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Mais coisa, menos coisa....

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Agora já tudo são águas passadas, mas não se pode dizer que a minha entrada para a profissão tenha tido algo de honroso ou edificante, bem pelo contrário. Dada a grande afluência de alunos a partir do início da década de setenta, a escola viu-se de um dia para o outro a braços com a falta de professores qualificados. De modo que não se esteve com meias medidas e recorreu-se a malta que saía do secundário para remediar, procurando com ovos de péssima qualidade confecionar omeletas que não poderiam ser melhores. No fundo, apenas um pouco mais do culto das aparências que pelo tempo fora tem feito parte do nosso fado. Foi nessa leva inconsciente e inepta que eu marchei, em fevereiro de setenta e cinco, para dar educação física, embora pudesse nas calmas ter sido ciências, desenho, latim ou coisa que o valha. Não saí impune daquele salto para o escuro. A minha autoimagem ficou muito danificada com a experiência. Durante anos fui assaltado por pesadelos medonhos nos quais me via diante de alunos a quem não tinha nada para ensinar, em aulas onde era incapaz de dominar a desordem ameaçadora que rapidamente tomava conta de tudo. Mesmo que as condições tivessem depois mudado radicalmente, como mudaram, nunca cheguei a vencer de todo a insegurança, assim como um sentido teimoso de ineficácia e fracasso. Fiquei quarenta e três anos mais por apatia que outra coisa, sentindo bem a pertinência das palavras de mário de sá- -carneiro: “ganhar o pão do seu dia/com o suor do seu rosto.../— mas não há maior desgosto/nem há maior vilania!”. E foi, quase sempre, pouco menos que penoso. Aqueles tempos iniciais também eram sui generis por outras razões. As ideias que começavam a tomar conta de tudo (e com as quais eu alinhava abertamente, diga-se) incutiam às pessoas que a sociedade era composta de dominadores e dominados, opressores e oprimidos. Que era preciso derrubar o poder e a autoridade dos primeiros, pois neste mundo também tudo se move em função do conflito violento. Lutar de alguma maneira era urgente e estava na ordem do dia. É certo que na escola não havia patrões nem operários, mas sendo o sítio ideal para incutir nas jovens mentes as novas modas de pensar e levá-las a dar uns toques de luta de classes, num piscar de olhos ela já estava a ser acusada de reproduzir as desigualdades sociais, o aluno já era filho do povo explorado e o professor membro da burguesia exploradora. Foi por isso naturalíssima aquela tragicomédia em que a rapaziada chamou a si, em barulhentas érregêás animadas de devoção vanguardista, a liberdade de sanear os seus mestres mais broncos ou mais colados ao caduco estado novo. Com o excesso de genica e pouca tola que os dezassete anos costumam dar. Quando tudo recomeçou, começou logo a dar para o torto. Bem entendido, depois disso muita água correu sob as pontes. De então para cá, em teoria, a escola pública sempre tem declarado perseguir objetivos bastante elevados, tais como o desenvolvimento pessoal, os valores, o conhecimento científico, etc. Porém a ideologia instalou- -se nela desde então (e não apenas agora na disciplina de cidadania) como a ferrugem em chapa velha, algo que não poderá ser revertido antes de passarem muitas outras décadas e q.b. de sofrimento. Exemplos de crenças que por lá andam à solta, entre outras: aprender é algo a que se pode obrigar alguém; todos têm capacidades para aprender; o sucesso é um direito adquirido à partida, obrigando-se a escola apenas a confirmá-lo; atribuir aos alunos classificações que pouco fazem por merecer é beneficiá-los; os miúdos podem avaliar-se a si próprios; a escola é um lugar de confronto entre quem ensina e quem aprende; a escola precisa de dobrar a espinha perante pais ignorantes, desonestos e mal-educados. Que é feito do profe nesta ambiência tóxica?... Mesmo que o queira não se pode dar ao luxo de se mostrar um profissional científica e pedagogicamente habilitado, competente, sério. Com problemas em assumir que os filhos do povo não são todos inteligentes ou interessados, que não consegue ensinar por causa da indisciplina endémica, que participa num faz-de-conta pegado ao ter que apresentar resultados positivos que não tem, muito mais provável é que se deixe ir arrastando como uma figura entalada, complexada, acabrunhada. Afinal meteram-lhe na cabeça que a toda a culpa é dele.

Eduardo Pires