dos ministros em função das áreas fundamentais que organizam a sociedade. E também aqui há exemplos de verdadeiras lideranças e depois há os assim-assim. Neste grupo, inserem-se aqueles que não sendo bons comunicadores, carecem de estratégias políticas e de capacidades técnicas que respondam de eficazmente aos desafios, em tempos de pandemia. E deste grupo emerge a educação que tem andado numa constante deriva e, escudando-se atrás da pretensa autonomia das escolas, não soube responder nem dar orientações claras a quem está no terreno.
Hoje, o fascínio das aulas síncronas já passou e o número dos que assistem à telescola decresceu 50%. Não vamos falar dos novos heróis, vilipendiados até há pouco, que num esforço titânico preparam excelentes aulas que maravilharam os pais, nem tão pouco dos encarregados de educação que interrompendo aulas acusam a professora de insensível ou lançam imprecações bem piores. Concentremo-nos na violação de um dos princípios fundamentais do cidadão que é o direito à privacidade, claramente posto em causa quando o professor, a pretexto de melhor comunicação, exige ao aluno que mantenha a webcam ligada e esta atitude vai sendo respaldada por diretores de agrupamento que, lá está, sob a capa da autonomia tomam decisões contrárias aos preceitos democráticos e não se ouviu nem se leu uma única linha em que a tutela clarifique o que é legal ou deixa de o ser.
Se a partir de determinado momento, deixou de fazer sentido aquela ideia da “escola para todos”, em tempos de pandemia é por demais evidente que a escola pública não é mesmo para todos. A desigualdade no acesso aos meios informáticos coloca a nu as dificuldades que há em muitas das casas portuguesas e a resposta foi diversa conforme o aluno esteja no meio urbano ou no rural. Não é o apoio das juntas de freguesia ou a colaboração da GNR que colmata as dificuldades pois há quem considere que um telemóvel basta para aceder às aulas síncronas, quando outros pensam ser obrigatório o uso do computador.  
Com o regresso à escola, no dia dezoito, não só se evidenciou que as comunidades educativas ainda não são máquinas como não se teve em consideração o preço da interioridade. Como quer a tutela que um aluno assista às aulas de manhã numa escola e esteja às catorze no seu domicílio a mais de cem quilómetros a assistir às sessões síncronas? – É que na província há os deslocados e quem tivesse alugado quarto… e também há quem esteja no estrangeiro e não consiga regressar.
Dividir as turmas para manter o distanciamento social poder-se-ia considerar uma boa medida, até porque há muito se reclama pela redução do número de alunos. No entanto, também é verdade que os agrupamentos já preparam o novo ano letivo e, surpreendentemente, nada foi necessário fazer em termos de candidaturas já que, a pretexto da pandemia, por ordem do ministério, as direções gerais tomaram a iniciativa de preencher os formulários com igual número de alunos ao do ano de 2019/2020, pelo que voltaremos a ter turmas de 36 alunos. em alguns casos.
Com efeito, ou a pandemia foi um pré-teste para novos tempos que se avizinham ou o sistema educativo é o parente pobre onde tudo é assim-assim, e publicamente me retrato da reação extemporânea que tive quando um estudioso destas questões afirmou: “A escola de hoje é o mundo do faz de conta onde qualquer um pode reinar”.

 

Raúl Gomes