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Ponto de vista um

Os estudos de antropologia não deixam qualquer dúvida sobre o facto de descendermos todos de migrantes, com exceção talvez das pessoas que vivem na zona centro-oriental de África. No extenso período que levamos de História, e durante muito tempo ainda antes dela, sempre houve grupos de pessoas constrangidos a deixar as terras de origem pelas mais variadas razões: da escassez de recursos às guerras, dos desastres naturais às revoluções, das crises políticas às perseguições religiosas, das epidemias às convulsões sociais, das variações do clima à demografia. Sendo esta a regra geral, as deslocações humanas conheceram um aumento significativo depois da expansão europeia no século dezasseis, que deu origem a várias dezenas de novas nações em todo o mundo e alterou completamente a geografia política.

No que particularmente nos diz respeito não devemos perder de vista que este recanto da Ibéria tem sido lugar de passagem e fixação de imensa gente, de inúmeras castas e origens, que durante séculos aqui deixou a sua herança nos genes, nas línguas, nas culturas. Nem esquecer a nossa qualidade de nação que tem exportado catrefadas de gente para todo o lado, bastando dizer que nada menos que um terço de todos os portugueses existentes no planeta, cerca de cinco milhões de almas, são emigrantes, filhos ou netos deles. Não será necessária uma visão excecionalmente apurada sobre a realidade do mundo para compreender que só por ignorância ou estupidez um português que se preze se pode mostrar hostil aos imigrantes.

Movimentações humanas toda a vida existiram e vão existir. E a tendência será mesmo para aumentarem, tendo em conta que os fatores de instabilidade apontados não só não parecem querer diminuir como, ao desencadearem-se, irão inclusivamente encontrar pela frente cada vez mais pessoas, aquilo que o aumento populacional atual deixa prever. A nossa existência está repleta de incertezas, de sobressaltos. A paz, a segurança e a abundância num dia podem ser o desassossego, a ameaça e a penúria no seguinte. De um momento para o outro todos (e quando digo todos é mesmo todos) podemos tornar-nos refugiados ou migrantes.

Uma forma altruísta de olhar para os semelhantes que dessa forma são tocados pela mão da desgraça passa por compreendermos que não fica bem a gente civilizada meter a cabeça na areia e alhear-se dos problemas dos outros. Que não deveria carecer de grandes hesitações ou justificações, em lado nenhum, organizarmo-nos para acolher em zonas de maior tranquilidade como as nossas aqueles que tentam escapar de apuros de que também podemos vir a sofrer. Mas também existem razões egocêntricas, por assim dizer, para os recebermos de boa mente. Tendo os seus incómodos, o fenómeno pode trazer-nos vantagens: a miscigenação que as migrações permitem significa revitalização cultural das sociedades, bem como genes novos que apuram a espécie, a que acresce, no caso da Europa, a promessa de desengatar o marasmo demográfico.

Deve ser um pouco de tudo isso que inconscientemente está por trás do meu agrado e sentimento de aceitação quando vejo numa telenovela uma bonita atriz de retinto rosto oriental a exprimir-se num português-padrão impecável, um chefe de cozinha jugoslavo meio arrogante a falar de bacalhau retirando visível prazer dos nossos expressivos palavrões, uma angolana descomplexada a supervisionar a justiça ou um carioca a segurar firme a defesa da seleção. Curiosamente, e sem que talvez nos apercebamos, bragança está também em plena onda renovadora: é pouco provável que o grosso dos “estudantes” do politécnico regressem algum dia aos seus países. E em boa hora o façam, conquanto saibam o que nas suas vidas está em jogo com essa grave determinação. 

Apenas alguns pontos de vista sobre as migrações, com tanto de autênticos como de otimistas. Mas há outros. Para os captar teremos de fazer algum esforço deslocando-nos a toda a volta da realidade procurando examiná-la dos muitos ângulos que ela sempre apresenta. Mesmo procedendo assim, também será necessário impedir que os preconceitos ou as ideologias nos turvem a visão. Depois, há que não ter medo da verdade e ser capaz de chamar os bois pelos nomes, por muito desagradável que isso por vezes se afigure. Um assunto a que gostaria de voltar.

 

Eduardo Pires