Notícia, Boa ou Má?

Acaba de ser divulgada a notícia da suspensão dos ensaios clínicos de uma das mais promissoras vacinas contra o Coronavírus. Fica assim prejudicada a expectativa de ter no mercado, num espaço de tempo relativamente curto, o fármaco desenvolvido pela farmacêutica AstraZeneca em colaboração com a Universidade de Oxford. Parecendo ser uma má notícia, não o é, na verdade. Esta suspensão deveu-se ao aparecimento de uma séria reação adversa num dos voluntários que participam no teste. Não se sabe ainda se o problema de saúde que afetou o participante se deve ou não a um efeito direto ou secundário da inoculação a que foi sujeito. Pode acontecer que o que lhe aconteceu tenha outras causas e em nada seja devido ao novo medicamento. Nesse caso, logo que tal seja inequivocamente apurado, os testes podem prosseguir. Perde-se com isto algum tempo, precioso, é certo, para os investidores que podem ver outros concorrentes a passarem à frente e, igualmente, para os políticos que veem retardar o tão ansiado momento em que possam anunciar o início de uma nova era, progressivamente mais segura e de maior confiança. Quer uns, quer outros, hão de considerá-la uma má notícia. Mas para os utentes e destinatários esta é, sem qualquer dúvida, uma boa notícia. Qualquer que seja o desfecho deste incidente de percurso. Se o percalço foi estranho ao produto em desenvolvimento, o que se perde em tempo, ganha-se em confiança. Por maior que seja a pressão que quer os dirigentes quer os financiadores coloquem sobre os cientistas e técnicos, o que, em resultado do seu árduo e precioso trabalho, sair para o mercado, cumpre todas as regras e precauções. Se, pelo contrário, a nefasta ocorrência está de alguma forma relacionada com a vacina em desenvolvimento, então é bom parar para saber o quê, em concreto afeta, ou pode afetar, a saúde e a integridade dos que a vierem a tomar. É bom ter em conta que, mesmo que haja uma relação direta entre as duas situações, tal não implica, de imediato, o abandono dos estudos e testes. A grande maioria dos medicamentos têm efeitos secundários indesejáveis como, aliás, vem expresso na bula que, obrigatoriamente os acompanha. Não é dramático desde que se saiba quais são, em que medida e com que percentagem, acontecem. É essa, precisamente, a função dos ensaios clínicos de nível 3, como os que estão a ser levados a cabo, no caso em apreço. É para nossa segurança que as autoridades fiscalizadoras dos medicamentos só autorizam a comercialização, de qualquer um deles, depois de passadas todas as fases de desenvolvimento. Para que um fármaco chegue ao mercado tem de, primeiro, ser devida e exaustivamente testado em animais (fase pré- -clínica) só entrando no desenvolvimento clínico se nada de grave for detetado. Começam então os ensaios clínicos, de fase 1, para perceber a sua interação com o corpo humano. Na fase 2, ao mesmo tempo que se aumenta o conhecimento sobre a segurança, avalia-se a eficácia e determina-se a dose mais adequada. A fase 3, mais extensa e prolongada destina-se a comprovar a eficácia, em comparação com outros produtos do mercado. É também apurada a relação entre o benefício e o risco e só quando esta é claramente positiva é que se pede a autorização para introdução no mercado. A fase 4 é posterior e acontece com o medicamento já em uso embora se debruce também, entre outros, sobre a sua segurança. A suspensão dos ensaios, noticiada, para todos nós só pode ser uma boa notícia. Esperamos que a ela venha uma outra ainda melhor: a reação detetada não foi provocada pela inoculação da vacina ou, sendo-o, não é grave nem pressupõe um risco elevado. Entretanto, por maior que seja a ansiedade com que se espera a tão almejada vacina, devemos estar confiantes: há de vir quando for segura e eficaz, independentemente das eleições americanas, da propaganda russa ou da vontade de António Costa.

José Mário Leite