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Falando de… O Caminho Fica Longe, Vergílio Ferreira

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Em centenário do nascimento do escritor, a Quetzal reedita a sua obra completa. Cerca de quarenta e cinco volumes.
Sentiu a censura à ilharga, vendo obra sua apreendida. Em tempos de Salazar,
poucos eram os que escapavam aos esbirros do lápis azul. A Vergílio Ferreira coube-lhe o seu quinhão. O Caminho Fica Longe, apreendido em fase editorial, bem como Vagão J, retirado três anos mais tarde dos escaparates, um mês após o lançamento, são o “prémio” da ousadia de quem escrevia dando livre arbítrio ao seu talento.
Ler O Caminho Fica Longe, em período de férias, é sentir uma frescura que nos faz recuar a uma atemporalidade que nos conduz a momentos áureos de uma vivência feita de obstáculos, de lutas perdidas e ganhas em busca de desideratos que almejados e que com esforço se vão conquistando.
A Maria da Glória Padrão, Vergílio Ferreira em “Um Escritor Apresenta-se” afirma, “Escrever é uma espécie de catarse aristotélica”.
Muitas são as personagens que se identificam com cada um de nós, estudantes ou não, trabalhadores, boémios, conquistadores e conquistados do destino ou da força do trabalho, em busca de metas, percorrendo caminhos longos, distantes. Alguns, vítimas da própria razão da sua existência, oriundos de locais onde a escassez domina e a pobreza se acrescenta. É em Coimbra que tudo se passa e decorre.
Se o In Illo Tempore, de Trindade Coelho, é um recordar do que foi a vida académica em terra coimbrã, um tempo pretérito de uma existência que se glorifica, tecendo epifanias a uma juventude que faz da paródia um adjuvante a um trabalho que não se quer cansativo, O Caminho Fica Longe é o tempo presente da vida académica, das paixões exacerbadas, dos amores de estudantes, que começam e acabam ao ritmo dos anos lectivos, ou que perduram para além do prazer de ser estudante.
Um livro jovem, escrito numa idade jovem, um retrato a querer dizer que o tempo passado vem até nós transportando-nos para a época de todos os sonhos, onde não falta o excesso em comemorações académicas que todos querem celebrar. E Vergílio Ferreira, em forma de dedicatória escreve: A ti jovem amigo, que segues/heroicamente o caminho que traçaste/dedico este livro escrito na tua idade.
Vivendo em período em que todos são apodados de heróis, sem que a designação nos macule, jogadores de futebol, atletas de desportos vários, bombeiros em luta contra chamas ateadas por pirómanos, impunes e imputáveis, são lembrados  aqueles que do sacrifício e da renúncia fizeram o seu percurso escolar tentando chegar a patamares onde os progenitores, proletários de sempre, não chegaram.
Rui, Domingos, Amélia, Catarina, Joana, a mãe de Rui,  Vaz, Fernando e Luísa, que têm o mundo à sua espera. Envoltos em paixões, fazem e desfazem idílios amorosos ao ritmo dos seus apetites de juventude.
Escrito em 1939 e publicado em 1943, fazendo parte de uma trilogia a que os teóricos denominaram de neo-realista e que Hélder Godinho  confirma em prefácio  de quatro folhas, O Caminho Fica Longe, hoje, lido em liberdade conserva  a actualidade de outros tempos. As facilidades concedidas aos estudantes em tempos hodiernos, são do conhecimento público, diferentes das dos anos trinta. Sem trabalho, sem sacrifício, sem prazer nada se faz. As diferenças sociais, quer queiramos, quer não, mantêm-se. 
    Na sociedade mais democrática, onde todos se tuteiam, a academia ainda vive das suas clivagens. Os costumes de outrora e de agora não se alteraram, e nós, saídos do nosso habitat, revivemos, observando no livro o mundo dos outros, que não deixa de ser o nosso; o eu é também o outro, sem que, muitas vezes, não nos apercebamos.
A vida é, apesar de tudo, uma repetição de poucas diferenças. E é nela que aprendemos e transmitimos aos que nos descendem o exemplo da existência.
Neste livro de 366 páginas, o retrato de uma época a não perder.

Não foi adoptado o Novo Acordo Ortográfico.

Por  João Cabrita