Não me ocorrera, então.

A festa fez-se. Com ordem, com calma e na escrupulosa observância das exigências que as autoridades sanitárias impuseram. Uma organização cuidada, aliada ao sentido cívico dos participantes permitiram que a festa o fosse e fosse, posteriormente, elogiada por muitos insuspeitos. Mas não teve paz. Invejada por todos que não conseguem uma réplica, foi agora invocada a pandemia para bloquear a sua realização. Já lhe tinham pegado com a ASAE, com as finanças, com as putativas ajudas das Câmaras comunistas, do “imperialismo soviético” e agora surgem as questões de saúde como razão quanto baste para o seu impedimento. Claro que a razão é outra e é incontornável. Ninguém em Portugal consegue fazer uma festa idêntica porque ninguém conta com o trabalho voluntário de milhares de simpatizantes. E isso dói. Daí vermos, desde o “investigador social” até à sopeira do Seixal, brandir o fantasma da pandemia como último reduto para a não realização. E com esta base argumentativa foram muitas as iniciativas: desde as centenas de artigos de opinião, abaixos-assinados, petições, tentativa de forçar a Assembleia da República a discutir o tema, automóveis em marcha lenta, encerramento do comércio, ameaça de abandono da zona enquanto durasse a festa, tudo foram razões para mostrar que os comunistas não deviam exibir o seu “coxo” no Seixal. Era ganhar na secretaria. E no entanto nem uma palavra sobre Fátima ou os desportos motorizados no Algarve. Bom. A festa correu bastante bem e isso não me surpreendeu. Os comunistas são rigorosos na organização e têm ascendente sobre aquele público. Já fiquei surpreendido por ter corrido mal em Fátima. Tem de ter havido ou desleixo ou inépcia da organização. Porque aquele público de fieis e peregrinos são receptivos às solicitações, recomendações ou exigências que a organização fizer porque a organização tem ascendente sobre eles. Deveria ter corrido bem. No Algarve, não. A organização não tem qualquer ascendente sobre o público, não há qualquer laço de afectividade entre eles logo o público tem pouco respeito pelas directrizes da organização. Tinha tudo para correr mal. Falo deste assunto com algum à vontade porque não tendo sido contra a festa achei que a não deviam ter feito por solidariedade com aqueles que a não puderam ter. Não me ocorrera, então, que a realização da festa pudesse ter uma leitura pedagógica da própria pandemia, leitura essa que não pode ser explicada “à priori” mas sim pelas consequências. Partindo do principio que não se vence uma pandemia, excepto com vacina, porque por mais confinamentos que haja, que moderam a propagação (achata a curva, como diz o outro), o desconfinamento é fatal. É desta fatalidade que o Governo é acusado em uníssono e porventura com razão. Talvez tivesse sido tudo mal feito. Se calhar não devia ter havido confinamento total como se calhar não devia ter havido aquele desconfinamento. Se calhar! Mas o que é um facto é que todos aceitàmos o confinamento como uma inevitabilidade assim como todos ficàmos contentes e aliviados com o desconfinamento. Mais. Se repararmos, vemos que toda a Europa fez basicamente como nós, afinando só a dureza das medidas pela agressividade com que a pandemia se apresentava. Hoje é fácil criticar as medidas tomadas, apontar erros, falar de omissões. Mas quem é que na altura contestou os procedimentos e alertou para o erro? Ninguém. (só temos treinadores de bancada a começar pelos comentadores profissionais) Ora, como não podemos estar sempre em confinamento porque aí o País passava a ser um “pandemónio”, então temos de aprender a viver com a pandemia. Se a não podemos vencer aliamo-nos a ela. É aí que a realização da festa do Avante pode contribuir para dar pistas de como se deve encarar a pandemia. Todos os sectores a funcionar, da restauração à cultura passando pela música ou as feiras. Tudo com limitações, constrangimentos, é certo, mas a funcionar. E é assim que tem de ser em sociedade como, aliás, está a ser o pensamento dominante.