Rotinas de um gato cor de laranja

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Ao final da tarde, tenho reparado que há um gato cor de laranja que vai dormir nas escadas de uma casa desabitada, aqui em frente ao prédio. Esperto, depois de o sol ter aquecido durante todo o dia os degraus de cimento. Penso que não tem dono, e ser um gato abandonado deve ser muito stressante, porque, além do mais, os felinos são animais assustadiços. E na rua há perigos constantes. No caso do gato cor de laranja, acho que encontrou um local onde se sente realmente seguro. Em frente às escadas há um muro também de cimento, inteiro. Há um portão de acesso, que está aberto, mas cresceu muita vegetação que ninguém corta, como silvas. Fica tudo no caminho até chegar ao degrau preferido do bichano. Além disso, as escadas têm um corrimão no mesmo cimento, que o deixa invisível do passeio. Ou seja, é praticamente impossível aceder àquele trono improvisado sem ser detectado. Se calhar é por isso que se sente tão seguro. Porque avaliou todos os riscos antes de criar esta rotina de aproveitar os finais de tarde para dormir numa escada quente pelo sol. Ao mesmo tempo, um dos meus gatos veio miar-me junto às pernas, altivo, como sempre, para me lembrar que tinha fome. Também já esteve na rua, mas era muito pequenino quando foi recolhido, e por isso está habituado a ter comida, casa, carinho e muita margem para fazer asneiras. São rotinas completamente diferentes, e nenhuma estará necessariamente errada. Rotinas são hábitos, não é? Coisas que nos habituamos a fazer em loop, de forma quase mecânica, onde já sabemos como vai começar, o que vai acontecer a seguir e qual o desfecho. Basta falhar um dente desta roda para arruinar o dia. Atira-nos para fora da nossa zona de conforto. Criar hábitos não é mau, de todo. Faz parte da vida, parece-me. É também isso que nos permite, tal como o gato que dorme no degrau quente pelo sol, estar em alguns momentos mais tranquilos, sem estar em constante sobressalto. Ainda que o factor surpresa faça falta, para nos sacudir e colocar alerta, também é reconfortante poder planear a curto prazo. Muito curto. Tendemos muitas vezes, por outro lado, a criar hábitos menos saudáveis. Ficamos presos a algumas rotinas que nada auguram de bom. O ser humano é um animal de hábitos, como os gatos. Mas o que no início pode ser desafiante, num instante pode tornar-se desgastante. E ficamos presos porque achamos que não podemos nem sabemos fazer de outra maneira. É como aquela célebre frase que afirma que não podemos fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. E nós bem sabemos que nada vai ser diferente. Só que teimamos em insistir. Resumindo numa expressão que adoro: “dar murros em ponta de faca”. Acho que é bastante descritiva. No fundo, as boas rotinas serão aquelas que facilitam o nosso dia-a-dia. As más são aquelas que nos fazem cair sempre no mesmo dia-a-dia. Acho que durante largo tempo irei ver o gato cor de laranja a dormir ao final da tarde no seu degrau preferido de cimento, quente pelo sol. Contudo, aposto que quando chegar o rigor do Inverno, ele vai arranjar outro sítio para as sestas, porque ali vai deixar de ser bom. Sejamos todos como o gato cor de laranja.

Tânia Rei