PUB.

Identidades

PUB.

Não deixa de ser irónico que depois de a esquerda tradicional ter dado o seu melhor na defesa dos mais desfavorecidos, estes, um pouco menos desfavorecidos, tendam agora a virar-lhe as costas. Vivendo melhorzinho, os trabalhadores já não estão para se consumir com aquela mania de esborrachar homens barrigudos de fraque preto e charuto a vomitar cifrões. A oposição operariado/patronato não tem a mesma força mobilizadora que antes tinha entre as massas e por isso, a partir de certa altura e por razões de sobrevivência, a esquerda moderna viu-se obrigada a virar o disco. Mantendo a tradição de dividir para reinar que está no seu adn e de que necessita como do ar que respira, o instinto levou-a a convencer alguns grupos sociais de que são injustiçados por causa daquilo que os distingue de quem não é como eles.Em sociedade há diversas coisas que nos solidarizam, identificam, unem, nomeadamente a história, a língua, a cultura, a partilha do mesmo território, os anseios e projetos comuns, a seleção nacional de futebol.... Tudo isto é desvalorizado pelas pessoas que se entrincheiram num círculo. Elas farejam hostilidade e ameaça em quem está fora dos seus muros, antes de começarem a exigir compensações, como agora, pelos danos que pensam ter sofrido ao longo do tempo e continuam a sofrer. As quotas para mulheres na política e para certas minorias nas universidades, de que se tem falado, são dois exemplos. A meu ver, contudo, quem aceita ser beneficiado dessa maneira denota um autoconceito degradado e falta de respeito por si próprio. Estamos aqui por ação de uma vontade superior que faz de nós o que somos e nos dignifica, não obstante a diversidade generalizada. E à dignidade repugnam favorecimentos, pois estes partem do princípio de que alguns indivíduos são menores, inferiores, incapazes. A dignidade humana dá- -se mal com paternalismos e o desejo de superproteção cheira a esturro. Reparar que uma estação televisiva colocou um rapaz escuro a apresentar o telejornal, ver esse facto como uma vitória da inclusão sobre a discriminação negativa e dar os parabéns a uma e a outro é sinal rematado de preconceito, o oposto do que se quer dar a entender. No fundo, quem o ostenta acha que aquela pessoa é capaz de estar ali por causa dos traços que a distinguem da maioria e não pelos seus méritos. Eu nunca me lembraria de saudar uma coisa banal numa terra, como a nossa, onde existem pessoas com vários tons de pele, entre cem outras diferenças, que poderão ocupar o lugar que quiserem se se esforçarem para tanto. Nem tugi nem mugi quando passámos a ter um primeiro-ministro com origens na índia, uma ministra angolana e pelo menos um deputado que diz ter casado com outro homem. O precedente levantado pela discriminação positiva de cidadãos é que se excluirmos homens brancos, europeus, heterossexuais, de classe média/alta (isto é, a minoria odiada e a abater), não falta no mundo quem se ache com direito a ser discriminado, o que se tornaria insustentável. Hoje por todo o lado se sente no ar a sensibilidade extremada e assanhada de gente que se reconhece em grupos identitários. Achando-se injustiçadas tanto no presente como no passado, as pessoas vestem essa pele, interiorizam a indignação correspondente e deixam- -se levar por emoções sob as quais lhes é lícito insultar, denegrir, acusar, destruir, espancar ou até matar. Sobram criaturas que assumem facilmente estes papeis se souberem que podem tirar algum proveito disso. E quem há meses assistiu a uma intervenção da deputada joacine katar moreira não precisou de ser tarólogo para deduzir que a vitimização também se pode transformar em arrogância e autoritarismo num abrir e fechar de olhos. As pessoas em geral exibem preconceitos contra mulheres, negros, ciganos, imigrantes, homossexuais? Certamente, tal como todos eles os exibem por norma contra as pessoas em geral. Uma sociedade evoluída deve atenuar as desigualdades? Pois deve, mas sem perder de vista que é uma luta contra a natureza, e como tal nunca será ganha. Temos a obrigação moral de integrar os que são diferentes de nós e conviver em harmonia com eles? É o mínimo que se espera de gente civilizada, e isso até tem vindo a ser feito aos poucos pelo menos nesta parte do mundo. Mas é um caminhar difícil e constante, não uma linha de meta que se possa cortar.

Eduardo Pires