Cronicando- Vozes silenciosas

Quando se viveu o primeiro confinamento e se assistia à romantização da pandemia de onde sobressaiu a frase “Andrà tutto bene”, tive a preocupação de não embarcar nessa onda e, já em março, referi que o covid não iria passar tão depressa e que “o maior teste vai ser à capacidade de resiliência de cada um, dado ser garantido que esta crise não vai desaparecer de um momento para o outro.” Não foram dotes divinatórios que estiveram por detrás da afirmação mas o facto de olhar para o que é a história da humanidade e estabelecer linhas de análise verificando que, desta pandemia para as anteriores, a única variável diferente é a confiança que em março se tinha na ciência. Passados nove meses, nem as previsões mais otimistas apontam para uma vacina de imediato. Juntando a isto o facto de um dos investigadores da Pfizer ter vindo a terreiro dizer que a vida poderá regressar ao normal no inverno de 2021, não restam dúvidas de que nem tudo vai ficar bem, nem o que virá depois será como dantes. Sendo este um problema mundial, esperava-se que os organismos internacionais fossem capazes de implementar programas que respondessem aos desafios e criassem almofadas de conforto. Porém, em nenhuma das áreas se constatou que tal acontecesse e, por algum motivo, já não se ouve falar da “bazuca” que chegaria de Bruxelas porque, se chegar, será na próxima primavera e não será entre hinos de alegria. Em concreto, hoje, tem-se apenas a incerteza dos tempos e, de novo, as agências de rating a afirmar que Portugal é um dos países que mais irá sofrer com a destruição económica. A Moody’s aponta como razões principais as reservas das empresas, as alternativas ao financiamento e os horizontes mais curtos em termos de investimento. Estes factores não são novos, como também não é novidade de que persiste na sociedade portuguesa uma incapacidade em reestruturar, flexibilizar e diversificar. Nem sempre os empresários e os sistemas são responsáveis por este quadro, mas quem tem a obrigação de planear, prever e implementar medidas que capacitem as sociedades para fazer frente às crises não está ilibado de culpa. Infelizmente, tal não acontece por falta de massa crítica, mas antes porque as estruturas que nos governam e os decisores (não só os políticos) manifestam uma exacerbada tendência para o estaticismo o que, em tempos de crise, é por demais evidente e nefasto, pois são colocadas a nu fragilidades que passam despercebidas em épocas de crescimento. No último fórum do Banco Central Europeu, o diretor do departamento de assuntos orçamentais do Fundo Monetário Internacional, Vítor Gaspar, fez saber que as projeções apontam para que a maioria dos países veja a sua situação económica e financeira agravar-se, tornando mais evidente as ameaças para as economias e o emprego. Porém, não deixará de ser irónico, que seja um ex-ministro, que aplicou o ajustamento da troika entre 2011 e 2014, a aconselhar os governos a não retirarem os apoios orçamentais antes de tempo. Todos os que não têm voz revêem-se nesta recomendação e, por este país, há muitos que já sentem as consequências desta crise. Com efeito, este é o tempo de unir esforços; mas também será o tempo da responsabilidade social e, nesta linha de pensamento, não bastará reivindicar medidas de apoio para determinados sectores, mas é a hora dos próprios sectores se assumirem como líderes para o bem comum. A unidade nacional deve manifestar-se nestes momentos e, se se quer ter um futuro menos negro, impõe-se que, no presente, todos lucrem um pouco menos para depois se ganhar um pouco mais. Em contexto de emergência pública, não faz sentido que bens essenciais continuem a manter preços que começam a ser insuportáveis e se ofereçam moratórias que, longe de resolver o aperto financeiro das famílias, vai simplesmente agravá-lo. Neste capítulo, e enquanto os grandes grupos económicos continuam a perseguir o lucro, começam a emergir bons exemplos de pequenas e médias empresas que, em contexto local, vão dando resposta a necessidades primárias de cidadãos comuns que engrossam a fila dos carenciados. Espera-se que outras entidades adiram a este movimento e, em vez de criticar o estilo comunicacional do governo, como se isso fosse determinante, que cada indivíduo introduza na sua vida as mudanças necessárias que, embora não tragam a cura, pelo menos não espalhem a doença.

Raúl Gomes