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UM LUGARZINHO AO SOL

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Agora que a época estival desapareceu e meio mundo regressa ao trabalho, seria bom continuar a ter este sol magnífico das praias e o descanso que o mês de agosto propicia. Há quem se contente com guardar recordações, outros realizam-se através das selfies que postam nas redes sociais divulgando aos quatro ventos por onde andaram nem que seja por, apenas, alguns minutos. Também há quem se alegre com o sonho de poder guardar um pouco do calor do verão para os meses de inverno. Se ainda há quem assim pense, não é menos verdade que a estação estival está cada vez mais atípica, e não falamos apenas de clima.
Este verão, para além do que já é habitual, apresentou como novidade uma nova espécie de político que, a propagar-se, irá dar origem a uma classe, pelo menos diferente, e para a qual a palavra rentrée deixará de ter significado. Esta nova espécie é aquela que nem no mês de agosto se cala e continua presente à hora dos telejornais e das antenas abertas como se não houvesse amanhã. Também é verdade que estão aptos a comentar os mais variados assuntos já que o jornalismo também se perpetua com as mesmas perguntas. Recordam-me um amigo, político, que em momentos pós-eleitorais e de indecisão quanto aos lugares a ocupar na máquina do estado, dizia a cada instante que era da sua natureza estar preparado para assumir qualquer cargo, fosse qual fosse o ministério. Pior do que isso, é chegar setembro e apercebermo-nos de que os discursos já não mobilizam, a Atalaia perdeu o fulgor, o Pontal diluiu-se no fumo das matas e  as promessas duram menos que uma lua.
Até agora, os portugueses iam para férias descansados e regressavam sabendo que iam encontrar tudo na mesma. Mas este agosto, como se sabe, abriu com surpresas. Numa dimensão de que poucos se aperceberam, agosto serviu para, no distrito aparecerem mais uma ou duas escolas de formação profissional, privadas, quando em julho os governantes juravam a pés juntos, e em Conselho Municipal de Educação, que nada disto iria acontecer até porque a densidade geográfica não se coaduna com tais necessidades.Com maior impacto foi a notícia de que as casas com maior exposição ao sol e qualidade ambiental assim-assim iriam pagar mais imposto. Temos de concordar que, em termos de timing, não podia a governação escolher melhor mês, já que em agosto o sol entra em todo o canto deste nosso país. Acredito também que tal notícia terá evitado imensos escaldões pois, qualquer cidadão cumpridor, ao sentir o sol a bater-lhe no dorso, enquanto se estirava na praia, não hesitaria em recolher-se debaixo do guarda-sol ao lembrar-se do que o esperará quando receber o IMI com o acréscimo do astro-rei para pagar. 
Em tempos não muito distantes, para tratar da tísica, os médicos aconselhavam os pacientes a terem longos períodos de repouso, de preferência no campo e em zonas ensolaradas evitando os locais mais frios e húmidos. Hoje, parece que já não importa as condições de salubridade e tão habituados estamos ao artificial e aos remédios que consideram desnecessária tanta preocupação com a localização do sítio onde descansamos. Numa era de super-homens quem se importa com o modo como o cidadão comum vive, desde que continue a pagar o que se perdoa às grandes multinacionais? A estas sob a designação de “incentivos fiscais” ou a coberto das interpretações mais enviusadas da lei não só se lhe constroem fortes alicerces, como também se lhes permite ter todos os lugares que queiram e, de preferência, ao sol e acima das nossas cabeças.
Curioso não deixará de ser que a mesma governação que introduz este coeficiente a sancionar os imóveis com maior exposição solar, pertence ao espectro político dos que apresentam incentivos fiscais para quem opte pelo uso de energias renováveis e instale painéis solares. Concordo que é pouco estético ver aqueles retângulos espalhados pelos telhados. Era preferível os gatos ou até as pombas… mas, a menos que se esteja a pensar numa solução semelhante à adotada pela aldeia de Rjukan na Noruega, não prevejo como podem ser conciliadas duas medidas tão díspares na sua essência.  
Para nós, povo, ainda há soluções. Uma será continuar a morar na casa dos pais, a outra pagar o imposto, ou caso nenhuma destas esteja ao alcance teremos de nos contentar com um buraquinho que, quanto mais escuro for, melhor será. Não se admirem depois quando for notícia que famílias inteiras cavaram uma toca no subsolo e, qual cena kafkiana, se transformaram em toupeiras. No entanto, para alegria de todos e uma pontinha de inveja de alguns, há quem procure um lugarzinho ao sol por outras bandas; seja na Goldam-Sachs, na mexicana Pemex ou ainda na Arrow-Global. “-Estes sim, são cá dos meus!” – Diria um professor dos tempos idos e que também já partiu… para eternidade.

Raúl Gomes