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ESCREVER À ESQUERDA

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De tal forma a escrita se vulgarizou que, se fosse realizado um inquérito sobre o que é “escrever”, poucos iriam além da primeira entrada que o conceito apresenta num qualquer dicionário. Se “produzir” ou “criar” são apresentados como sinónimos do verbo, também “vacilar” ou “ziguezaguear” se inscrevem mais abaixo não deixando, por isso, de ser menos interessante tais significados.
A este propósito, a revista Sábado da segunda semana de outubro destaca um artigo de Filomena Mónica e António Araújo onde refletem acerca do que une e separa as duas grandes ideologias políticas (esquerda e direita) no Portugal contemporâneo. O texto, a merecer uma leitura atenta, refere que, se por um lado, as ideologias se confrontam, por outro, aproximaram-se em consequência da crise económica e das ameaças que pairam sobre o mundo. Ao mesmo tempo, não deixa de ser interessante que o artigo faça eco das críticas trocadas: a esquerda lamenta-se da hegemonia que a “gémea separada à nascença” tem no mundo dos negócios e a direita a aponta o dedo afirmando que a esquerda domina a imprensa, a cultura e as artes, sendo o maior agravo o de estar presente em tudo o que seja comentário e opinião. Dado o contexto atual, assistiu-se, segundo o artigo, ao esvair dos pilares destes dois campos, tendo a esquerda de admitir e apoiar medidas de segurança e vigilância até aqui impensáveis, e a direita a reconhecer que a confiança liberal na autorregulação dos mercados, com as falhas grosseiras da supervisão, conduziu ao descalabro financeiro de que ainda não se conseguiu sair. Como consequência, os movimentos partidários mais moderados perderam fulgor, e os mais radicais deixaram de se apresentar como alternativa e de confronto com o sistema, decidindo integrá-lo e influenciá-lo diretamente, estando, se não dentro, pelo menos, próximos do poder.     
Sendo eu povo, e partilhando do ponto de vista dos citados autores, não ficaria com as expectativas goradas se a Esquerda que agora nos governa revisitasse os seus valores e resolvesse, pelo menos, três das situações sociais e profissionais que se estão a tornar insuportáveis.
A primeira tem a ver com a educação. Sempre acreditei que o sistema educativo público, ganha quando a governação é socialista. Já tivemos a experiência frustrada com alguém que, encarregue da pasta, apenas teve o mérito de unir os professores em manifestações como nunca antes vistas. Nesta legislatura, o que vai sendo anunciado nem a remendos chega. São medidas avulsas, com um reduzido impacto nas escolas e esquecendo os agentes principais: os professores e os alunos. O fazer “a vista grossa” ao facto de um professor atender por dia cerca de trezentos alunos (tendo as turmas uma média de trinta alunos), mais a carga burocrática, está a levar uns e outros à exaustão, sem falar no envelhecimento dos primeiros e do que tal acarreta. A falta de operacionais em quase todos os estabelecimentos, em breve, dará lugar a um caos com consequências imprevisíveis. Para não falar dos currículos e da carga horária dos alunos.
A segunda decorre da reportagem TVI de oito e nove deste mês sobre o modo como a Inglaterra retira as crianças aos emigrantes portugueses, colocando-os num sistema de adoção marcadamente capitalista onde o que impera é a libra. Sempre vimos na Inglaterra um aliado, mas, desde sempre, este país se serviu em função dos seus interesses. Não ficou bem ao Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas dizer o que disse sobre o que Portugal pode (neste caso não pode fazer) para que crianças portuguesas, retiradas à força por uma tutela estrangeira, possam voltar aos braços dos seus pais também eles portugueses.
Em terceiro lugar, o sector do táxi. Quem conhece os taxistas transmontanos, de facto, não se revê na classe lisboeta, nem na sua verborreia, nem tão pouco no cheiro a tabaco e no pouco asseio que têm nas viaturas. Ninguém contesta que é necessário modernizar o sector e dar-lhe realmente formação, mas daí a desregular o mercado permitindo a concorrência de outros com o argumento de que “com os motoristas da Uber se pode ter uma conversa de jeito e andam limpinhos” vai uma distância considerável mesmo quando se trata do pagamento de impostos. 
Retomo, por isso, o pensamento de José Ferreira Pinto Basto, o visionário que construiu uma nação dentro de outra nação: “O capitalista inteligente é aquele que dá as melhores condições aos seus funcionários”.

Raúl Gomes