(repare-se na tentativa desesperada de manter as aulas presenciais em funcionamento). É, pois, na gestão desse ponto de equilíbrio entre o não confinamento e o evitar o colapso do sistema de saúde que está a grande dificuldade. E este equilíbrio faz-se um pouco a sentimento, “ad hoc”, de “navegação à vista” porque planificação de uma coisa desconhecida só em conversa de comentador. Hoje toda a gente se rebela contra as limitações à mobilidade, as reduções da actividade e tudo quanto restrinja os direitos cívicos. Atente-se na revolta dos homens da restauração quando se viram confrontados com a limitação da sua actividade aos fins de semana nos concelhos onde há maior incidência viral. Possivelmente, até, a Srª cozinheira do Seixal, que encabeçou a luta pelo encerramento das actividades económicas no Seixal enquanto durasse a festa do Avante, estará hoje a liderar uma luta contra o encerramento do seu restaurante sábado e domingo depois das 13 h, alegando ter todas as garantias sanitárias para poder servir qualquer um.(excepto, possivelmente, comunistas com peçonha) Passe a ironia, que pode muito bem ser verdadeira, o que é um facto é que aqueles que mais sofreram com o 1º confinamento não vêm com bom grado este 2º castigo uma vez que do 1º não se viram grandes ganhos e dão como perdido esse esforço. Entendo a frustração e a desilusão que lhe vai na alma. Mais do mesmo nunca rimou muito com pedagogia. E alguma pedagogia faltou. Somos bombardeados com números de infectados, de mortos, de recuperados, de lares, de hospitais em ruptura e numa tal profusão que se abeira do massacre e claro com o consequente fenómeno de rejeição. Já nem queremos ouvir falar. Jogou-se na pedagogia do medo ao invés de apostar na pedagogia da sedução. (ninguém veja isto como uma critica ao Governo ou seja lá a quem for. Aliás neste particular subscrevo inteiramente as palavras de Rui Rio quando se negou a fazer críticas ao Governo sobre o tema pandemia dizendo que de pandemia ninguém sabia nada e que era fácil e covarde falar no fim.) Mas a pedagogia da sedução seria uma acção que envolveria todos, os que já estão institucionalmente afectados mais partidos políticos, sindicatos, organizações da sociedade civil, comentadores políticos, autarcas, no sentido de criar uma dinâmica tendente a criar em nós o polícia de nós próprios. Acho que foi esse o ensaio do PCP no Avante. Porque com esse estado de espirito mais máscara, mais desinfectante, mais distanciamento, mais medo e com muito sentido cívico acho que podemos viver com a pandemia. Até porque “quando um homem enfrenta o impossível, o impossível recua”. P.S. Ainda não acabou a saga contra o PCP. Nem acabará. Agora é por causa do Congresso que se realizará em Loures. Claro que depois da “performance” dos comunistas na festa do Avante, os detractores ficaram sem margem de manobra para usar os argumentos sanitários como razão para o impedimento do Congresso. Agora falam de ética, de bom senso, de privilégio, de favor do Governo para a aprovação do orçamento (como se não fosse um direito constitucional) e outras bacoradas. Houve um comentador que sugeriu, até, que o Primeiro-Ministro devia pedir a Jerónimo de Sousa para adiar o Congresso. Mas, onde é que isto se viu!!!!? Já não sei o que é o bom senso. Por sua vez o Sr. Presidente da Republica fez um ataque ao PCP usando um artifício. (fez como o Pêra ao Padre Miguel) Não atacou o PCP mas elogiou a Igreja pela sua contenção na realização de eventos. Fez mal o Sr Presidente pois não foi grande exemplo. Quando o 13 de Agosto foi celebrado em Fátima foi o que se viu. Pastor não controlou o Rebanho. Por sua vez as críticas dos deputados foram confrangedoras. Se se vissem ao espelho verificariam que todos os dias eles fazem um Congresso com230 participantes com uma logística que não é nem de longe nem de perto como a do PCP. Espero que não aduzam como complemento argumentativo o facto do seu elevado absentismo permitir um muito maior distanciamento.

Manuel Vaz Pires